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29 DE MARÇO DE 2008, SÁBADO
POR: Paulo Fidalgo
Um Tempo de Viragem.
A Esquerda no actual ciclo político:
"É necessário dizer com frontalidade que as medidas anunciadas, bem como os ensaios de recuo e de assentimento negocial na área da educação, traduzem um importantíssimo sucesso da acção popular, como há muito não se via em Portugal, ainda por cima num contexto de maioria absoluta."
Nem que seja pelo olhar de um certo senso comum de raiz marxista, a presente situação é deveras evocativa de uma viragem histórica. É de crise o ambiente financeiro, é de catástrofe a alta das matérias primas, e é sobretudo desesperante a quase estagnação económica que não pode mais ser disfarçada pelo endividamento das famílias. Cresce o desemprego, tornam-se insuportáveis as desigualdades e inquietante a mancha de pobreza mesmo nos países considerados desenvolvidos.

A fase ascendente do ciclo económico estimulada que foi pelo neoliberalismo, uma agenda pontuada pelo recuo da economia estatal a favor de novos negócios para o capitalismo privado, pelas privatizações, pela desregulamentação dos mecanismos de protecção social, e pela geração de um ambiente irrestrito à navegação global do capital, redundou na mais séria crise depois da II Guerra Mundial. Os lucros privados subiram, à custa porém de uma pauperização crescente dos trabalhadores, ainda que iludida pela facilidade do crédito. Acabou –se na presente bancarrota em que, tão tipicamente como um livro de Marx, uma frontal dissociação foi gerada entre a capacidade produtiva quase ilimitada e o poder aquisitivo fortemente restringido dos cidadãos. Na tentativa de adiar a eclosão da crise, os falcões do liberalismo ainda fizeram a aposta na aventura militar do Iraque e Afeganistão mas também aqui, o resultado foi inverso: não se obtiveram novos negócios nem a expansão económica, antes se agravaram os dados da crise.

A própria insolvência de parte das companhias capitalistas e dos bancos forçou, quase do dia para a noite, a intervenções maciças dos Estados e dos Bancos Centrais na economia, mandando às malvas as cantatas liberais que antes ecoavam nas ondas mediáticas. Afinal, a farsa liberal da recusa em auxiliar quem nos apertos claudica, ficou bem à mostra quando o governo britâncio nacionalizou o Northen Rock e a Reserva Federal Americana e o Banco Central Europeu injectam maciças somas de dinheiro nos bancos privados de outro modo falidos.

O ricochete da crise face às políticas do liberalismo faz amadurecer em muitos países, em particular nos Estados Unidos, a consciência de que é necessário encontrar outro caminho.

No caso português, os caminhos de Sócrates foram clonados das tendências dominantes internacionais e, também aqui, os resultados foram mais estagnação e agravamento da crise social. Não tardaram portanto a manifestar-se profundas fracturas que questionam fortemente a manutenção dessas mesmas políticas e a tradicional arrumação eleitoral de forças. No plano da representação política, Portugal enfrenta hoje uma das crises mais sérias do pós-25 de Abril, na medida em que um sistema cada vez mais fechado de partidos enclausura os anseios de remodelação que operam de forma crescente na sociedade. São bem evidentes os sinais de desconformidade em todos os partidos, mas com natural incidência no PS por ser partido maioritário e de poder. Ninguém consegue apagar o sucesso da candidatura presidencial de Manuel Alegre, não se podem esquecer as fracturas nas eleições intercalares de Lisboa e, sobretudo, não se pode ignorar o protesto social onde pontificam as manifestações da CGTP no Parque das Nações e a prova de força dos professores.

Como dado surpreendente está a falência dos partidos tradicionais da direita em posicionarem-se para uma alternância, desde sempre o disco riscado que assombra a democracia portuguesa. O potencial de capitalização política do descontentamento, está praticamente vazio de representação abrindo-se à esquerda uma oportunidade que força Sócrates a uma inflexão política no discurso.

A remodelação governamental, a redução das taxas moderadoras da saúde e a decisão de fazer re-integrar na rede pública a gestão do Hospital Fernando da Fonseca, a que se deve juntar agora o anúncio da baixa do IVA, representam ajustamentos tácticos que mostram como Sócrates sente ameaçada a sua maioria absoluta, por parte da esquerda.

É necessário dizer com frontalidade que as medidas anunciadas, bem como os ensaios de recuo e de assentimento negocial na área da educação, traduzem um importantíssimo sucesso da acção popular, como há muito não se via em Portugal, ainda por cima num contexto de maioria absoluta. Os resultados aconselham portanto a explorar o sucesso da acção popular com a geração de novas propostas políticas e de representação para que o caminho percorrido desague numa efectiva remodelação.

