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26 DE AGOSTO DE 2007, DOMINGO
Entrevista a João Rodrigues
A Crise Bolsista comentada à esquerda
João Rodrigues é um economista heterodoxo habilitado para comentar o recente mini-crash nas bolsas internacionais. Esta crise tem particularidades na medida em que começa com o avolumar do crédito hipotecário mal parado, o qual não se pode dissociar do deslizar ascendente nas taxas de juro comandadas pelos bancos centrais. Forçou uma gigantesca injecção de dinheiro fresco, o que pode ser visto como falência de uma regulação liberal da economia. A intervenção dos bancos centrais não pode deixar, por outro lado, de sinalizar grossa borrasca que por aí vem.
RC: Podes descrever-nos a tua interpretação sobre os mecanismos desta crise, as suas causas e as medidas adoptadas para a conjurar no imediato

Acho que é preciso colocar esta crise (ou talvez seja melhor falar, por enquanto, de sobressalto financeiro dada a incerteza radical acerca da gravidade e profundidade dos encadeamentos que a geraram), no quadro de um regime de acumulação dominado pela finança de mercado. Este regime emergiu a partir do final dos anos setenta com a liberalização e desregulamentação dos mercados financeiros. Estes processos aumentaram a fragilidade financeira do capitalismo com a multiplicação de crises bancárias, cambiais e com as constantes perturbações nos mercados accionistas, com impactos profundos nas economias de muitos países. Os EUA, ao contrário de tantos países, têm conseguido mitigar os efeitos destas crises devido à disponibilidade e possibilidade que a Reserva Federal tem para injectar liquidez no sistema de forma a evitar danos mais graves. Foi o que fez mais uma vez (e agora também o BCE), esquecendo temporariamente, e como convém, as suas fidelidades liberais, agora que uma crise financeira parece desenhar-se no horizonte (que teve desta vez como epicentro os segmentos do mercado de crédito hipotecário dirigido aos grupos sociais mais pobres e vulneráveis nos EUA).

É consensual dizer que a redução das taxas de juro no princípio do século, engendrada para fazer face ao rebentamento da bolha especulativa das empresas dot.com que poderia ter tido consequências ainda mais desastrosas, solucionou um problema ajudando a criar outro uma vez que alimentou a expansão do crédito que estimulou e muito a especulação imobiliária que está na base dos actuais problemas. Assim, a concessão de créditos subprime (créditos concedidos sem garantias robustas de pagamento) assentou na hipótese da continuação da subida dos preços do sector imobiliário (figura abaixo), cuja evolução bateu recordes históricos. Concedeu-se crédito sem garantias na esperança de que, no futuro, este fosse pago graças à forte valorização dos activos imobiliários financiados (ver figura abaixo). A partir do momento em que este sector começou a viver uma desaceleração e uma estabilização dos preços, o anterior esquema perdeu validade e os casos de não pagamento de dívidas começaram a multiplicar-se.


Fonte: (Left Business Observer, 2005)


No entanto, e isto é fundamental, a crise é sobretudo o resultado das dinâmicas concorrenciais nos mercados financeiros liberalizados onde a especulação mais desenfreada alterna com os pânicos mais abruptos. As dinâmicas de concessão de crédito, num período de abundante liquidez, aliadas à profusão de produtos financeiros cada vez mais sofisticados e complexos, que permitem teoricamente «diversificar o risco» (a agora famosa titularização do crédito), aumentaram os incentivos para se desenvolverem relações de crédito cada vez mais perigosas e com menos garantias. Dois mecanismos explicam esta relação. Por um lado, ao titularizar créditos, as instituições financeiras podem rapidamente “vender” o crédito concedido, desfazendo-se de, pelo menos, parte do risco; o incentivo a relaxar as regras de concessão de crédito é assim maior. Por outro lado, a titularização permite dividir um só crédito em títulos de risco variável, onde os mais arriscados (e mais lucrativos) são os primeiros a serem atingidos em caso de não pagamento. Este mecanismo permitiu, ao mesmo tempo, criar títulos de crédito (baseados em créditos subprime) aparentemente não arriscados, o que se tem vindo a revelar uma pura ilusão.

