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29 DE JUNHO DE 2009, SEGUNDA FEIRA
POR: Guilherme da Fonseca-Statter
Manifestos e Contra-Manifestos
Ou umas novas Guerras de Alecrim e Mangerona
"Dizem-nos uma série de observadores, cada vez mais atentos, que estamos perante uma grave crise social e económica. No entanto, para quem já estava desempregado há uns dois ou três anos a crise não é nova." Leia a opinião do renovador Guilherme da Fonseca-Statter sobr os dois recentes manifestos de economistas que foram publicados nos últimos dias.
Dizem-nos uma série de observadores, cada vez mais atentos, que estamos perante uma grave crise social e económica. No entanto, para quem já estava desempregado há uns dois ou três anos a crise não é nova. Aliás, para algumas personalidades a crise não é crise coisa nenhuma, É antes uma excelente oportunidade para enriquecer “de um dia para o outro” (os chamados pára-quedas dourados dos gestores justificadamente muito bem remunerados), aproveitando de passagem para culpabilizar “a crise”... Tem as costas largas!
Ainda não perdi a esperança de ver – ou mesmo ouvir – um pedido formal de desculpas por parte de algum responsável (político ou académico...) reconhecendo que afinal andávamos a “navegar à vista”, sem perceber muito bem como é que funciona esta coisa da economia (a real, a profunda...) e que, afinal, talvez seja preciso “voltar aos bancos da escola” e estudar os velhos clássicos da Economia Política. Até parece que de um dos lados estão os “keynesianos” e do outro lado estão os “neoclássicos” (o que quer que isso queira significar...). Uns acham que as “grandes obras públicas” são fundamentais para a saída crise. Os outros parece que acham que essas mesmas “grandes obras públicas” só servem para endividar ainda mais o País e, sobretudo, as futuras gerações.
No que diz respeito à promoção e defesa do aparelho produtivo nacional – sem o qual não há exportações que nos valham para equilibrar as balanças comercial e de pagamentos – quanto a isso, tanto quanto eu saiba (mas corrijam-me se estiver enganado...) só vejo os pronunciamentos públicos (mas significativamente muito pouco publicitados) do nosso PCP. Com o qual pode não se concordar ou não gostar sempre, mas que é aquele que temos, diga-se de passagem.
Entretanto, e no que diz respeito às “soluções keynesianas” do nosso primeiro sr. Pinto de Sousa, como diria o sr. Medina Carreira (pessoa que me merece muito respeito mas de cuja mundivisão até discordo...) “não há nada pior do que as pessoas estudarem coisas sérias com o mesmo espírito com que lêem receitas de bacalhau”.

Vieram recentemente a lume três documentos, o primeiro dos quais mereceu o pomposo título de “manifesto”, o qual por sua vez veio a merecer dois outros (que eu saiba) “contra manifestos”. A mim faz-me lembrar, quer o “Manifesto Anti-Dantas” (de Almada Negreiros...), quer um outro “manifesto” (mais prosaico) e dedicado à redução de custos empresariais. Estou a referir-me a um livro publicado aqui já em 1993 e com o pomposo titulo “Reengineering the Corporation: A Manifesto for Business Revolutioni”, da autoria de Michael Hammer e James Champy.
Esperar-se-ia do uso da palavra “manifesto”, em particular no contexto da crise global em que nos encontramos, alguma profundidade histórica. Infelizmente não me parece que seja o caso daqueles documentos de que a nossa comunicação se fez eco.

É evidente que o país está cada vez pior. A dívida externa aumenta a olhos vistos e sobretudo porque é uma dívida para alimentar um consumo sem grandes contrapartidas de exportações... É também evidente que perante isso deveria haver, da parte das nossas elites dirigentes, algum esforço de reflexão sobre as causas da situação. Uma espécie de recuo meditativo e distanciado que lhes permitisse sair do emaranhado das circunstâncias da conjuntura diária (a floresta de enganos que a comunicação social – naturalmente e sem grandes culpas nisso – vai paulatinamente criando) e, com alguma calma e ponderação, “olhar a floresta de fora”.
O país tem as características geofísicas que tem. Umas são susceptíveis de grande aproveitamento, outras nem tanto. Não há volta a dar-lhe, pois não há “jangada de pedra” que nos permita navegar para outro qualquer continente onde seríamos “os mais ricos” e “mais desenvolvidos”.
O país tem a população que tem. Como parece que dizia o sr. Rei Dom Carlos (à conversa com o sr. João Franco...) “mas estes são os Portugueses que eu tenho”.
Mas aqui já muito se pode e (sobretudo) se deve fazer. Tendo vivido e trabalhado durante muitos anos numa empresa multinacional e no exercício de funções visitado e convivido com gente de muitos países, posso dar testemunho pessoal da elevada consideração em que são tidos os trabalhadores portugueses. Já o mesmo – infelizmente – não posso dizer no que diz respeito aos “quadros directivos” e (sobretudo) de gestão. Aí o panorama já é mais variado. Há certamente aqui quadros e gestores de grande qualidade, mas aquilo que “tem sobrado” (para os observadores estrangeiros”...) é sobretudo o desejo de exibição de uma certa imagem pessoal ou de “vã glória” (digo eu aqui...) por parte da maioria dos nosso quadros e gestores.

