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10 DE NOVEMBRO DE 2008, SEGUNDA FEIRA
POR: Jorge Nascimento Fernandes
Congresso Internacional Karl Marx / 1¬ļ Col√≥quio ‚ÄúOs Comunistas em Portugal‚ÄĚ
Chama-se a aten√ß√£o para o importante Congresso Internacional Karl Marx que ir√° ter lugar no pr√≥ximo fim-de-semana. Ver o programa aqui. Jorge Nascimento Fernandes, que esteve presente no 1¬ļ Col√≥quio ‚ÄúOs Comunistas em Portugal‚ÄĚ, faz um relato daquela realiza√ß√£o, bem como, um apanhado breve das comunica√ß√Ķes apresentadas.
Congresso Internacional Karl Marx

Vai realizar-se nos dias 14, 15 e 16 de Novembro, na faculdade de Ci√™ncias Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, o Congresso Internacional Karl Marx. A organiza√ß√£o √© da Cultura, do Instituto de Hist√≥ria Contempor√Ęnea e da Transform!. Para obter o programa completo, clique aqui.
Para fazer a liga√ß√£o com o cap√≠tulo seguinte, gostaria de real√ßar que algumas das comunica√ß√Ķes apresentadas neste Congresso t√™m o mesmo protagonista e t√≠tulo de outras que foram apresentadas no Col√≥quio de "Os Comunistas em Portugal".


1¬ļ Col√≥quio ‚ÄúOs Comunistas em Portugal‚ÄĚ

Este Col√≥quio realizou-se no passado fim-de-semana, na Biblioteca Museu Rep√ļblica e Resist√™ncia.

Há que sublinhar que ele foi organizado pela revista Política Operária, que foi dirigida por Francisco Martins Rodrigues (FMR) até à sua morte, ocorrida há alguns meses. Chico Martins, como era mais conhecido, era um dissidente dos anos 60 do PCP, tendo o seu afastamento resultado de sérias divergências políticas com este Partido, quer no modo como encarava a Revolução em Portugal, quer pela posição pró-chinesa que assumiu no dissídio sino-soviético, quer quanto ao papel que Estaline desempenhou na União Soviética. Pode-se dizer, para simplificar, que FMR saiu pela esquerda do PCP e assim se manteve até ao final da vida. Por isso, sem o nomear explicitamente este Colóquio era também uma homenagem àquele revolucionário. Muitos dos oradores a isso se referiram.

Era evidente que estas op√ß√Ķes determinaram que o Col√≥quio fosse mais a defesa de uma determinada concep√ß√£o pol√≠tica, do que uma reflex√£o desapaixonada sobre o Movimento Comunista em Portugal. No entanto, houve a preocupa√ß√£o de convidar maioritariamente acad√©micos, com estudos feitos nesta √°rea que, na maioria dos casos, reflectiram serenamente sobre a hist√≥ria, a sociologia e at√© a antropologia do comunismo e dos comunistas em Portugal. N√£o fosse algumas reflex√Ķes mais apaixonadas, que depois referirei, est√°vamos perante uma selec√ß√£o bastante razo√°vel do pensamento acad√©mico sobre o assunto. Faltaram, no entanto, e eu sei que tentaram convid√°-los, o Jo√£o Ars√©nio Nunes, que esteve presente durante a maioria das comunica√ß√Ķes e que √© um dos poucos historiadores do PCP, filiados no Partido, com trabalhos publicados nesta √°rea, e o Jos√© Neves, que tem uma tese de doutoramento sobre Comunismo e Nacionalismo em Portugal ‚Äď Pol√≠tica, Cultura e Hist√≥ria no S√©culo XX, e cuja defesa presenciei e que foi por mim assinalada neste post. √Č prov√°vel que haja muitos outros trabalhos not√°veis de acad√©micos sobre os comunistas, mas que eu n√£o conhe√ßo.

