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23 DE MAIO DE 2009, SÁBADO
FONTE: comunistas.info
POR: Guilherme Statter
Apresentação do Livro
Os “Erros” de Marx e as ASNEIRAS DOS OUTROS
Brevíssima palestra pronunciada por ocasião da apresentação formal do livro “Os Erros de Marx e as Asneiras dos Outros” em 21 de Maio de 2009 na Associação 25 de Abril em Lisboa.
1. As razões de um livro
Em primeiro lugar porque estamos perante a mais visível e gritante crise do sistema capitalista dos últimos 70 anos.
Em segundo lugar porque as ideias de Marx são fundamentais para a compreensão dos mecanismos da formação e eclosão dessa mesma crise.
Em terceiro lugar porque – como dizia Kurt Lewin – “Não há nada mais prático do que uma boa teoria”

2. As razões de um título
Devo começar por dizer que deveria talvez ter colocado aquele “erros” de Marx entre aspas...
Isto na medida em que na verdade os “dois ou três erros” de Marx (na sua análise do funcionamento do sistema capitalista) são de facto erros menores.
Não se trata – de todo – dos erros “graves e definitivos” de que falam os seus adversários.

Devo fazer, entretanto, uma chamada de atenção: o conhecimento científico não é neutro!
Longe disso. O conhecimento científico é frequentemente instrumentalizado e, se for caso disso e tiver consequências indesejadas para os poderes estabelecidos, o conhecimento científico pode ser – e é normalmente – ocultado.
Veja-se o caso do processo instruído contra Galileu a propósito da sua ideia de que a Terra girava sobre si mesma e à volta do Sol... O mesmo sucede com as ideias de Marx acerca do funcionamento do sistema capitalista.

Ainda acerca do título deveria talvez ter pedido ao editor para salientar ainda mais e sobretudo as palavras as “ASNEIRAS DOS OUTROS”. Digo isto porque aqui há uns dias tive a impressão de ter ouvido um comentário do estilo “cá está mais um a malhar no Marx”...

Mas voltando à questão da Teoria.
O edifício analítico desenvolvido por Marx para explicar o funcionamento do sistema capitalista tem como alicerces ou fundação de base, a sua teoria laboral do valor. Há outras, designadamente a dos clássicos da Economia Política que precederam Karl Marx.
Mas a teoria laboral do valor foi pura e simplesmente abandonada – fechada numa gaveta – há uns 100 anos atrás. Hoje, muito simplesmente, não é ensinada (discutida) no ensino oficial...
A esse respeito, tenho dito isto publicamente e repito aqui também:
Ofereço 100 euros (se dissesse 1000 ninguém acreditava...) a quem me indicar um compêndio de economia, de uso corrente em escolas de economia ou universidades, que dedique – já não digo um capítulo – uma só secção à discussão do tema do Valor.
Uma conhecida economista keynesiana de esquerda (Joan Robinson) diz mesmo abertamente que “valor é apenas uma palavra, não significa nada”.
E no entanto não deixamos, todos nós, de pagar rotineiramente um Imposto sobre o Valor Acrescentado.
Em seguida, em cima desses alicerces ou base fundacional que é a Teoria Laboral do Valor, é comum dizer-se que a validade ou equilíbrio do tal edifício analítico de Marx como que assenta em dois pilares estruturantes:
- A transformação de valores em preços, questão a que está associado um famigerado problema da transformação de “valores” em “preços de produção”
- A lei da queda tendencial da taxa de lucro.
Repito
- A transformação de valores em preços
- A queda tendencial da taxa de lucro
Dessa forma, bastará que se demonstre que um desses “pilares” da teoria estará errado para demonstrar que toda a teoria de Marx sobre o sistema capitalista estaria simplesmente errada.
São então estes dois os tais “grandes ALEGADOS erros” que os adversários de Marx (e mesmo alguns marxistas de renome...) utilizaram para retirar qualquer cariz científico à análise de Marx sobre o funcionamento do sistema capitalista.

Neste primeiro livro procurei fazer – ainda que de uma forma porventura algo atabalhoada – uma recensão e análise crítica de alguns dos erros que têm sido apontados a Marx. Em particular no que diz respeito à luta de classes e à teoria da História.
Entretanto, ainda neste primeiro livro, dedico especial atenção ao “erro” que mais tinta tem feito correr ao longo dos últimos 100 anos: o alegado “erro” que Marx teria cometido ao elaborar uma determinada explicação para um problema fundamental da “Economia Política clássica” da escola ricardiana.
Foi esse alegado “erro” que justificou (serviu de desculpa para...) o autêntico exílio a que foi sujeita a análise marxista em termos de ensino oficial da economia.

