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03 DE JULHO DE 2008, QUINTA FEIRA
POR: Cipriano Justo
Quando uma rosa morre…
...."o governo captou metade das simpatias eleitorais do PSD, alienou uma parte dos seus eleitores de esquerda e a outra parte está a ver como param as modas. Portanto, à esquerda nada ainda está decidido mau grado as figuras de estilo protagonizadas ultimamente pelo governo. E se nada se decidir, bem pode acontecer um terramoto abstencionista em 2009 e o grande vencedor acabar por ser a soma dos brancos, dos nulos e dos que não se deram ao trabalho de ir votar. Circunstância que faria aumentar a influência do Presidente da República na condução da vida política e compreender, de facto e finalmente, o que ele entende por cooperação estratégica."
Pode o governo dizer-se de esquerda e governar à direita? Pode, mas não deve. À semelhança da natureza os sentimentos também têm horror ao vazio. Os sentimentos de esquerda, como os de direita, não cessam de procurar quem lhes retribua na mesma moeda. Do lado da esquerda, que o diga quem na noite de 3 de Junho, no Teatro da Trindade, se juntou a Xana dos Rádio Macau na interpretação de Quando uma rosa morre outra cresce em seu lugar. Ou quem, dias depois, esteve nos desfiles da CGTP que levou milhares de trabalhadores a manifestarem-se contra a política laboral. Deve ser por essa razão que, a fazer fé nas sondagens, à esquerda do PS as intenções de voto já valem mais de 20% e o PSD e o CDS dificilmente conseguem ultrapassar os 30%. Quer isto dizer que o governo captou metade das simpatias eleitorais do PSD, alienou uma parte dos seus eleitores de esquerda e a outra parte está a ver como param as modas. Portanto, à esquerda nada ainda está decidido mau grado as figuras de estilo protagonizadas ultimamente pelo governo. E se nada se decidir, bem pode acontecer um terramoto abstencionista em 2009 e o grande vencedor acabar por ser a soma dos brancos, dos nulos e dos que não se deram ao trabalho de ir votar. Circunstância que faria aumentar a influência do Presidente da República na condução da vida política e compreender, de facto e finalmente, o que ele entende por cooperação estratégica.

Retrospectivamente pode afirmar-se que foi com o XV governo, chefiado por Durão Barroso e tendo Manuela Ferreira Leite como ministra das Finanças, que teve início o presente ciclo político caracterizado por um ataque, sem olhar a meios, ao défice público. E os meios são, neste caso, os portugueses trabalhando por conta de outrem e vivendo do seu salário ou não trabalhando e vivendo das moedas que a Segurança Social vai deixando cair. O regresso da ex-ministra das Finanças para disputar as eleições de 2009 com o actual primeiro-ministro representará, por isso, pouco mais do que uma espécie de sabatina para ver qual dos dois despeja mais “social” no fosso que separa a Lapa do Bairro do Fim do Mundo.

Sendo isso o que, do lado da alternância, vai estar em jogo, é bem provável que o primeiro-ministro leve a melhor. Não porque vá apresentar argumentos mais sólidos e particularmente diferentes dos de Manuela Ferreira Leite, mas porque no plano quantitativo e com níveis de austeridade equivalentes conseguiu baixar dos 6.8% para menos de 3% o défice das contas públicas. Sendo gémeos na iniquidade, um deles foi claramente mais eficiente. E tendo essa eficiência sido conseguida à custa do aumento indiscriminado de impostos, do congelamento dos salários na administração pública e do recuo do Estado nas funções sociais, não há razão para descontentamento daqueles que viam no PSD o melhor representante dos seus interesses. Além disso os tempos não vão para grandes incertezas, e por isso vai valendo mais um PS na mão do que um PSD a voar.

Logo, não estando eminente o regresso do PSD ao governo, o debate que mais interessa aos portugueses trava-se à esquerda, apesar de na bancada da maioria se sentar quem defenda que “governar Portugal na globalização é incompatível com alianças à esquerda”, nem governar à esquerda, pelos vistos. As reservas do passado, as hesitações do presente e os exemplos que vêm de fora serão úteis na medida em que forem aproveitados mais como argumentos que hão-de contribuir para o ajustamento de uma alternativa do que como álibis para se esperar por melhores dias. É compreensível que o governo não tenha uma palavra a dizer nesta demanda, a não ser que está tudo sob controlo, “o PS sempre que pode pensa nos mais desfavorecidos”, dêem-nos mais quatro anos e vão ver, e etc. E os socialistas?

Dirigente da Renovação Comunista


 

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