É igualmente importante compreender que as cedências de Sócrates não são mais do que o abrir de um parêntesis naquilo que era a sua conduta anterior, parêntesis que seria imediatamente encerrado se o actual primeiro-ministro reconquistasse as condições para governar sozinho em 2009. Em conformidade, os activistas da esquerda, sobretudo aqueles que estão mais ligados ao PS, não devem suspender a sua crítica para que 2009, mais do que o tempo de Sócrates fechar um parêntesis, se torne afinal numa etapa de efectiva reconfiguração e remodelação políticas onde se construa um novo ciclo para o país. Seria trágico se o próximo quadro parlamentar não acolhesse os anseios de mudança e de reconfiguração política que hoje perpassam na nossa sociedade, arriscando-se uma forte abstenção que fragilizaria mais o futuro governo e o colocaria ainda mais à merçê de Belém.

Se é imperioso resistir à esquerda ao canto da sereia do governo de Sócrates, é igualmente muito importante assumirem-se as decididas rupturas que superem as paralisias que vêm tolhendo a sua afirmação potente. Em primeiro lugar está a questão da ruptura autonomizadora. Sem autonomia e indepêndencia face aos aparelhos dos partidos mais convencionais, não é a remodelação que se obtém mas sim a vitória última desses mesmos aparelhos e dispositivos. Em segundo lugar, é necessário romper com as manifestações de territorialidade que têm impedido a convergência à esquerda, no respeito pela identidade e pluralismo próprios das diversas formações. Sem disponibilidade para a convergência, não haverá credibilidade para mobilizar o voto dos portugueses. Em terceiro lugar é necessário romper o cadeado da governabilidade e da necessária contribuição da esquerda para a mudança de rumo governativo pela qual o país anseia. Sem afirmar junto dos portugueses um programa alternativo e uma efectiva vontade para participar na luta pela influência no Estado e no governo, poucos se sentirão tocados pelo novo discurso. Em quarto lugar, é necessário romper com as perspectivas de progressos limitados na convergência da esquerda, supostamente possíveis apenas no quadro das presidenciais, em 2010. Sem uma visão de conjunto de todo o ciclo eleitoral, enfraquece a própria perspectiva de convergência presidencial, na medida em que essa convergência cessa no acto eleitoral e não representa efectiva conquista de posições nos órgãos de soberania. Seria no fundo partir para este processo dizendo que se estaría disponível para entendimentos naquilo que faz pouca diferença, e manter as velhas divisões no que realmente conta, as eleições autárquicas, europeias e legislativas. Essa programa, mais limitado e pouco ambicioso, frustaria as exigências sociais e não abriria espaço à superação da crise económica.

A viragem porque os portugueses esperam depende portanto em larga medida da própria esquerda, da maturiade das suas componentes em avançarem para rupturas decididas e inadíaveis.


 
O PCP e acção de massas
Enviado por José Pereira, em 05-04-2008 às 16:51:20
Há ou não em todo este movimento de acção de massas.de unidade e convergência nas ruas um papel fundamental do PCP e da sua organização? Consegue reconhecer essa importância? Ou isto veio tudo do nada?
Mobilização da esquerda
Enviado por Inocêncio Cebola, em 31-03-2008 às 20:24:29
Tendo em conta o teor do artigo, sublinho que nunca foi tão possivel, com resultados que ultrapassariam as mais optimistas expectativas, uma convergências dos homens e mulheres de esquerda deste país. Desde que a alternativa a apresentar, se situasse equidistante de todos os actuais partidos de esquerda.
Tantos os actuais partidos de esquerda como os da direita, estão retratados para os portugueses, não conseguindo galvanizar aqueles, cerca de 30 % que não vai às urnas, mas que esperam por uma nova mensagem. O exemplo que melhor espelha a realidade descrita, foi o que se passou com a candidatura de Manuel Alegre nas presidênciais.
Pode o mesmo descansar que os votos não foram pela pessoa, mas sim pela falta de alternativa credivel aos olhos o eleitorado descrente.

Inocêncio Cebola
Educação
Enviado por Margarida Moreira, em 29-03-2008 às 11:15:29
Gostei muito de todo o texto, mas considero que poderias ter aprofundado as questões da educação, nomeadamente o modelo de avaliação dos professores, no actual contexto de desgovernação escolar em que a indisciplina dos alunos dita a agenda da escola e lhe gasta as energias quase todas.

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