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21 DE JUNHO DE 2009, DOMINGO
POR: Manuel de Oliveira
E AGORA, ESQUERDA?
Continuamos com o debate em torno dos resultados e da sua interpretação das Eleições para o Parlamento Europeu. Publicamos hoje uma carta enviada pelo renovador Manuel Oliveira.
Caros camaradas:


1- Os resultados das recentes eleições para o P.E. (para mim inesperados, devo dizê-lo) não me deixaram nem particularmente satisfeito, nem particularmente deprimido.
Não me deixaram particularmente satisfeito, porque à desejada perda da maioria absoluta do PS correspondeu a vitória, ainda que relativa, do PSD e à subida do CDS/PP. E não me deixaram particularmente deprimido porque nos resultados obtidos pelo PS, CDU e BE encontro evidentes sinais que confirmam ser possível desbravar o caminho que há muito defendo para que uma “alternativa política de esquerda” acabe, mais tarde ou mais cedo, por se concretizar.
Independentemente do meu “estado de alma”, os resultados são o que são, e nada mais há a fazer que não seja democraticamente aceitá-los e tentar interpretá-los, de modo a que isso nos ajude a retirar as ilações necessárias para melhor prosseguir a caminhada.

2- Antes, porém devo manifestar a minha”declaração de interesses” de forma a contextualizar a leitura das minhas opiniões.
Começo, pois, por dizer que votei CDU, o que dada a minha conhecida filiação partidária é perfeitamente natural. Votei CDU também por outras razões, nomeadamente:
a) Dos três cabeças de lista em presença (PS,CDU e BE) e goste-se ou não do estilo (e eu não gosto !) a verdade é que Ilda Figueiredo interpretou os valores da esquerda com maior convicção , e emprestou à sua candidatura um carácter popular.
b) Em comparação com os outros dois candidatos Ilda Figueiredo revelou conhecer muito melhor os aspectos práticos das questões europeias, e melhor soube interliga-los com as questões nacionais, sobretudo evidenciando a luta na defesa dos interesses e direitos dos trabalhadores. Ao contrário e num estilo “professoral” (de que também não gosto!) Vital Moreira e Miguel Portas embrenharam-se em complicadas questões que depois não souberam explicar com a necessária clareza. Vital Moreira”embrulhando-se” na questão do imposto europeu e Miguel Portas”metendo os pés pelas mãos” na questão de federalismo europeu, só para citar dois exemplos.
c) O trabalho realizado por Ilda Figueiredo no P. E. caracterizou-se por uma grande produtividade e assiduidade, o que também não é desprezível.
Bem sei que para uma certa esquerda a avaliação de desempenho (quando se trata de professores, funcionários públicos, médicos, etc.) não só não é para levar a sério como é mesmo motivo para fortes protestos, curiosamente contrastando com a sua indiferença com a avaliação a que os operários estão sujeitos todos os dias nas fábricas onde trabalham, muitas vezes obrigados a intensos ritmos de produção a troco de um mísero salário de 600 ou 700 euros por mês! Mas não nos desviemos do tema eleitoral e deixemos esta questão para discutir numa outra altura.

3 – Olhando agora para os resultados em concreto, gostaria de dizer o seguinte:
a) À direita, os resultados obtidos pelo PSD foram uma golfada de oxigénio de que tanto estava a precisar para aguentar os próximos meses até às próximas
eleições legislativas. Não é preciso ter muita imaginação para ver o que lhe teria acontecido se tivesse perdido estas eleições. Contudo, o resultado que obteve ficou muito aquém daquilo que necessitava para encarar as próximas eleições legislativas com tranquilidade.
O mesmo não se pode dizer do CDS-PP que obteve um resultado surpreendente, o que nos deve levar a rever a atitude displicente com que habitualmente encaramos o populismo de Paulo Portas.
No seu conjunto a direita reforçou-se e, não tendo obtido ainda a maioria absoluta aproximou-se dela perigosamente, o que nos deve preocupar a todos.
b) O PS sofreu uma pesada derrota, o que permitiu a vitória ainda que relativa do PSD. As causas desta derrota são conhecidas, embora a sua profundidade creio que nos surpreendeu a todos.
O PS se souber interpretar estes resultados pode ainda invertê-los fazendo com que parte do seu antigo eleitorado ( o que se absteve, o que votou em branco e o que votou no BE) regresse novamente ao seu seio. E, beneficiando ainda do efeito do “voto útil” pode acalentar a esperança de, nas próximas eleições legislativas, ganhar com maioria relativa.
c) Quanto à CDU, considero que os resultados que obteve são extraordinários se tivermos em conta que travou uma luta em vários tabuleiros onde, de certa maneira, se jogava o seu futuro imediato.
Não é preciso ser bruxo para adivinhar as consequências negativas para o PCP caso tivesse obtido um fraco resultado, e sobretudo se fosse um resultado muito inferior ao do BE.

