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10 DE ABRIL DE 2009, SEXTA FEIRA
FONTE: Público de 9/4/09
POR: Cipriano Justo
Este ano improvisa-se
"As medidas que estão a ser tomadas não passam de respostas conjunturais, uma espécie de calafetagem do capitalismo". Leia este artigo publicado no Público do renovador Cipriano Justo.

Este ano improvisa-se, no próximo logo se vê. É mais ou menos nestes termos que os Governos têm andado a distribuir medidas sempre que, a cada dia, por esse mundo fora, mais uns quantos milhares de trabalhadores vão engrossar o exército de desempregados. A culpa é de uns quantos gananciosos, sentenciam as boas almas. Não, foram as entidades reguladoras que andaram estes anos todos a assobiar para o ar, afirmam os mais cáusticos. Qual quê, não se estava mesmo a ver que o neoliberalismo ia acabar nesta desgraça?, clama o coro dos arrependidos. Bem vistas as coisas, é capaz de ser o sistema capitalista, sibilam afoitamente uns quantos extremistas.
No conjunto, o que eles querem dizer é que há um mau capitalismo e um bom capitalismo. Sendo que o bom capitalismo seria emblematicamente representado pelo New Deal e pelos 30 gloriosos anos, e o mau capitalismo por todas as tropelias que se seguiram à era Reagan/Thatcher, já para não falar do nazi-fascismo que dominou ideológica e politicamente a Europa entre as duas Guerras. E então o socialismo? Por analogia, também se poderá defender que houve um mau socialismo e que o bom socialismo está por testar, pelo menos a uma escala que possa ser confirmada e generalizada. Daí podermos vir a assistir ao confronto entre o bom capitalismo e o bom socialismo, cuja terceira via não será necessariamente a social-democracia tal como hoje a conhecemos, mas uma solução política com epicentro no programa que saiu vencedor das eleições presidenciais dos EUA.
Portanto, o campo socialista vai ter pela frente já não a reaganomics dos últimos 25 anos mas uma social-democracia cuja liderança se encontra agora instalada em Washington, DC, e um bom capitalismo em gestação, de matronímico Merkel e de patronímico Sarkozy. Pode dizer-se que, no plano ideológico, qualquer dos campos está hoje bastante debilitado, mas o bom capitalismo e a social-democracia lideram a gestão da recessão e estão a conseguir manter sob controlo o poder. A menos que os dados da situação se alterem substancialmente, a fragmentação do campo socialista é de momento desfavorável a uma alternativa que configure uma solução que parta da situação existente e consiga promover as formações económicas pública e quase-pública à condição de eixo estruturante do desenvolvimento social. As medidas que estão a ser tomadas não passam de respostas conjunturais, uma espécie de calafetagem do capitalismo, na expectativa de que, lá para diante, o sol volte a brilhar para os arrependidos do costume.
Portanto, enquanto o arco das esquerdas vai ritualizando as suas diferenças para melhor sublinhar as suas desconfianças, argumentando que o processo histórico possui uma esquadria invariável que não deve ser violada, e que o tempo das cerejas é exclusivo das cerejas e não dos pêssegos, o bom capitalismo vai amealhando pequenas vitórias no plano da contenção dos danos e preparando-se para ressurgir aureolado de ética, rigor, solidariedade e outras bem-aventuranças. O que são duzentos mil portugueses na rua, unidos contra o modelo de desenvolvimento que está a devastar as vidas de milhões de seres humanos em todo o mundo, comparados com os projectados lucros eleitorais que à esquerda do Governo já se começaram a contar? Quando se deitarem contas ao que foram estes dias de ilusões eleitorais, pode bem acontecer que muitos desses votos não tenham passado de efémeras intenções. Não foi a poetisa que nos alertou para o facto de os ricos terem "uma larga experiência do poder/E quando não podem usar a própria força/Usam a fraqueza dos outros"?
Dirigente da Renovação Comunista



 

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