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12 DE DEZEMBRO DE 2010, DOMINGO
Cipriano Justo
Afinal ele sabia
Passados alguns meses está explicada a razão pela qual Cavaco Silva, na qualidade de Presidente da República, nem pestanejou, e porventura até concordou, quando o Presidente da República Checa invectivou Portugal pelo seu desempenho no domínio da política económica. Comparativamente, as suas declarações na Cimeira Ibero-Americana de Mar del Plata, a fazer fé no que foi divulgado pelos órgãos de comunicação social, não andaram muito longe da avaliação que o seu homólogo checo fez então.
Por volta de 2003, na altura em que a má moeda dominava a política portuguesa, na sua qualidade de economista e académico Cavaco Silva previu e deixou testemunho escrito do que ia acontecer passados meia dúzia de anos. Na altura tinha todos os graus de liberdade política para o fazer e até se pode considerar que representava um serviço que estava a prestar ao país, contribuindo com a sua experiência política e a sua competência profissional para que a boa moeda regressasse aos bolsos dos portugueses.

Em Mar del Plata, quando a especulação sobre os juros da dívida sofria uma escalada vertiginosa e a intervenção das agências de financiamento internacionais era dada como iminente, Cavaco Silva adoptou implicitamente como epígrafe das suas declarações o ralhete que Vaclav Klaus lhe dirigiu em Abril, procurando lavar as mãos de tudo o que se estava a passar no país de que era presidente. Já tinha ensaiado uma fuga quando no Verão afirmou que a situação era insustentável. Na Argentina, já como candidato a um segundo mandato presidencial reincidiu dando sinais de que a sua campanha eleitoral irá ser realizada na base de uma espécie de demonstração contabilística das vezes que mostrou os cartões amarelo e vermelho. Na presença dos dirigentes ibero-americanos aproveitou a presença de José Sócrates para simbolicamente apontar o responsável da situação portuguesa. Desta vez era Cavaco Silva a vestir a pele de Vaclav Klaus.

Porém, nos cinco anos que leva de mandato Cavaco Silva nada fez para colocar as suas previsões ao serviço dos portugueses. Ao contrário, foi gerindo a agenda política à medida das suas conveniências eleitorais apadrinhando já nos últimos cem metros do mandato a negociação e aprovação de um orçamento cujas consequências sociais já se começam a sentir mesmo antes de começar a ser aplicado. Se mais argumentos não houvessem, e eles ainda estão bem presentes na nossa memória recente, bastava esta omissão para Cavaco Silva dar por encerrada a sua intervenção política.

Afinal ele sabia, foi observando as tendências da economia e das finanças, teve os poderes que a Constituição lhe confere, dispôs de tempo suficiente para influenciar as políticas do governo, mas isso de nada serviu aos portugueses. A invocada cooperação estratégica teve mais de estratégia pessoal do que de cooperação para evitar as dificuldades em que o país se encontra. Quem assim procede, sobretudo em tempos difíceis, deixa de fazer parte da solução e transforma-se num problema. Politicamente foi o que Cavaco Silva passou a ser.


 
Bem visto
Enviado por Jorge Henrique Moniz Ribeiro, em 13-12-2010 às 21:17:49
e bem analisado!

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