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04 DE JANEIRO DE 2009, DOMINGO
POR: João Semedo
Um governo (en)gripado
"Tudo era previsível. A intensificação do surto de gripe, cujo início tinha sido assinalado há três semanas. A afluência torrencial às urgências hospitalares – habitualmente nos limites, face à conhecida incapacidade de resposta dos centros de saúde, ou porque fecham ou porque funcionam a meio-gás aos fins de semana e dias festivos. A falta de pessoal nas equipas de serviço, tanto nos hospitais como nos centros de saúde, muito agravada no Natal e Fim do Ano, período geralmente escolhido por muitos profissionais para gozarem férias. Tudo isto era previsível." Leia o interessante artigo de João Semedo, médico, deputado e dirigente da Renovação Comunista publicado inicialmente no Semanário SOL

Um governo (en)gripado

Tudo era previsível. A intensificação do surto de gripe, cujo início tinha sido assinalado há três semanas. A afluência torrencial às urgências hospitalares – habitualmente nos limites, face à conhecida incapacidade de resposta dos centros de saúde, ou porque fecham ou porque funcionam a meio-gás aos fins de semana e dias festivos. A falta de pessoal nas equipas de serviço, tanto nos hospitais como nos centros de saúde, muito agravada no Natal e Fim do Ano, período geralmente escolhido por muitos profissionais para gozarem férias. Tudo isto era previsível.
O que não era previsível era que o governo não o tivesse previsto e muito menos que não tivesse actuado a tempo e horas para evitar a situação caótica vivida nas urgências, imediatamente antes e depois do Natal. Grave desatenção, negligência condenável. Sem desculpa.
Tivesse o governo estado à altura das suas responsabilidades e muitos milhares de portugueses (200 mil entre 22 e 28 de Dezembro) não teriam tido de suportar longas e infinitas horas para ser observados e tratados. Nem os profissionais tinham sido sujeitos a trabalhar nas condições em que o fizeram, confrontados com uma avalanche de doentes.
Durante uma semana, o governo esteve desaparecido, não se viu nem ouviu. A situação piorava dia após dia e o governo, nada. Aliás, pior que nada: chegou-se ao ridículo de apelar às pessoas doentes para que não se dirigissem aos serviços de saúde, para que ficassem em casa! Em pleno surto de gripe, é difícil imaginar melhor e mais eficaz conselho…
O governo demorou uma semana a acordar para a situação que se vivia no país e no SNS. Só a 30 de Dezembro (!) é que o portal do ministério da saúde fez alguma referência à epidemia de gripe e só nesse mesmo dia é que os sites de algumas ARSs colocaram informação útil sobre horários especiais dos centros de saúde.
Até 30 de Dezembro foi como se nada se estivesse a passar. Afinal, como disse candidamente a ministra da Saúde, quando resolveu quebrar o silêncio, nada mais que a “normalidade em função do tempo em que estamos, que é o Inverno”… Fica, então, por explicar o porquê das “medidas extraordinárias” que anunciou e tomou. As necessidades de auto promoção do governo não explicam tudo…
Uma semana para reagir, decidir e fazer o que já devia estar preparado e instalado antes do Natal, sobretudo nos maiores centros urbanos: reforço das equipas nos hospitais, alargamento dos horários de funcionamento dos centros de saúde e sua abertura aos feriados e fins-de-semana, organização de camas adicionais para situações mais graves.
Medidas simples que, se tomadas com antecedência, teriam evitado o que se passou.
Este surto de gripe, apesar de claramente menor que em anos anteriores, pôs em evidência duas coisas. Primeiro, as fragilidades do SNS, que o governo pôs a funcionar pelos mínimos. Segundo, que não será esta ministra nem a sua equipa a levantar o SNS dos mínimos.

João Semedo, médico e deputado do BE


 

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