Um dos males do Col√≥quio, √© que se pretendeu meter o Rossio na Rua da Betesga, provavelmente o que ir√° suceder no Congresso que se lhe segue. Facto extremamente dif√≠cil de controlar, dado que ao pretender abranger um vasto leque de temas √© preciso for√ßar a pontualidade do come√ßo das sess√Ķes. Assim, a partir de certa altura fomos a mata-cavalos, sem tempo para a discuss√£o e obrigando os intervenientes a terem que cortar nas suas interven√ß√Ķes. √Č sempre dif√≠cil, nestes casos, conseguir um balan√ßo entre tudo aquilo que se quer comunicar e o seu debate. S√£o op√ß√Ķes que os organizadores t√™m que assumir e utilizar pulso de ferro se querem que haja tempo para tudo.

Dito isto, passemos √†s comunica√ß√Ķes propriamente ditas. O seu programa est√° afixado neste post, por isso n√£o me irei referir a ele pormenorizadamente.

O primeiro bloco de comunica√ß√Ķes, sexta-feira ao fim da tarde, tinha a inten√ß√£o de dar um retrato do PCP em tr√™s fases distintas da sua hist√≥ria: a sua origem, o per√≠odo da Frente Popular defendida no VII Congresso da Internacional Comunista e depois uma experi√™ncia menos importante de frentismo, verificada entre 1956 e 1958, e que resultou do XX Congresso do PCUS. Quanto a mim, e por isso interroguei a mesa sobre este aspecto, faltava a experi√™ncia important√≠ssima de frentismo dos anos da II Guerra Mundial, que em Portugal tiveram repercuss√£o na cria√ß√£o do MUNAF e no MUD. A mesa concordou.

O segundo bloco desse dia, com um trabalho que ser√° igualmente apresentado no Congresso sobre Marx, referia-se √†s posi√ß√Ķes de M√°rio Dion√≠sio em rela√ß√£o ao PCP, de que tinha sido militante, quando este no seu livro A Paleta e o Mundo estabelece uma clara distin√ß√£o entre a liberdade de cria√ß√£o art√≠stica existente na Uni√£o Sovi√©tica nos primeiros anos da revolu√ß√£o e o que depois se veio a verificar, com a imposi√ß√£o do realismo socialista, facto que at√© √† data o PCP tinha ignorado. O autor estabelece claramente uma distin√ß√£o entre os dois per√≠odos, criticando certa historiografia universit√°ria inglesa revisionista que tem insistido na tecla de que o per√≠odo leninista da liberdade art√≠stica, que dura at√© 1934, anunciaria o per√≠odo repressivo estalinista. Confrontei o autor da comunica√ß√£o sobre aquilo que √© hoje para mim uma pedra de toque de toda a historiografia oficial reaccion√°ria e n√£o s√≥, tamb√©m social-democrata, de que n√£o haveria diferen√ßas entre aqueles dois per√≠odos, que a Uni√£o Sovi√©tica, desde o in√≠cio, tinha sido ‚Äúum imenso Gulag‚ÄĚ. Em resposta o autor, fugindo um bocado √† minha pergunta, responde-me, e bem, que no PCP, pelo menos no apogeu do neo-realista, os comunistas tamb√©m eram respons√°veis por essa confus√£o, ao n√£o valorizarem ou nem sequer reconhecerem a diferen√ßa, no campo da arte, entre os dois per√≠odos.

Depois seguiu-se uma comunicação relativa a um inquérito sociológico de Manuel Loff , que publicou recentemente um livro interessante, O Nosso Século é Fascista, e de Bruno Monteiro sobre a adesão comunista em Portugal (1960-1974), com trabalho de campo junto de operários do Porto que aderiram ao PCP naqueles anos.