Por outro lado, a existência na Europa de um Partido Comunista que, em eleições democráticas e vinte anos depois da implosão do “ socialismo real “ obtém mais de 10% de votos é um facto assinalável, não só pela carga simbólica que isso representa, como por constituir uma sólida base de referência para o desenvolvimento da luta dos trabalhadores.
Com estes resultados o PCP deitou por terra a pretensiosa e sectária tese do BE que o pretendia excluir de uma eventual “ convergência das esquerdas “. E se esta estratégia já era um fiasco, estes resultados tornaram-na agora simplesmente ridícula. E o BE já percebeu isso mesmo, como se depreende pelas declarações de alguns dos seus dirigentes acerca da votação da CDU e das tentativas que têm feito (infrutíferas, já que o arquivo histórico as desmente) para disfarçar a paternidade dessa estratégia.
Sendo o voto no PCP uma atitude que exige alguma convicção, é de esperar que os resultados obtidos se consolidem, o que permite ao PCP partir para as próximas eleições legislativas com confiança.
d) Relativamente ao BE , é de facto notável a sua votação. Como na altura assinalei, a sua estratégia de “ somar mais esquerda à esquerda “ nada tinha a ver com o desejo de “convergência das esquerdas”, mas sim como um meio para o ajudar a crescer. E deste ponto de vista, não há dúvida que esta estratégia resultou plenamente. Bem pode agradecer à RC a ajuda que lhe deu!
Estes resultados não estão, contudo, consolidados, na medida em que uma
parte deles resultam de “votos de protesto” de antigos eleitores do PS que, nas próximas eleições legislativas podem, eventualmente, regressar novamente ao PS.
Seja como for, os resultados obtidos pelo BE são muito importantes, não só obviamente para o BE, como também para toda a esquerda. A sua expressiva votação contribuiu muito para que a esquerda continue a ser maioritária.

4 – A nível europeu, os resultados eleitorais deram uma expressiva vitória â direita e uma subida significativa à extrema-direita, o que é preocupante e nos deve levar a reflectir, tanto mais porque acontecem num tempo em que a Europa está mergulhada numa grave crise económica, financeira e social, com o desemprego a atingir milhões de trabalhadores e a pobreza a alastrar a cada vez maior número de famílias e, mesmo assim, paradoxalmente, o voto premiou exactamente os causadores desta calamitosa situação.
Estes resultados tornaram a Europa ainda mais conservadora e neoliberal sendo, pois, um sério revés para toda a esquerda europeia que abnegadamente luta por uma Europa mais solidária e socialmente mais justa. São também um “balde de água fria” para aqueles que, à esquerda, por ingenuidade ou demagogia, já anunciavam o princípio do fim do neo-liberalismo.
Destes resultados pode também retirar-se a conclusão de que a melhor forma de se lutar por uma Europa mais solidária e socialmente mais justa é, em cada país, fazer com que essa luta seja vitoriosa.

5- Há certamente muitas razões de ordem económica, social e sobretudo cultural para que estes resultados tivessem acontecido. Deixo para os sociólogos a tarefa de as encontrar.
Mas há razões de ordem política que a esquerda tem a obrigação de encontrar e analisar de forma a retirar as ilações para que no futuro não cometa os mesmos erros. E no que ao nosso país diz respeito, isto tanto é válido para o PS, como também para o PCP e para o BE. E que ilações são essas? Em minha modesta opinião, as seguintes:

