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08 DE MAIO DE 2009, SEXTA FEIRA
POR: Cipriano Justo
O drama do pré e as virtudes do pós
"Pela primeira vez na história da democracia portuguesa um milhar de lisboetas juntaram as suas assinaturas para reclamarem das organizações de esquerda que se entendam em torno de um programa para governar Lisboa a partir das eleições do próximo Outono." Leia esta contribuição do renovador Cipriano Justo para o debate que tem vindo a ser aqui travado em torno do Apelo à Convergência de Esquerda nas Eleições para Lisboa.
O drama do pré e as virtudes do pós
Cipriano Justo

Pela primeira vez na história da democracia portuguesa um milhar de lisboetas juntaram as suas assinaturas para reclamarem das organizações de esquerda que se entendam em torno de um programa para governar Lisboa a partir das eleições do próximo outono. São lisboetas dos mais variados ofícios, estudantes, arquitectos, engenheiros, militares, escritores, professores, artistas plásticos, investigadores, reformados, médicos, advogados, economistas, actores, músicos, sociólogos, jornalistas. Mas também desempregados. O que os uniu neste empreendimento foi a memória recente da passagem da direita pela autarquia e o rasto de desmandos cívicos que deixou atrás de si. Durante meia dezena de anos Lisboa foi sistematicamente notícia da primeira página dos jornais, mas pelos piores motivos. E embora possa representar um lugar comum, prevenir o regresso da direita ao governo da cidade vale bem uma missa, mesmo profana.

O Apelo que estes lisboetas lançam às organizações de esquerda vai além dos cálculos eleitorais que neste momento se fazem. Distingue-se o que é europeu, do que é nacional e do que é local. Mas alerta-se para o valor simbólico dos resultados eleitorais em Lisboa. A cidade é dos seus residentes, mas é igualmente de quem nela trabalha, de quem a visita, de quem a cruza e de quem a frui. Lisboa, mais do que qualquer outra cidade, interessa a todos os portugueses e a maneira como a esquerda vier a alinhar as suas lógicas eleitorais acabará também por ter repercursões nos resultados para as eleições legislativas. Defraudar um apelo vindo da esquerda e de quem não exige mais do que um programa de governo que promova o desenvolvimento de Lisboa dentro de critérios cívicos seria uma manifestação de claustrofobia política. Seria um erro de percepção imaginar que se pode menosprezar a vontade de um milhar de lisboetas. Seria inédito e representaria uma ruptura com o eleitorado de esquerda residente em Lisboa, com consequências imprevisíveis.

O que está a tornar a reacção dos partidos à esquerda do PS incompreensível, ao substituirem o proselitismo eleitoral pelos interesses da cidade, é a diabolização que estão a fazer de um acordo pré-eleitoral e simultaneamente a disponibilizarem-se para um acordo pós-eleitoral. É como se um sistema de vasos comunicantes funcionasse entre as eleições de âmbito local e as eleições legislativas e a escolha numa fosse automaticamente canalizada para a outra, mas o sangue sacrificial das urnas acabasse por tudo purificar.

Ainda antes de ser conhecida a reacção final dos partidos de esquerda, os mil subscritores do Apelo já cumpriram o seu dever cívico, tomaram partido, deram a cara e deram-na a conhecer publicamente. Se a convergência se concretizar ou se qualquer um dos representantes do arco da esquerda sair vencedor, tanto melhor. Se a direita ganhar, não poderão dizer que não os avisaram, com a antecedência que as circunstâncias justificavam. Mas neste caso a esquerda lá estará para fazer aquilo que sabe fazer bem e com credenciais: fazer a vida negra à direita. A cidade que espere por melhores dias e que a Maria se ponha uma vez mais a subir a calçada.


 

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