No S√°bado de manh√£, incapaz de me levantar cedo, n√£o pude assistir √†s comunica√ß√Ķes tamb√©m de inqu√©rito sociol√≥gico ‚Äď que me perdoem os soci√≥logos, sobre a terminologia que estou aqui a usar ‚Äď relativas √†s comunistas do Cou√ßo, √†s companheiras das casa do Partido e aos testemunhos autobiogr√°ficos de autores comunistas. Ainda cheguei a tempo de assistir √† parte final desta √ļltima comunica√ß√£o e ao debate relativo √†s anteriores, que me pareceram bastante interessantes. Pecando provavelmente por excesso, consideraria todo este conjunto, mais um interven√ß√£o que houve da parte da tarde sobre mineiros, como as mais interessantes do Col√≥quio, j√° que pelo tipo de pesquisa que empreendem, fogem ao estereotipo ideol√≥gico sobre o PCP e a sua hist√≥ria.

O segundo bloco da manh√£ foi dedicado ao maoismo em Portugal e aos Partidos ML. Foram apresentadas comunica√ß√Ķes bem informadas, acad√©micas, que s√≥ muito indirectamente tomavam partido por esta causa. Permitiram durante a sua apresenta√ß√£o os momentos mais relaxantes do Col√≥quio, j√° que a terminologia usada naquele tempo por estes movimentos era de facto espantosa. Houve algu√©m que atr√°s de mim identificou, uma das fases mais rid√≠culas que foram apresentadas, como do J√ļlio Isidro, o actual apresentador da Televis√£o.

Os blocos da parte da tarde foram os mais pol√©micos. Apesar da primeira interven√ß√£o, que coube a Jo√£o Madeira, n√£o apresentar essas caracter√≠sticas. Foi relativa √† defesa que o PCP fez em Maio de 64, pelo efeito da cis√£o Martins Rodrigues, de ac√ß√Ķes especiais para acompanharem as manifesta√ß√Ķes do 1¬ļ de Maio e nalguns casos propondo interliga√ß√£o dessas ac√ß√Ķes com as pr√≥prias manifesta√ß√Ķes. Essas ac√ß√Ķes especiais consistiam em actos de sabotagem, corte de linhas de alta ten√ß√£o, ataques √† pol√≠cia, etc. Na zona de Gr√Ęndola esse tipo de ac√ß√Ķes chegou a concretizar-se com rebentamentos, sem qualquer efeito, em pontes, visando isolar o Concelho. Posteriormente, foram abandonadas e at√©, segundo percebi, criticadas. O autor considerou-as como um desvio esquerdista. Desconhecia estes epis√≥dios.

A intervenção mais polémica e quanto a mim completamente descabelada, e tanto mais grave visto que pretende vir a ser uma tese de doutoramento, foi a de Raquel Varela sobre o papel do PCP no processo revolucionário de 1974-75. Esta autora irá apresentar no Congresso sobre Marx uma comunicação semelhante, cujo nome é O PCP no PREC.

