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24 DE JANEIRO DE 2009, SÁBADO
FONTE: Público de 24/01/09
POR: Mafalda Durão Ferreira
Stella
Morreu no dia 22 de Janeiro Stella Piteira Santos, a Renovação Comunista, não querendo deixar passar em claro este triste acontecimento, reproduz o texto hoje publicado no Público de uma sua companheira, Mafalda Durão Ferreira, da Rádio Voz da Liberdade, que transmitia de Argel as palavras da Liberdade para o Portugal fascista. Quando uma voz da resistência se cala é um pouco do nosso passado que morre.
Stella

No sábado dia 20 de Dezembro de 2008 fui visitar a Stella ao lar onde vivia. Era a hora do lanche e ela estava com mais uma senhora. Lanchando o seu café com leite.

Ao princípio, quando me viu, manifestou alguma confusão, mas logo me reconheceu e me perguntou por toda a família. Dei-lhe as notícias de todos, do Francisco em particular, que ela viu nascer e crescer na Argélia e a quem ele estendeu os branços quando, já em Portugal, e mal sabendo andar, a viu aparecer ao longo do corredor. A Stella nunca esqueceria este gesto e a alegria estampada no rosto do Francisco por tornar a vê-la.

No momento em que escrevo ela está ainda connosco. Chegam-nos notícias de que poderá não ser por muito mais tempo. Por isso escrevo, agora, ainda na sua companhia.

À Stella devo muito. E este é o meu testemunho acerca de uma pessoa que me ajudou, que me ensinou coisas simples mas essenciais a quem vivia em condições difíceis.

Em Argel, a Stella era, ela própria, a resistência. A resistência às dificuldades do quotidiano, a resistência à tristeza das ausências, a resistência às incompreensões. O seu sentido de humor dava a volta a tudo e a sua alegria de viver e a cumplicidade com o seu marido, Fernando Piteira Santos, eram contagiantes.

Ensinou-me a cozinhar e, sobretudo, ensinou-me a importância de saber cozinhar: para manter as pessoas unidas à volta de uma boa mesa e de uma boa conversa.

Sem teoria ou retórica, pela sua atitude, ensinou-me também a ser mulher de «político»: a prudência, a gestão dos silêncios, a solidariedade, mas também a participação e a crítica.

Regressámos juntas a Portugal, de comboio de Madrid a Lisboa, no dia 1 de Maio de 1974, com o meu filho Francisco de nove meses. Não dormimos. Falámos todo o tempo. Fizemos projectos e conjecturas sobre o que viria a ser a nossa nova vida em democracia. Muito ficou por esse caminho.

Adoeceu na noite desse sábado, dia 20 de Dezembro de 2008, para domingo.

Na tarde em que estive com ela e depois das informações habituais, falámos de coisas «sérias». Disse-me coisas como estas: que agora só se lembrava do que fora bom na sua vida, que tinha podido esquecer o menos bom e que assim as suas saudades eram boas porque só lhe permitiam recordar o bom que a sua vida fora, como tinha sido completa e preenchida. E que tinha todo o tempo do mundo para recordar. Não lhe faltou uma palavra, uma expressão adequada. A certa altura deu-me a mão e encostou a minha mão à sua cara e aí a manteve, com um sorriso. Disse-me: disto, tenho saudades, da ternura. Quem a conheceu sabe que a Stella não era dada a exteriorizar sentimentos e por isso mesmo guardo para sempre comigo este momento.


 

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