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-Mário de Carvalho por Vasco, retirado da net
17 DE MAIO DE 2007, QUINTA FEIRA
por Mário de Carvalho
APRESENTAÇÃO DE «ÁLVARO CUNHAL E A DISSIDÊNCIA DA TERCEIRA VIA» DE RAIMUNDO NARCISO
"Como é que gente bem formada, culta, às vezes brilhante, opta (estamos a falar de opções – ninguém aqui foi obrigado) pela renúncia à crítica e pela adopção de fórmulas que nem por serem tranquilizadoras e identitárias deixam de transportar consigo a mentira e os germes da iniquidade." Esta foi a questão com que Mário de Carvalho interpelou a numerosa plateia que assistiu ao lançamento do livro de Raimundo Narciso.
1 - Eu vou ser muito breve porque alguma experiência destes eventos me diz que as pessoas não têm grande vontade de ser trabalhadas com grandes discursos pelas sete da tarde, e reservam a sua disponibilidade, e bem, para ouvir o autor do livro que é lançado. Anuncio já que tenho pouco mais de 7 500 caracteres, o que, espero esteja dentro da medida da vossa paciência. São apenas algumas palavras para lembrar o percurso do autor, até à expulsão do PCP; para realçar aspectos que me pareceram mais marcantes no livro, e para deixar uma ou outra nota à margem:

2 - Raimundo Narciso abandonou o curso de Engenharia, no Técnico, em 1964, para entrar na vida de resistência clandestina, nos quadros do PCP. Viveu dez anos na clandestinidade em condições de grande risco e dureza, e integrou o comando da ARA, uma organização de acção armada do Partido Comunista, que exigia uma especial valentia, sangue frio e abnegação. Dessa actividade deu conta numa narrativa empolgante: “ARA – Acção Revolucionária Armada: A História Secreta do Braço Armado do PCP”, editado em 2000. Em 1972 ascendeu ao comité Central do Partido. Depois da Revolução do 25 de Abril foi encarregado de tarefas de especial melindre, designadamente dos contactos com áreas sensíveis da sociedade portuguesa, como são as Forças armadas, as policias e o aparelho judicial. Foi membro do comité central até 1988, e em Novembro de 1991, foi expulso do Partido, com Mário Lino e José Barros Moura, na sequência duma célebre reunião no Hotel Roma em Agosto de 1991.

3 – Recordada, em termos gerais, a biografia de Raimundo Narciso como é pública e conhecida, quero acrescentar uma nota pessoal para assinalar a extrema simpatia do Raimundo, a facilidade de contacto e de criar amigos, a sensatez e lucidez das apreciações, a capacidade de iniciativa, o sentido de justiça e também a firmeza e a coragem em situações difíceis, como muitos tiveram ocasião de comprovar.

4 -- Os eventos que se relatam e documentam neste livro, ocorridos há vinte anos, ou perto, têm que ver com o inconformismo do autor em relação à análise política da direcção do PCP, ao centralismo democrático de natureza estalinista e às maneiras de pensar e processos de actuação do aparelho do Partido que a sua consciência e o seu sentido de dignidade não aceitaram.
Raimundo Narciso descreve-nos quase sempre com bonomia e também sentido de humor, às vezes um tudo-nada amargo, o funcionamento, o debate e o estilo do Comité Central, no rescaldo da subida ao poder de Mikhail Gorbachev, com as convulsões e revelações que se seguiram, e as consequências últimas que de todos são conhecidas. Ficamos a par de alguns pormenores que habitualmente não são divulgados, desde a austeridade do gabinete de Álvaro Cunhal, à reserva do sexto andar das grandes deliberações. É nos contado o ambiente da Soeiro Pereira Gomes, como se adensava o quotidiano dos jovens quadros que eram então o principal apoio e suporte da direcção e que observavam, com estupefacção, dia após dia, a inalterabilidade do Partido face aos irrefutáveis acontecimentos que estavam a mudar o mundo. São abordados alguns casos que na altura tiveram grande repercussão mediática, como o grupo dos seis, o caso Zita Seabra, e seu tratamento no Comité central e o aparecimento, de início cauteloso, quase críptico, depois declarado, das primeiras dissidências internas que vieram a resultar no movimento a que os jornalistas chamaram “terceira via”.
A quem não esteja familiarizado com os hábitos, praxes e linguagens do Partido, certas passagens remetem para um clima estranho, mesmo exótico que, no entanto, diga-se de passagem, era aceite, vivido e praticado por cidadãos perfeitamente normais e conviventes, como o Raimundo, outros que estão aqui e eu próprio. E continua a ser, é preciso dizê-lo por pessoas que, enquanto pessoas, e o Raimundo não discordará disto, são merecedoras de consideração e estima.
Nos escalões mais altos, o jogo de linguagem chegava a ser rebuscado e repassado de subtilezas que só estavam ao alcance dos mais experimentados. Há no livro saborosas descrições da cautelosa utilização do procedimento a que, em dramaturgia se chama de “subtexto”: o que se diz é diferente daquilo que se significa. Discorre-se sobre uma coisa, quando se quer dizer outra: o que parecia ser uma questão de oportunidade sobre o adiamento de um congresso, por exemplo, recobria o primeiro questionamento subliminar do partido, do seu funcionamento e das suas políticas.
Talvez nos sectores por onde eu andei, numa altura em que o Partido estava repleto de intelectuais, os limites não fossem tão perceptíveis nem as sensibilidades tão subtis. Que eu me lembre, as afirmações cismáticas eram tão vulgares como o exercício irónico, ou mesmo paródico, do senso de humor. Mas estou a falar de sectores de inimputáveis, encarados com a bonevolência paciente com que os adultos escutam as divagações infantis.
Mas a nível do Comité Central imperava tacitamente uma estranha e generalizada demarcação dos limites da discussão. Podia-se discutir veementemente e, até extremadamente, tudo quanto fosse secundário e nada do que fosse essencial. Podia-se criticar os tons da tapeçaria, desde que não se tocasse nem no desenho, nem nas cores nem sequer na qualidade do tecido.