Raquel Varela que estudou um per√≠odo muito curto da nossa Revolu√ß√£o, entre o 25 de Abril e o VII Congresso do PCP, em Outubro de 74, formula a tese muito defendida em alguns meios esquerdistas que o PCP traiu a Revolu√ß√£o aliando-se √† burguesia e reprimindo as suas aspira√ß√Ķes populares. Chegou mesmo a dizer que a burguesia devia fazer uma est√°tua ao PCP porque foi este Partido que permitiu que a democracia se implantasse em Portugal. Deixando-se arrastar por estas considera√ß√Ķes chega a afirmar que o principal objectivo do PCP era entregar Angola ao MPLA e por isso aos sovi√©ticos. Aqui recorre j√° ao arsenal reaccion√°rio, que tem muitas vezes defendido este ponto de vista. Esta comunica√ß√£o pela terminologia usada, pelos preconceitos que manifesta fugiu ao esp√≠rito que at√© a√≠ vinha prevalecendo, de estudo sereno e acad√©mico da realidade, para passar √† pura constru√ß√£o e manipula√ß√£o ideol√≥gica. Raquel Varela assenta toda a sua interpreta√ß√£o nos comunicados do PCP e nas entrevistas dos seus dirigentes, no entanto parte de um parti-pris t√£o grande contra aquele Partido que √© incapaz de interpretar a realidade. Um s√≥ exemplo, na sua comunica√ß√£o afirma que a burguesia contou com a colabora√ß√£o do PCP no primeiro Governo Provis√≥rio do Sp√≠nola. Na sala estava um ‚Äúcapit√£o de Abril‚ÄĚ, o Luz, de que n√£o me recordo o primeiro nome, que no final esteve a falar comigo e que me contou o seguinte: quem quis que o PCP estivesse representado no primeiro Governo Provis√≥rio tinham sido os capit√£es, que achavam que o PCP era imprescind√≠vel, e que o Sp√≠nola tinha acedido porque considerava que era melhor ter o PCP ao p√© de si do que longe. Ou seja, dizia este ‚Äúcapit√£o‚ÄĚ Luz a ‚Äúburguesia era eu e os meus camaradas". Como por vezes a hist√≥ria tem meandros que s√£o mais simples do que as grandes constru√ß√Ķes que sobre ela fazemos.

Depois seguiu-se a interven√ß√£o de um brasileiro, Val√©rio Arcary, que tamb√©m vem apresentar uma comunica√ß√£o ao Congresso Marx e que falou com aquela descontrac√ß√£o pr√≥pria dos brasileiros. Apesar de ser favor√°vel √† interpreta√ß√£o da oradora anterior, soube com grande subtileza p√īr o problema noutros termos e com outra eleva√ß√£o, chegando mesmo a afirmar que a interveniente tinha que refazer algumas interpreta√ß√Ķes da sua tese.

No bloco seguinte e √ļltimo, aquele que teve que ser a mata-cavalos, houve uma interven√ß√£o um pouco semelhante √† de Raquel Varela, disseram-me que o orador era seu marido, mas agora virada para a posi√ß√£o do PCP sobre o Estado, principalmente sobre o livro de √Ālvaro Cunhal A Quest√£o do Estado, a Quest√£o Central de Cada Revolu√ß√£o. Pareceu-me tamb√©m influenciada por um certo esquerdismo, mas dados os saltos que o autor teve que fazer para concluir a sua interven√ß√£o √© um pouco dif√≠cil chegar √†quela conclus√£o. Depois tivemos a j√° referida interven√ß√£o sobre os mineiros, que continuavam a ser mineiros sem trabalharem na mina. Com um relato bastante interessante sobre a diferen√ßa entre o ser mineiro no passado e o ser mineiro hoje, gente especializada na condu√ß√£o de m√°quinas, que se desloca de mina em mina, sem ter ra√≠zes em parte nenhuma.

Por √ļltimo e a encerrar os trabalhos tivemos o ponto pol√≠tico de Ana Barradas, a companheira de Francisco Martins Rodrigues, que explanou as etapas do seu pensamento e que simultaneamente n√£o deixou de tra√ßar um panorama catastr√≥fico do que tinha sido a hist√≥ria do movimento comunista e a situa√ß√£o da revolu√ß√£o mundial. O objectivo j√° n√£o era apresentar uma comunica√ß√£o acad√©mica mas formular preocupa√ß√Ķes pol√≠ticas. Estou na maioria dos casos em desacordo com o que disse, mas considero-a mais como uma opini√£o pol√≠tica do que hist√≥rica.

Termino reconhecendo os méritos da iniciativa, mas achando que um debate destes tem que ser feito, com a participação de gente que ainda permanece comunistas, mas que já saiu do PCP, para nos contarem a sua história, com a colaboração de historiadores e investigadores académicos. Isto porque o PCP se recusa a fazer a sua história, como em Congresso ficou decidido.


 

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