E no entanto, a propósito da “ideologia marxista”, segundo alguns autores pós modernos, foi justamente a partir dos anos Vinte do século passado que “mais se desenvolveram os estudos marxistas” Estou a pensar, concretamente, numa afirmação nesse sentido proferida pelo conhecido sociólogo Boaventura Sousa Santos.
Mas atenção, a palavra “marxista” passou entretanto a ser utilizada como uma espécie de “passe par tout” de qualquer estudo em qualquer ramo das chamadas ciências humanas.

Entretanto, só no campo da análise económica e da intervenção política que daí possa decorrer, ainda em vida de Marx, as deturpações e interpretações erradas foram de tal ordem que Marx – ele mesmo – sentiu-se na necessidade de vir dizer algo como “se isso é marxismo, eu não sou marxista”...
Algumas dessas deturpações resultam apenas do treino académico ou condicionamento ideológico por parte dos seus autores. De tal modo que o próprio Lénine, numa série de apontamentos acerca da Lógica de Hegel escreveu esta coisa espantosa:

“É impossível compreender completamente O Capital de Marx, e especialmente o seu primeiro capítulo, sem ter estudado exaustivamente e compreendido a totalidade da Lógica de Hegel.
Consequentemente, meio século mais tarde, nenhum dos marxistas entendeu Marx”.

Isto dizia Lénine em 1914 quando ainda na Suíça...

No que diz respeito à chamada “teoria marxista”, aquilo que veio a suceder depois pode resumir-se em três parágrafos:
Primeiro - Por um lado a calcificação escolástica da reflexão sobre as ideias de Marx relativamente ao sistema capitalista e sua evolução. Como se a obra de Marx fosse a verdade única e definitiva, válida para todos os tempos e latitudes.
Segundo - Por outro lado, a redescoberta das ideias de Marx, sobre o sistema capitalista, por parte de economistas oriundos das escolas convencionais de economia. E, como tal, já endoutrinados numa outra maneira de ver o mundo das coisas da Economia.
São eles, normalmente, autores ricardianos, keynesianos de esquerda ou mesmo autores com recurso às ideias dos clássicos pré-marxistas...
Para estes autores, a necessidade da superação do sistema capitalista passou a ser vista, não como uma eventual resolução das suas contradições, mas antes como um imperativo moral...
Terceiro - Encetou-se assim, para concluir, uma espécie de diálogo de surdos entre aqueles que acenavam com um Marx calcificado e aqueles que acenavam com um Marx mal entendido. Como aliás já tinha antevisto Lénine...
E no entanto, é tudo uma questão de bom senso... E de algum interesse em estudar estas questões com outro olhar que não o da imprensa diária ou mesmo supostamente especializada.
Marx terá certamente exagerado quando dizia – de um certo aspecto da sua teoria – que a mesma estava ao alcance de uma criança. Não será bem assim, mas está – toda a sua teoria – certamente ao alcance de qualquer pessoa interessada em estudar, minimamente, o funcionamento do sistema capitalista.

A respeito do caracter científico (ou não) da teoria de Marx sobre o funcionamento do sistema capitalista, ocorre-me referir a posição de um conhecido filósofo das ciências (aliás de formação em ciências matemáticas e em ciências físicas) de seu nome Karl Popper. Dizia ele que, tal como o freudianismo, também o marxismo (entendendo-se aqui o conjunto de ideias derivadas das ideias de Marx...) não era realmente uma teoria cientifica. Isto porque era impossível de comprovar se estava certa ou errada.
No entanto seguindo o mesmo Karl Popper, a obra Das Kapital de Karl Marx é indubitavelmente uma teoria científica sobre o funcionamento do sistema capitalista. Até na medida em que a História já demonstrou, por a + b, se de facto o sistema tende ou não para a expansão e para as crises...
Que é a tese fundamental de Karl Marx!
Por outras palavras a experiência histórica entretanto verificada acabou por confirmar que não só a teoria de Marx sobre o funcionamento do sistema capitalista era um teoria científica como provou também que era uma teoria verdadeira, pelo menos no sentido de ser adequada ou eficaz na explicação que faz dos fenómenos económicos entretanto verificados.

Em jeito de conclusão diria que, para compreendermos o sistema capitalista e a sua crise temos mesmo que recuperar o paradigma de Karl Marx, procurando saltar por cima de todas as deturpações que esse paradigma sofreu ao longo dos últimos cem anos.
Num segundo livro que espero seja publicado muito em breve - “ANATOMIA DA CRISE ou Crónica de um Desastre Anunciado” – procuro fazer (espero que de forma mais estruturada) uma discussão detalhada do segundo pilar a que acima me referi: a lei da queda tendencial da taxa de lucro. Lei essa que Marx, muito justamente, considerava a “lei fundamental de toda a Economia Política”.

Será este, para já, o meu contributo para um combate de cidadania que tem que ser travado por todos os que estejam interessados na construção de uma sociedade humana onde impere a ética de comportamento e a racionalidade da decisão.


 

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