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21 DE DEZEMBRO DE 2008, DOMINGO
POR: Francisco Louçã
A refundação da esquerda
"O Fórum sobre Democracia e Serviços Públicos, realizado no passado domingo na Aula Magna em Lisboa, suscitou inúmeros comentários, especulações, críticas, angústias e interpretações. São todas reveladoras e demonstram o impacto da iniciativa." Leia aqui o artigo de Francisco Louçã publicado no Esquerda.net, sobre o Fórum da "Democracia e Serviços Públicos".
O Fórum sobre Democracia e Serviços Públicos, realizado no passado domingo na Aula Magna em Lisboa, suscitou inúmeros comentários, especulações, críticas, angústias e interpretações. São todas reveladoras e demonstram o impacto da iniciativa.

1. O sucesso do Fórum sobre Democracia e Serviços Públicos

A iniciativa foi um sucesso por duas razões, na minha opinião.

Primeiro, porque tratava o tema mais importante do debate político no contexto da recessão: a responsabilidade pública e os serviços públicos como condição da democracia. E é isso que incomoda os responsáveis pela recessão e os governos que promovem a desigualdade social. Quando se discute a qualidade do Serviço Nacional de Saúde, se defende a luta dos professores e professoras, se recusa o Código do Trabalho e a precariedade, esse inventário condena as políticas concretas do governo. Mas é ainda mais importante porque este debate é portador de alternativas mobilizadoras e concretas, e elas foram discutidas no domingo passado.

Segundo, foi a mais ampla iniciativa das esquerdas que se realizou em Portugal. É certo que não esteve toda a gente, mas esteve quem queria estar. Estiveram presentes dirigentes sindicais, activistas políticos, pessoas de todas as áreas políticas das esquerdas. Esteve e foi protagonista Manuel Alegre, que foi o candidato presidencial que mais votos obteve à esquerda e que, tendo votado contra o Código do Trabalho e em solidariedade com a luta das escolas, demonstrou a sua coerência e respeito pelos seus eleitores.

Todos e todas puderam participar em igualdade num debate que juntou algumas e alguns dos melhores especialistas em Portugal sobre as políticas públicas.

A iniciativa desencadeou depois uma catadupa de declarações de ministros, com Augusto Santos Silva a desmultiplicar-se em televisões, e Pedro Silva Pereira, em ambos os casos a denunciarem a iniciativa e a ameaçarem veladamente Manuel Alegre e deputadas do PS que organizaram e estiveram presentes na Aula Magna.

2. Um novo partido?

O sucesso do Fórum deve-se ao que lá se passou. E não ao que lá não se passou. Isto vale, em particular, para as especulações acerca de um novo partido da esquerda.

A iniciativa juntava cidadãos e cidadãs mas não partidos. Juntava-os numa plataforma de debate e de acção sobre os serviços públicos. "Isto é o que é", escreveu Manuel Alegre no seu discurso. "Não há aqui partidos a mais nem partidos a menos", acrescentou. E tinha toda a razão.

Seria inconcebível que a iniciativa encobrisse um projecto discreto de um novo partido, independentemente da opinião dos seus promotores ou participantes. Manuel Alegre, questionado sobre o assunto, deixou aliás muito claro que o fórum era o que ali estava e não qualquer projecto diferente, sem prejuízo da liberdade de qualquer pessoa seguir o seu caminho ou apresentar as suas propostas à sociedade. Se posso falar do que sei de todos os promotores, é certo que nenhum aceitaria sobrepor a esta iniciativa aberta o projecto de um partido que feche. E estou de acordo com eles.

Mas a ideia de um novo partido foi perpassando em inúmeros comentários até porque, interrogado no final do Fórum sobre a sua perspectiva pessoal, Manuel Alegre não a admitiu mas também não a recusou em qualquer circunstância. Nem teria sentido que o fizesse, a liberdade de decisão não pode ser limitada. Mas isso não autorizava a especulação, sobretudo porque o próprio tornou clara a sua perspectiva sublinhando que um partido não se decreta e só pode resultar de um projecto político consistente.

