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24 DE ABRIL DE 2009, SEXTA FEIRA
POR: José Cavalheiro
A crise académica de 1969
Na passagem do seu 40º Aniversário
O renovador José Cavalheiro enviou-nos uma recordação da sua intervenção na crise Académica de 1969, de Coimbra, e das consequências que advieram da sua intervenção nela, bem como o texto que na altura publicou num jornal da tropa e que lhe acarretou graves problemas na vida militar.
O texto seguinte foi apresentado pelo soldado cadete José Roberto Tinoco Cavalheiro a frequentar o 2º ciclo do COM em Mafra.

Fiz parte do grupo de estudantes que foram compulsivamente enviados para a tropa na sequencia da crise de 69 em Coimbra.A participação que tive na organização da greve aos exames como elemento da Comissão Técnica de Ciencias originou a minha detenção pela polícia Judiciária, com posterior transferencia para a Lisboa.

Posteriormente durante a cerimónia de juramento de bandeira os cadetes que se encontravam no refeitório, em Mafra, começaram a entoar a canção do Zeca Afonso- "Os Vampiros".Embora possuindo poucos dotes musicais fiz parte da organização do coro.
O burburinho gerado levou ao abandono do refeitório por parte do general comandante da região militar.

Já no 2º ciclo enquanto frequentava o "curso de atirador infantil" ( infantaria), o comando impôs como condição para permitir a saída no fim de semana dos pelotões de instrução que cada um apresentasse 2 artigos para publicação no Azimute, o jornal da unidade.No meu pelotão o respectivo comandante, um tenente, designou-me para escrever um artigo sobre o juramento de bandeira para ser enviado para o referido jornal.A alternativa era o corte da licença para todo o pelotão.

O texto em anexo foi entregue por mim com a condição prévia de ser lido perante os instruendos, só sendo utilizado se fosse aprovado por estes.

Formado o pelotão procedi à leitura do documento e perguntei se o mesmo interpretava o sentimento geral dos instruendos em relação à cerimónia.Perguntei em seguida se alguém se opunha à sua entrega.
Não tendo havido objecções assinei o mesmo com o nome do 1º pelotão.

O texto não agradou ao comando que me puniu com a pena de 20 dias de prisão disciplinar agravada, correspondente ao máximo de competencia do comandante de Mafra.em 23/2/70.Em consequencia fui irradiado do curso de oficiais e passado à situação de soldado.

Fui depois conduzido por escolta armada até ao presidio militar da Trafaria, tendo posteriormente sido mobilizado após análise do meu processo para Moçambique.


Toda a minha vida militar subsequente poderia servir para um guião dum filme sobre a guerra colonial, na medida em que a minha posição militar contraditória com o estatuto social, bem como o motivo da minha despromoção foram objecto de permanentes situações que evidenciaram a fragilidade do sistema e o colapso eminente do regime.

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Texto apresentado ao 1º pelotão do 2º ciclo do curso de Infantaria de Mafra e enviado para publicação no jornal da unidade, o “Azimute”

Breves considerações sobre o Juramento de Bandeira


O comportamento de qualquer indivíduo pode ser sempre, em maior ou menor escala, enquadrado por legislação regulamentar, que permita uma definição clara das suas atrbuições e responsabilidades na execução de tarefas em que esteja integrado.Contudo há certos campos que não podem ser fácilmente atingidos por qualquer regulamentação,pois nem todos os actos e formas de comportamento podem ser quantificados, existindo sempre uma certa latitude de actuação que não pode ser explicitamente condicionada ou determinada préviamente.

Se determinado cargo for ocupado voluntáriamente, havendo liberdade na sua escolha -liberdade relativa, evidentemente, visto estar quase sempre condicionada por necessidades de ordem económica -deverá esperar-se da pessoa que ocupa esse cargo um mínimo de interesse e zelo, quando muito ditadas ditados por afinidades subjectivas com a natureza do serviço.

Já outro tanto não será de esperar quando uma determinada função for imposta coactivamente, por imposição de necessidades comunitárias que nem sempre são compreendidas ou aceites; mesmo que assim não seja,havendo portanto uma identificação do indivíduo com as motivações que sob a forma de lei o levaram a um determinado cargo, poderão existir sempre da parte dele reticencias ou manifestações de resistencia passiva ou activa, que beneficiando de vazios e ambiguidades dos regulamentos não possam ser fácilmente sancionadas.

É este o caso da prestação de serviço nas Forças Armadas, que sendo imposto ao cidadão com o apregoado fundamento da defesa da colectividade, provoca neste, umas vezes uma reacção apoiada em bases ideológicas adversas aquelas de partem as autoridades, ou, mais vulgarmente, de carácter epidérmico e incoerente, mas nem por isso menos forte.

Dada a manifesta impossibilidade de condicionar e coagir por forma regulamentar a actividade do civil a quem as circunstancias obrigaram a vestir farda, e havendo por outro lado a necessidade de obter dele o máximo rendimento, e atendendo ainda que as motivações resultantes de acções de carácter psicológico esbarram inevitávelmente com a verdade dos factos, surgiu a necessidade de o vincular mais fortemente ao «dever», jogando para isso com factores de ordem moral.

O Juramento de Bandeira, para além de outras finalidades, tem essa, de ordem moral, num campo onde a sanção penal não pode chegar.Parte-se do princípio que os costumes arreigados nas pessoas dão um carácter de seriedade a qualquer compromisso assumido sob juramento. Esquece-se todavia, que um juramento feito sob coacção não tem qualquer valor.

Para além deste objectivo, o Juramento de Bandeira pretende dar uma certa solenidade ao acto de passagem do instruendo a soldado, finalidade que nem sempre é atingida, dados os aspectos caricatos de que por vezes se reveste o acto.

No dia do Juramento de Bandeira a provinciana Mafra veste-se de gala; no largo fronteiro ao monumento que a opulencia económica e o mau gosto de D.João V fizeram erguer, dispõem-se os soldados cadetes bem uniformizados e simétricamente dispostos,cobrindo de verde o negro do asfalto.

A cerimónia é abrilhantada pela presença dum oficial superior,que envergando a sua melhor nº 1 ocupa o lugar de honra.

Ouvem de início os cadetes um discurso de estímulo patriótico feito pelo comandante, falando em seguida um oficial, que tradicionalmente é o instrutor mais novo da Escola.

No dia do meu juramento tal discurso, foi feito por um sr. alferes e dado o seu tom ambíguo e forma correcta, mas pouco vulgar em circunstancias semelhantes, e ainda a citação duma frase de um ideólogo marxista, o comissário do povo Leon Trotsky, causou certa surpresa entre os novos soldados.

Lida a lista dos deveres militares, a cerimónia atingiu o seu auge: os cadetes levantaram o braço, e alguns repetiram cadenciadamente as palavras do juramento, conforme tinha sido préviamente ensaiado.

Finda a cerimónia os garbosos cadetes desfilaram de forma mecanica, como peças novas mas já sincronizadas da máquina militar.

A cerimónia foi presenciada pela família de alguns, talvez, quem sabe, orgulhosas pelo novo patamar da escada social alcançado pelos seus parentes.

A terminar foi oferecido um almoço a todos os participantes da cerimónia; as deficiencias qualitativas e quantitativas de ordem alimentar, faziam prever que a refeição não seria de modo a ombrear com o nível que a cerimónia vinha tendo.Tal contudo não sucedeu, pois a refeição opípara compensou bem as vicissitudes alimentares que nos tinham vitimado durante três meses de instrução.

Mafra 23 de Fevereiro de 1970
a) o primeiro pelotão


 

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