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13 DE SETEMBRO DE 2008, SÁBADO
FONTE: O Público
POR: Cipriano Justo
A hipótese experimental
"Á esquerda do PS a hipótese experimental encontra na actual conjuntura o melhor terreno para ser testada. Um polo de convergências neste campo representa mais do que a soma das partes. O efeito de aura que essa convergência iria desenvolver seria capaz não só de impulsionar ao voto os portugueses que podem estar tentados a virar as costas à próxima disputa eleitoral se tudo continuar na mesma, mas também mostrar que o encontro de 3 de Junho no Teatro da Trindade foi só um teste, com potencialidades para se generalizar a outras forças e enterrar uma limitação que tem produzido mais custos do que benefícios sociais."
Se uma parte da direita está calada e a outra em desagregação é porque, desde Durão Barroso, uma parte da direita deixou de ter alguma coisa para dizer e a outra está a viver a agonia dos dias do fim. Tudo junto, a direita tem pela frente um longo martírio político, não porque tenha ficado sem base social de apoio – as desigualdades sociais aí estão para o demonstrar – mas porque nos conselhos de ministros deste governo do que se trata é de tudo menos da erradicação da pobreza de dois milhões de portugueses, de uma distribuição da riqueza mais igualitária e da interdição do trabalho precário.

Se houvesse dificuldade em identificar uma plataforma programática capaz de agregar as esquerdas, estes três objectivos certamente seriam capazes da fazer convergir energias dispersas num denominador comum. E para tanto nem seria necessário repetir o assalto ao Palácio de Inverno. Mas também não é fazendo de Godot que se consegue polarizar a escolha dos portugueses num programa com vista para as suas expectativas de vida. A ideia de que só tendo garantida uma maioria parlamentar de esquerda faz sentido pensar em acordos eleitorais é entregar a este governo a liderança política do processo que irá culminar nas eleições do próximo ano. Para prevenir esta eventualidade o Partido Socialista deve ser questionado sobre as alianças que deseja previligiar, na mais do que provável contingência de não conseguir repetir a maioria absoluta.

Á esquerda do PS a hipótese experimental encontra na actual conjuntura o melhor terreno para ser testada. Um polo de convergências neste campo representa mais do que a soma das partes. O efeito de aura que essa convergência iria desenvolver seria capaz não só de impulsionar ao voto os portugueses que podem estar tentados a virar as costas à próxima disputa eleitoral se tudo continuar na mesma, mas também mostrar que o encontro de 3 de Junho no Teatro da Trindade foi só um teste, com potencialidades para se generalizar a outras forças e enterrar uma limitação que tem produzido mais custos do que benefícios sociais. Para tal, constituiria um erro político de consequências imprevisíveis fixar-se como principal objectivo eleitoral a perda da maioria absoluta do PS. Um efeito não pode ser confundido com um objectivo. Do que se vai tratar é de convencer os portugueses que à esquerda deste partido um gato é sempre um gato e uma lebre nem com um coelho deve ser confundida. E que a consistência das suas propostas bem como as soluções governativas para as aplicar fazem parecer o centrismo dos últimos trinta anos uma paródia ao que era necessário fazer.

A hipótese experimental que aqui é colocada resulta de um enquadramento social, político e sindical que lhe dão suporte conceptual e base material e cujas expressões mais significativas estão nas grandes manifestações promovidas pela CGTP e nos mais variados protestos populares a propósito do encerramento de serviços públicos. O seu lastro subjectivo é representado pela incapacidade de a direita partidária conseguir articular um discurso audível. E não é só pelo silêncio estival da líder do PSD, ou pela banda sonora desse silêncio, é porque a direita já não consegue explicar, nem a si própria, a quantidade de esqueletos que nestes anos armazenou no seu armário governativo. Dirigente da Renovação Comunista


 

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