Fica claro que não me pronuncio, nem ninguém na direcção do Bloco o fez ou fará, sobre as escolhas de Manuel Alegre e a sua relação com o PS. Essas são decisões que só competem aos próprios, e é só podemos e devemos respeitar essa liberdade de escolha.

Ainda assim, muitas pessoas precipitaram-se para defender ou comentar esse cenário. Uns porque o desejam (como alguns militantes de esquerda sem partido), outros porque o preferem.

3. O Bloco de Esquerda e a refundação da esquerda

O Bloco de Esquerda nasceu da necessidade de refundar a esquerda. Chamámos-lhe "começar de novo". E assim foi. Juntando correntes com tradições diferentes, mas sobretudo muitos militantes sociais e políticos que exigiam mais esquerda, mais coerente, mais unitária e mais combativa, o Bloco definiu um projecto estratégico: a rejeição da modernização conservadora, o combate às elites dominantes que exploram o modelo de salários baixos e de desigualdade social, as propostas de mobilização de massas e o reforço de movimentos sociais protagonistas, o socialismo como alternativa. Procurou, e tem conseguido, juntar forças diferentes, ideias e opiniões, experiências e vidas comprometidas com a luta coerente pelo programa político que temos construído.

Com esse projecto, o Bloco tem triunfado e é hoje um factor decisivo da evolução da esquerda. Esse projecto estratégico é o nosso compromisso militante. Tudo faremos para o desenvolver, nada aceitaremos para o prejudicar.

Por isso, o Bloco deve seguir sempre o mesmo princípio. Toda a unidade: com um programa claro. Todo o compromisso: para a mobilização para propostas claras. Um programa claro e as suas propostas claras, é o que pode mudar a esquerda portuguesa. É aí que se podem encontrar pessoas e ideias diferentes.

Essa política transforma o Bloco, como tem acontecido até agora. E por isso é mais radical hoje porque se concentra em propostas concretas, mais interveniente no debate de ideias e nas alternativas globais, mais popular e mais socialista. Essa política continuará a transformar o Bloco e, esperamos, toda a esquerda.

Não tememos por isso nenhuma transformação nas esquerdas. Todas são bem-vindas onde clarificam e ajudam a mobilizar mais forças de esquerda.

4. O que é preciso para refundar a esquerda?

O que mais impressiona nos intérpretes que descrevem o mapa de um novo partido é que não se perguntam quais seriam os objectivos e a política de um partido novo. Como se não interessasse. Como se um partido pudesse constituir-se só pelo efeito imediato e não por um projecto de longo prazo. Como se pudesse resistir sem uma estratégia coerente.

Tenho uma má notícia para os intérpretes. O que se juntou na Aula Magna, a força das ideias, a diversidade das posições, o compromisso com os serviços públicos, tudo isso é mais forte do que qualquer resposta de curtíssimo prazo. É mais ambicioso, mais profundo e mais transformador. É um diálogo empenhado em grandes mudanças nas formas de acção política, nos temas dos debates e confrontos.

Há caminhos muito mais fortes e profundos do que um partido, que necessariamente perderia parte da abrangência e da energia que se juntou na Aula Magna. Há caminhos mais amplos e mais transformadores na convergência das esquerdas, em que as ideias se multiplicam e as forças crescem.

Em 2009, em 2010 e depois, com uma recessão a agravar o desespero e a desigualdade, com a exploração e a injustiça social que fazem o dia a dia em Portugal, são os caminhos mais fortes que são necessários. Sem perder tempo.

Manuel Alegre expressou magnificamente esta urgência social ao enunciar a dívida interna e os compromissos que a esquerda tem que ter com os pobres, os desempregados, os marginalizados, os que mais sofrem. É isso que faz sempre toda a diferença. Concordo inteiramente com este compromisso socialista.

Para isso, refundar a esquerda é uma tarefa que não se pode desviar em horizontes curtos. Precisa de ser grande e ter objectivos grandes: uma nova hegemonia para uma esquerda que represente os trabalhadores e os seus programas de transformação e de socialismo. É com os olhos nesse horizonte e com toda a luta necessária que se fará a refundação da esquerda.

Francisco Louçã


 

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