Os bancos, os fundos de investimento, as agências de notação participaram neste processo. Cresce assim a opacidade dos mercados e torna-se cada vez mais difícil para cada agente avaliar a sustentabilidade das suas posições. Até ser tarde de mais. O chamado «risco sistémico» é o resultado não intencional do somatório de decisões privadas de investimento. A permissividade liberal e a sua fé sem fim nos mercados é o pano de fundo que permite a emergência, mais uma vez desta situação.

Agora ninguém sabe até que ponto os balanços dos bancos, a espinha dorsal do sistema crédito, foram afectados pela crise que se desencadeou no imobiliário e que rapidamente se transmitiu aos mercados financeiros por via dos produtos financeiros opacos que aí são transaccionados tendo por base as hipotecas. Isto leva a uma potencial contracção do crédito que põe em causa a estabilidade de todo o sistema económico. Evitar esta contracção, que se reflectiu por exemplo no mercado interbancário, foi o objectivo das injecções maciças de liquidez por parte do Fed e do BCE.



RC: quais são na tua perspectiva as consequências no crescimento económico das potências capitalistas que a crise pode trazer. Tanto mais que o ambiente continua teimosamente marcado por uma expansão muito ténue da riqueza? E quais poderão ser as consequências sociais da crise?

Acho que os EUA, pelos níveis de endividamento interno e externo que acumularam, parecem ser o elo mais fraco do sistema mundial. A continuação da quebra do preços activos (sobretudo no sector imobiliário) pode levar as mais perturbações no sistema financeiro com adicionais restrições de crédito, fruto da reavaliação do risco de crédito, gerando quebras do consumo, do investimento e dos lucros. Aqui temos um dos pontos fracos do sistema: a concessão de crédito e a valorização do preço dos activos tem permitido sustentar padrões de consumo entre as classes trabalhadoras nos EUA que têm escondido (até quando?) a estagnação dos seus rendimentos. Este ponto tem sido muito sublinhado pela Monthly Review. Sabendo que os EUA são hoje o chamado «consumidor de última instância» do resto do mundo (que tem estado disponível para financiar a dívida externa que dai resulta), um abrandamento do consumo devido à contracção do crédito e a uma espiral deflaccionária nos preços dos activos, podem gerar uma crise de dimensões internacionais. Mas isto é só um dos cenários. Os indicadores da “economia real” norte-americana continuam a muito saudáveis: o crescimento económico está longe de ser recessivo, a taxa de desemprego é historicamente baixa e a inflação está controlada. Mesmo o sector imobiliário parece só passar por um período de abrandamento, ainda não reflectido em indicadores tão importantes como o emprego deste sector. Acresce ainda que a restante economia internacional continua a viver um período de expansão económica (da qual o nosso país não tem beneficiado), criando um contexto favorável a que esta crise, se bem gerida pelas autoridades monetárias, não ultrapasse a esfera financeira. Não seria a primeira vez que tal aconteceria. Basta que nos lembremos da crise do “Long Term Capital Management” em 1998, em que a falência deste fundo de investimento colocou em risco todo o sistema financeiro. A acção imediata da Federal Reserve como “financiador de último recurso” impediu que o sobressalto financeiro não passasse disso mesmo.

RC: como vês a actuação chinesa neste quadro de crise?

Acho que a China não tem, até agora, jogado um papel nesta crise. O que não quer dizer que não o venha a fazer. Se as dificuldades se avolumarem nos EUA, pode acontecer que a disponibilidade chinesa para continuar a financiar o défice dos EUA (adquirindo obrigações do tesouro e outros activos) se atenue. Mas, dado o grau de interdependência das duas economias, acho que isto é pouco provável.


 

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