5 -- Os eventos, as peripécias (e as partes gagas) que vêm relatados tiveram as suas personagens e as suas autorias. O livro – a que, pelo menos uma vez, o autor chama modestamente “esta memória” -- dá conta de intervenções de Álvaro Cunhal e doutros elementos da direcção do partido, uns mais conhecidos, outros menos, numa aproximação de pormenor. Às vezes as palavras do Raimundo são quase de ternura, como quando se refere, por exemplo, a Blanqui Teixeira, do lado da ortodoxia, ou a António Graça, do lado da Crítica. Outras vezes, como nas referências a Jaime Serra, sobreleva a admiração pela coragem e pela frontalidade. Num ou noutro caso o juízo é mais severo (e posso acrescentar que nem sempre coincide com o meu) mas sem passar nunca pela agressividade ou pelo desrespeito pessoal.

6– A razão porque eu estou aqui, hoje, nesta mesa, a comentar este livro não é seguramente a minha grande avidez de falar em público, e não será apenas a admiração e a simpatia que tenho e já manifestei por Raimundo Narciso.
É também porque, tratando-se de uma abordagem em que o autor relata factos que foram seguramente marcantes na vida dele, alguns dolorosos e mesmo confrangedores, até com lamentáveis recortes policiescos, Raimundo Narciso não se deixou levar pela raiva e pelo ressentimento. E ainda porque o ponto de vista do autor é inelutavelmente de esquerda, ou seja, do ângulo dos princípios e dos valores e não dos preconceitos e dos interesses; do lado dos homens e não do lado das coisas, sendo certo que as bandeiras também são coisas.
Finalmente, porque desde há muitos anos me inquieta também esta questão perturbadora. Como é que gente bem formada, culta, às vezes brilhante, opta (estamos a falar de opções – ninguém aqui foi obrigado) pela renúncia à crítica e pela adopção de fórmulas que nem por serem tranquilizadoras e identitárias deixam de transportar consigo a mentira e os germes da iniquidade.
Não é que o livro pretenda resolver de vez o problema. Mas é mais um alerta, documentado e vivido, contra a auto-complacência, o raciocínio burocrático e a demissão da crítica. Como alguém lembrou um dia, no decorrer destas discussões, aludindo a uma célebre gravura de Francisco Goya “o sonho da razão engendra monstros”
MdC


 
Uma diiscussão com 30 anos de atrazo
Enviado por a.pacheco, em 21-05-2007 às 21:42:38
Meus amigos, não li ainda o livro todo, mas desculpem aquilo parece mais um chorrilho de coscuvilhisse, do que uma sintetização politica, das divergências, que estes elementos teriam com o PCP á época.s
s
Trinta anos antes, falo de 64-65 a FAP e o CMLP, já divergiam do PCP, e dos seus métodos, mas nessa altura argumentavam politicamente., e teorizavam novos caminhos.s
s
Textos ainda hoje perenes comos
s
Luta pacifica luta armada no nosso partido.s
s
Luta de classes ou unidade de todos os portugueses honrados.s
s
s
O XX congresso, e a situação do movimento comunista internacional etc.s
s
Pretendiam confrontar os militantes do PCP, com questões de fundo da politica do país ,e das divisões ideologicas já então se manifestavam no partido.s
s
A Unidade de todos os portugueses honrados, teoria de Cunhal para derrubar a ditadura , e que tão graves consequências trouxe ao PCP, era abertamente questionada.s
s
O que vemos com este livro, um grande debate.... NÂO s
s
Algumas questões de somenos, e uma tentativa de debate serôdia pois vinha atrazada de 30 anos.

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