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30 DE JUNHO DE 2009, TERÇA FEIRA
POR: Guilherme da Fonseca-Statter
Ainda os Manifestos
Ou A Propósito de um “Debate entre economistas e académicos”
Leia mais um artigo de Guilherme da Fonseca-Statter sobre os Manifestos, este dirigido principalmente ao dos 51 subscritores.
Na sequência de um escrito anterior que entendi como sendo de âmbito mais amplo e portanto com algumas considerações que, eventualmente, alguns considerarão como extravasando o tema dos manifestos de grupos de economistas e académicos sobre o tema das “grandes obras públicas” como uma das saídas para a crise, proponho agora escalpelizar o texto a que tive acesso por via de uma notícia sob o título “Grupo de académicos defende viragem à esquerda na política económica” (em Público.pt).
O debate deverá ser centrado só em prioridades: só com emprego se pode reconstruir a economia
É um facto, devemos centrar-nos nas prioridades.
Se o doente está com febre, é fácil: paracetamol e pachos de água fria para descer a temperatura. Se o doente está numa de hipotermia, não fazer massagens, dar alguma bebida não alcoólica e suavemente quente, “embrulhar” em roupa quente...
Se em qualquer dos casos a doença é “mais séria”, Ah, isso depois logo se vê...

Faço este comentário porque proporcionar emprego a muitos milhares de pessoas até nem é muito complicado. Se me é permitido o exagero anedótico, em vez de uma máquina retro-escavadora com um só operador, basta empregar cem homens, cada um com sua enxada.
Mais para o sério, uma medida mais complicada mas que não deixa de ser “simples” (no sentido de o contrário de “complexa”) será dividir a carga laboral pelo número de trabalhadores disponíveis. Por outras palavras, reduzir os horários de trabalho de forma sistemática e concertada.
Mas a questão bastante mais séria aqui é a de que tipo de emprego estamos a falar... De que tipo de país queremos deixar às gerações futuras.

De resto o documento está elaborado por cientistas sociais habituados à ideia da regularidade dos ciclos e das chamadas medidas keynesianas para “combater a crise” ou as chamadas medidas de estímulo “contra cíclico”. São assim defendidas medidas de “dinamização da procura” por via do aumento do investimento público.
Mas pouco se diz acerca da dinamização e protecção do aparelho produtivo residente no território nacional e, sobretudo, da dinamização da capacidade produtiva de bens exportáveis, para além de algumas referências (sem dúvida importantes!...) a aspectos fundamentais como a “reabilitação do parque habitacional, expansão da utilização de energias renováveis, modernização da rede eléctrica, projectos de investimento em infra-estruturas de transporte úteis, com destaque para a rede ferroviária, investimentos na protecção social que combatam a pobreza e que promovam a melhoria dos serviços públicos essenciais como saúde, justiça e educação”.
Nisto é difícil não se estar de acordo.
Mas (há sempre um ‘mas’ para estragar o discurso...) haveria aqui que esmiuçar algumas questões como – em particular - aquela referência à rede ferroviária. Estão os autores deste “contra manifesto” a defender que se avance com os projectos de TGV (Lisboa-Porto?... Lisboa-Algarve?... Lisboa-Badajoz?...) ou que se renove e consolide a rede já existente?...
Vem depois uma referência a uma “quebra conjuntural (!...) da procura privada”. O meu espanto deve-se ao facto de, aparentemente, haver quem haja que continua agarrada à ideia de que estamos perante uma crise “conjuntural”.
Perante uma crise sistémica, mais ainda (muito mais...) do que uma crise estrutural, é no mínimo insólito que se proponham para saída da crise medidas cujo alcance não seria mais do que “contrariar a quebra conjuntural da procura”.
Como sugiro mais acima, se o diagnóstico da doença estiver errado, arriscamo-nos a que a prescrição seja inoperante, ineficaz ou até contraproducente. Se não aumentarmos a produção local, através da dinamização da capacidade produtiva instalada entre nós, então o aumento da procura só vai agravar o desequilíbrio das contas externas. É uma banalidade digna do senhor de La Palice...

Quanto ao resto – que não há muito – louvo (acho mesmo muito bem) que se faça um apelo à necessidade urgente de uma política coordenada no seio da União Europeia.

Guilherme da Fonseca-Statter
Junho de 2009



 

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