Entretanto a criação de riqueza só tem como origem exclusiva o trabalho humano corrente ou actual – não há volta a dar-lhe. E como deveria ser evidente, quanto mais qualificado for o factor trabalho, mais, melhor e mais diversificada será a riqueza que se venha a criar.
O resto são bagatelas e conversas de políticos mais preocupados com a decoração dos gabinetes do que com a resolução do problema fundamental do país.
Por outras palavras, as causas desta crise – na parte que diz respeito à estrutura da economia portuguesa – tem raízes que remontam aos anos Quarenta e Cinquenta. Para não recuar ainda mais no tempo. Estou a falar do ensino. Da formação técnica e científica dos nossos trabalhadores, quadros, gestores e potenciais empresários.
Dir-me-ão alguns observadores mais cínicos (já vi esse comentário escrito há uns anos...) que a educação não cria riqueza nem empregos. A esses senhores lembraria uma cantilena própria de matemáticos e filósofos dados a coisas da lógica mais elementar: há condições necessárias e há condições suficientes. E há as condições que são necessárias e suficientes...
No caso da educação e do ensino técnico-ciêntífico é evidente que se trata “apenas” de uma condição “necessária”. Mas, a esse respeito e mais uma vez, terei que me recorrer aqui apenas da experiência pessoal vivida na tal e já mencionada empresa multinacional. Fui aí responsável durante alguns anos pela formação técnica de uma fracção funcional e significativa do seu pessoal. O testemunho é este: enquanto que grande parte dos módulos de formação profissional, nos Estados Unidos ou na Alemanha e França, eram supostos demorar 4 ou 5 dias (às vezes 2 ou 3 semanas), em Portugal presumia-se que o pessoal era muito “mais esperto”. Os tais módulos quando atravessavam a fronteira encolhiam quase sempre para 1 ou 2 dias, quando não para uma apresentação de 4 ou 5 horas. Por informação recolhida junto de outras empresas o cenário não era (não é...) significativamente diferente.
As coisas (da formação profissional nas empresas...) só são mesmo diferentes (no que diz respeito ao resto do panorama nacional...) quando se trata de material concreto. Aí, como “o material tem sempre razão”, os tais módulos de formação profissional, se eram concebidos pelos fabricantes para durarem 10 dias, também em Portugal acabavam sempre por durar os mesmos 10 dias.

Esta coisa de uma certa “aversão ao conhecimento” é capaz de ser um “factor cultural”. Já o “nosso” Salazar encorajou em Portugal um ambiente social propício ao aparecimento de um explícito e pungente “elogio ao analfabetismo”, documento histórico – exposto num museu municipal no Alentejo – que vale por uma radiografia antropológica de uma certa sociedade portuguesa.
Mas entretanto, enquanto que a ditadura de Franco mantinha em Espanha, nos anos Quarenta e Cinquenta, a escolaridade obrigatória de 9 anos, o “nosso” Salazar” passava a escolaridade obrigatória de 4 para 6 anos, se não estou em erro, apenas em 1964.
Nestas coisas das teorias do desenvolvimento – tema que me levou entretendo a ensinar – sabe-se que a Educação é um factor crucial. A tal condição necessária... Sabe-se também que se trata de um factor com um longo “tempo de resposta”. Parece que já Napoleão dizia algo de parecido como “a educação dos filhos começa uma geração antes”... Estamos hoje ainda a pagar o que não se fez – em termos de educação científica e técnica – ao longo das últimas décadas. E a actuação do actual governo (com a ideia peregrina de que o problema se resolvia “avaliando o desempenho dos professores”) não veio ajudar – bem antes pelo contrário – a resolver o problema que é aliás de natureza estrutural.
Por outras palavras, para esta crise não há soluções “ao virar da esquina”, e corremos mesmo riscos muito sérios de continuar a ver e ouvir promessas demagógicas em mais duas campanhas eleitorais que se avizinham.

Voltando então ao manifesto e contra-manifestos confesso que não encontrei nos meios ao meu dispor qualquer referência ao problema fundamental da produtividade do factor trabalho.
Também não vi outra coisa que me parece fundamental. A definição – ou discussão preparatória dessa definição – de quais os objectivos que se pretendem alcançar com as “grandes obras públicas”.
Se queremos ser um país de turismo, de prestação de serviços, ou de actividades agro-pecuárias, piscatórias ou mineiras. Ou de tudo um pouco e em que proporções.
Entretanto, é das primeiras coisas que se aprende em qualquer cursículo de gestão empresarial que antes de se definirem critérios operacionais, é preciso definir tácticas. Antes de definir tácticas é preciso definir estratégias. E, sobretudo, antes de definir estratégias é preciso definir objectivos. Ou seja, “desenhar” o cenário económico, social político e cultural que se pretende alcançar a uma distância de 10 ou 20 anos.
Só depois disso tudo é que se discutem os meios... Já era assim no tempo do Infante Dom Henrique e do Dom João II e é assim ainda hoje.
Já nem falo do diagnóstico das causas da crise. A esse respeito o mais que se vai vendo são a repetição ou referência a discursos politicamente correctos, os quais por sua vez são sempre relativos à ganância de uns tantos e à falta de regulação por parte de quem era suposto regular o funcionamento dos mercados financeiros. Pelos vistos, a lógica intrínseca do funcionamento de uma qualquer economia de mercado, isso não tem nada a ver com a emergência da Crise.

Voltando ao país português, em jeito de conclusão e no contexto do país que queremos (ou não…) vir a ser), refiro uma breve visita que a Sra. Graça Machel fez recentemente a Portugal. Numa palestra proferida no CCB e tendo na mesa alguns notáveis da nossa elite política, fez um apelo pungente à maior participação de Portugal na reconstrução da África Sub Sahariana. Incitando-nos a desempenhar aí um papel de muito maior relevo a que também a História nos teria destinado.
Quase que lhe “saltou a tampa” (como soe dizer-se...) quando algumas daquelas personalidades argumentaram com a “falta de meios”. Falta de visão, faltou exclamar...

Guilherme da Fonseca-Statter
Junho de 2009



 

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