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24 DE MAIO DE 2008, SÁBADO
FONTE: O Público
POR: Cipriano Justo
Dilemas
"Ao invés do dilema do prisioneiro, o compromisso com este estado de coisas só favorece o vencedor e na vida política o vencedor é aquele que de momento detém o poder."
Além do ensino da filosofia, os anos da Argélia de Pierre Bourdieu (1955-60) foram dedicados ao estudo da sociedade argelina num contexto de guerra de libertação nacional (1954-62). Mais do que em qualquer outra colónia ultramarina o conflito argelino foi porventura o que ficou melhor estudado e documentado – quem não se lembra desse ícone do cinema engagé La Bataille d’Alger de Gillo Pontecorvo (1966) –, devendo-se a Bourdieu, num exemplo de como se realiza investigação participada, a aplicação do método científico na análise dos efeitos provocados por aquele processo revolucionário não só na organização social dos camponeses da Kabília como é vulgar pensar-se, mas dos argelinos em geral (Interventions, 1961-2001). À distância de quase cinquenta anos mantém-se actual uma das sínteses daqueles trabalhos de investigação: no decurso dos processos de transformação emergem dos acontecimentos lógicas internas que, por serem do domínio do simbólico, acabam por se tornar representantes das mudanças operadas. O que acaba por uniformizar e contextualizar as representações sociais, dando-lhes sentido e significado, é essa espécie de totemismo gerado nas rupturas com a situação anterior.

Portugal esteve longe de viver um processo revolucionário semelhante ao argelino. Os pontos de contacto residiram na ruptura: no caso argelino com o seu passado colonial, no caso português com a ditadura. Em Portugal, os valores gerados na oposição ao fascismo e no decurso da revolução só acabaram por se tornar de facto minoritários a partir de 1987, quando a direita obteve a sua primeira maioria absoluta. Durante treze anos, tantos quantos durou o processo revolucionário e o período de transição, a luta de classes dominou o palco da vida política ditando a duração dos governos e as oscilações dos seus programas. Os treze anos que se seguiram caracterizaram-se pela progressiva assimilação dos valores do mercado e pelo desenvolvimento do seu habitus. A partir de 2002, com Durão Barroso, a lógica neoliberal passou a dominar a vida dos portugueses, detendo o actual governo o exclusivo da representação ideológica e programática do PSD, que o digam Marques Mendes, Luís Filipe Menezes e a senhora ou o senhor que se seguirem. Quem ainda ignora que há muito deixou de ser necessário juntar os trapinhos para se viver em união de facto?

Derrotar esta lógica deveria ser o único ponto da agenda política da esquerda no próximo ciclo eleitoral. Qual o papel reservado aos socialistas nesta caminhada até 2009? Naturalmente que isso há-de dizer-lhes respeito, mas este governo sinalizou de tal forma o rumo da sua política que qualquer assomo de inflexão à esquerda se transformou num sentido proibido. Produziu, também ele, a sua lógica interna: retirou o socialismo da gaveta e foi dependurá-lo no museu de arte antiga, autorizando que se pergunte se este governo é uma alteridade do PS ou a sua identidade.

Ao invés do dilema do prisioneiro, o compromisso com este estado de coisas só favorece o vencedor e na vida política o vencedor é aquele que de momento detém o poder. Estaremos a meio de um ciclo ou na perspectiva de uma mudança de ciclo? Para quem equaciona uma alternativa, outras hipóteses, não estando isentas de virtuais potencialidades noutro cenário, apresentam-se na actual conjuntura como uma vitória da actual maioria, que faria dela um troféu partidário e um argumento eleitoral na disputa com os destroços do PSD. Mas também é verdade que o que há para fazer e o que deve ser feito não são a mesma coisa, nem sempre coincidem e não é igual para todos. Talvez tenha sido por isso que os economistas inventaram o conceito de aversão ao risco e os psicólogos fizeram dele a principal explicação da conduta humana em situações de incerteza.

Dirigente da Renovação Comunista






 

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