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18 DE FEVEREIRO DE 2008, SEGUNDA FEIRA
POR: Cipriano Justo
A esquerda, depois da remodelação
"No passado, todos os ensaios de recomposição da esquerda que tiveram expressão organizada ficaram aquém das expectativas. Em boa verdade, uma alternativa de poder nunca chegou a fazer parte dos seus planos. E, no entanto, não é menos verdade que os argumentos para essa recomposição se têm feito sentir ao longo dos anos, porque entre o dogma e a gestão do plano oficial de contas está quase tudo por fazer."
Não será a lógica eleitoralista que irá conseguir apagar o regime de precariedade em que se transformou a sociedade portuguesa

A necessidade de se preencherem os lugares vazios no espectro que vai do Governo ao PCP é independente da remodelação verificada nos Ministérios da Saúde e da Cultura. Mesmo que viessem a verificar-se substanciais alterações na política de saúde, e apesar das medidas acrobáticas que previsivelmente começarão a ser tomadas como o recente anúncio de mais esmola aos pobres e mais umas "simplex" medidas, isso em nada alteraria as condições para a emergência de uma solução que represente no plano programático uma alternativa exequível ao caminho seguido nos últimos três anos pela actual direcção do PS. Não se trata de retirar, em 2009, a maioria absoluta a este Governo, mas de derrotar as suas políticas e disputar-lhe a influência junto do seu eleitorado tradicional, porque no que ele tem sido particularmente eficaz é em dar mau nome à esquerda.

As perguntas que justificam esta necessidade estão à vista e são sentidas por todos: quantas pessoas ficam desempregadas por cada uma que consegue arranjar emprego? Quantas falências têm de ser declaradas por cada ponto percentual de lucros bancários? Quantos hectares ficam sem gente no resto do território por cada prédio contruído no litoral? Quantos quilómetros tem de se percorrer para ter acesso a serviços de primeira necessidade? Quanta corrupção, favorecimentos e previlégios continuam à solta e por atacar? Quantos anos continuam a ser necessários para se chegar a uma sentença?

A natureza ideológica das escolhas desta maioria está expressa no sentido da maior parte das medidas que tomou até agora. Inconsequente no ataque às desigualdades, sobranceiro com todos quantos prestam um serviço público, auto-suficiente na forma como afronta os protestos das populações, irresponsável nos argumentos que utiliza para justificar a quebra de compromissos, permissivo nos ataques ao Estado de direito, um dedicado servidor das políticas neoliberais. É verdade que a direita teria maior dificuldade em executar tal programa, mas do que se trata é de reorientar prioridades e dar resposta aos défices sociais que diariamente se vão acumulando. Não será, por isso, a lógica eleitoralista, uma espécie de passaporte falso para procurar iludir a fronteira do descontentamento dos portugueses, que irá conseguir apagar o regime de precariedade em que se transformou a sociedade portuguesa.

No passado, todos os ensaios de recomposição da esquerda que tiveram expressão organizada ficaram aquém das expectativas. Em boa verdade, uma alternativa de poder nunca chegou a fazer parte dos seus planos. E, no entanto, não é menos verdade que os argumentos para essa recomposição se têm feito sentir ao longo dos anos, porque entre o dogma e a gestão do plano oficial de contas está quase tudo por fazer. E se a prevenção do erro é uma condição para o êxito de qualquer empreendimento, o que há a fazer então é tentar, evitando a repetição de erros anteriores. Isto não quer dizer que o caminho se faça caminhando. Em política, essa orientação, como haveria de dizer o gato de Lewis Carroll, tem uma forte probabilidade de levar a sítio nenhum ou terminar no abismo. Em política, o caminho faz-se pensando antecipadamente o que se quer fazer, para onde se quer ir, com quem se quer fazer o caminho e com que meios se pode contar. O ponto de saturação a que os portugueses chegaram constitui a mais importante condição para se criar uma alternativa a estas políticas. O mesmo, depois de 2009, já seria intolerável. Dirigente da Renovação Comunista


 

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