a) Relativamente ao PS
-Não é possível numa sociedade como a nossa, marcada por uma acentuada clivagem entre ricos e pobres, pretender governar procurando agradar a “gregos e a troianos”. Pelo contrário, o que se torna necessário é traçar com nitidez e sem ambiguidades a fronteira que o separa da direita;
- Os processos sociais que se destinam a romper com interesses e rotinas são mais complexos do que à primeira vista parecem, exigindo que (mesmo quando se tem razão, como é o caso de algumas reformas encetadas) devam ser conduzidos com inteligência, explicados de forma pedagógica e procurando envolver o maior número possível daqueles a quem se dirigem;
- No plano da acção política, ter em atenção que à sua esquerda existem forças políticas significativas, não só do ponto de vista da sua expressão eleitoral, como também da sua influência social (e aqui coloca-se a questão de ser necessário alterar a relação com os sindicatos), que são absolutamente necessárias para a implementação de políticas que visem o desenvolvimento económico, social e cultural do país, que diminuam significativamente as desigualdades sociais e defendam os direitos e interesses dos trabalhadores;
- Para esta mudança de atitude, tão urgente quanto necessária, a chamada “ala esquerda do PS” tem um importante papel a desempenhar. Mas não é saindo do PS, ou emprestando o seu nome a iniciativas que, objectivamente o enfraquecendo o tornam mais refém da direita, que o conseguem, como, aliás, a
história o demonstra. Ao contrário, e como sempre defendi, é exactamente dentro do PS que devem travar essa luta, até porque têm todas as condições internas para o fazer.

b) Relativamente ao PCP e ao BE
- Deixar de se considerar o PS como “inimigo de estimação” esquecendo que os verdadeiros “inimigos” são o PSD e o CDS/PP, legítimos representantes do grande capital e da alta finança, dos grandes grupos económicos e financeiros, inimigos da paz e da tolerância étnica, religiosa e da diferença, e responsáveis históricos pela exploração dos trabalhadores, do atraso do país, da pobreza e das gritantes desigualdades da sociedade;


- A luta contra as políticas de direita do PS devem ser travadas de forma a que não sejam hipocritamente aproveitadas pela direita e pela extrema direita, o que implica que a sua organização e condução seja cuidada;
- Não basta recusar e combater determinadas políticas. É também necessário apresentar propostas alternativas exequíveis e bem fundamentadas e despidas de qualquer demagogia ou populismo, pois só assim é possível evidenciar a sua bondade. Como também é necessária a coragem política para apoiar medidas que, podendo ser porventura anti populares se entenda que promovem a justiça social e diminuem as desigualdades e, a prazo, acabem por beneficiar a maioria dos trabalhadores;
- Recusar qualquer tipo de alianças com a direita, às claras ou por debaixo da mesa, para pretensamente combater o PS.
Foi para mim confrangedor assistir meses a fio a debates televisivos em que elementos do PCP e do BE trocaram “salamaleques” com elementos da direita e da extrema direita e, a uma só voz “malharem” no PS, de tal modo que quem não os conhecesse não saberia distinguir quem era de esquerda e quem era de direita.
Não quero, de forma alguma, com isto dizer que se deva ser brando ou tolerante com o PS, ou que não se deva lutar contra as suas políticas de direita. Não, o que quero dizer é que a luta contra as políticas de direita do PS devem ser travadas de modo a que não tenham o efeito perverso de beneficiar a direita, como infelizmente tem acontecido ao longo de décadas, com manifesto prejuízo para os trabalhadores.

6 – Concluindo, considero ser de valorizar o facto da esquerda, continuar a ser maioritária na sociedade portuguesa.
Mas não basta que a esquerda continue a ser maioritária nas próximas eleições legislativas. Sem dúvida que isso é uma condição necessária, mas não é por si só uma condição suficiente.
Se, como espero, o PS ganhar as próximas eleições legislativas com maioria relativa, importa que de seguida se forme um governo efectivamente de esquerda (ou se quisermos ser mais rigorosos, um governo de centro-esquerda) que tenha não só naturalmente o apoio do PS, mas também do PCP e do BE.
Será que o PS, PCP e o BE estão dispostos a mudar de paradigma e, num rasgo de lucidez, terão a capacidade de nos surpreender?
Ora, se como diz Rui Tavares”a esquerda, toda ela, for tão combativa quanto anti– dogmática, pluralista e aberta”Sim, é possível!
Mas para isso é preciso que não fiquemos apenas pela retórica, e se forem sinceras estas palavras então há que lhes dar tradução prática.
E o APELO que a RC lançou a todas as forças políticas de esquerda para que concretizem uma “convergência de esquerda”em Lisboa é uma excelente oportunidade para fazer, já que com o resultado das eleições europeias ficou ainda mais claro que é real a possibilidade de a direita recuperar a presidência da CM Lisboa.
Estarão o PCP e o BE disponíveis para reconsiderarem e acolherem o APELO que a RC lançou a todas as forças políticas de esquerda para que concretizem uma “convergência de esquerda “ em Lisboa?
È que de boas intenções …



Porto, 20 de Junho de 2009

Um abraço a todos

Manuel Oliveira
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