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30 DE MAIO DE 2010, DOMINGO
POR: Prof. António Borges Coelho
Sessão de lançamento do livro de Carlos Brito
ÁLVARO CUNHAL – SETE FÔLEGOS DO COMBATENTE. MEMÓRIAS
O prof. António Borges Coelho cedeu-nos gentilmente a sua intervenção na sessão de lançamento do livro de Carlos Brito. A sessão foi um acto singular de debate político, animado também pela intervenção de Manuel Alegre e a contribuição de José Manuel Mendes, por onde se realçaram os momentos mais marcantes da acção de Álvaro Cunhal numa visita que não foi "panegírico" nem ajuste de contas, antes foi recenseado o tipo de problemas que foram enfrentados no seu longo contexto histórico e tentar talvez superar os problemas de hoje.
Este livro faz-nos cair num tempo vivido até ao osso. Ao lê-lo, doem-nos as cicatrizes, sentimos um cheiro a esperança, a juventude, a combate. Éramos duros e fraternos. Mas deixa-nos também um travo.

O seu autor ocupou entre 1966 e 1999 um lugar privilegiado na direcção da actividade política desenvolvida pelo Partido Comunista Português. Assim, a visão que este livro nos proporciona parte duma posição dominante e, por isso mesmo, em certo sentido, única, mas que deverá ser sujeita a rigorosa análise crítica.

Álvaro Cunhal sete fôlegos do Combatente é um testemunho político que estimula o debate, hoje quase inexistente. A prosa serena e densa assenta em vasta documentação. Não pretende ser um ajuste de contas. Por vezes, o autor comove-se e comove. Na caminhada pelos sete fôlegos ou sobressaltos ideológicos de Álvaro Cunhal, perpassa também o balanço da sua própria vida.

É, portanto, um Livro de Memórias singular. O autor, sempre presente, não ocupa o lugar principal. Não faltam os pequenos episódios que humanizam o relato, mas eu diria que quem está presente, quase a todo o momento, é o desenvolvimento da estratégia política.
Como é natural, a linguagem do livro não é a de 1966, nem a de 1974, mas a dos anos 2000, já no século XXI.

A narrativa sobre os Sete Fôlegos de Álvaro Cunhal começa em Outubro de 1966 num encontro de café na Place de Clichy, em Paris. Estatura acima da média, Álvaro Cunhal entra, “rosto moreno e severo, cabelo grisalho, gabardine desportiva, andar decidido.” Acrescentaria ao retrato as largas e grisalhas sobrancelhas, o riso aberto e claro que fazia medo ao meu amigo poeta, Armando da Silva Carvalho.

No encontro, Cunhal trazia a aura. Carlos Brito o olhar. Cunhal temperara-se num tempo marcado pela guerra civil de Espanha, a Segunda Guerra Mundial com a batalha de Estalinegrado e os dias da Vitória, e pela luta contra a ditadura fascista de Salazar. Para a derrubar, ele e os seus camaradas tinham pedalado pelo país todo semeando focos de resistência operária e camponesa de que morrem agora os últimos exemplares. Mobilizaram intelectuais para o MUNAF, o MUD e para uma arte voltada para o mundo do trabalho. Mas o intelectual Álvaro Cunhal pretendia ser e foi um filho adoptivo da classe operária. A URSS era então “a luz do mundo”, não porque fosse perfeita, mas porque, cercada pelos mais poderosos inimigos que havia na Terra, trazia a germinar no seu ventre uma nova sociedade, a do socialismo em marcha para o comunismo. Por essa sociedade, milhões de homens de todos os pontos do planeta tinham oferecido a sua vida.
Carlos Brito vinha do tempo da Guerra Fria, da Nato e temperara-se nas movimentações do semi-legal MUD Juvenil, na clandestinidade, na tortura e em oito anos de prisão política. Averbava no currículo uma fuga da cadeia do Aljube e iria ser em Abril de 1974 o responsável executivo do PCP na Grande Lisboa e no sector militar.

Naquele encontro, o que preocupava aqueles dois homens era a mobilização de Carlos Brito para prosseguir na luta clandestina e na sua tarefa primeira que era o derrube da ditadura de Salazar.

O autor deste livro sintetiza com rigor as razões que provocavam a admiração por Cunhal daqueles que tinham feito a tarimba no MUD Juvenil: a percepção da “sua inteligência, cultura, preparação teórica, capacidade e sagacidade políticas, mas resultava muito especialmente do seu trato severo e exigente, mas fraternal e justo, que nos fazia sentir seguros e crescer a seu lado, conferindo um conteúdo especial à palavra “camarada.””

Neste breve apontamento não consigo seguir, a par e passo, o testemunho de Carlos Brito. O livro divide-se em três partes. Na primeira, O Líder na Revolução, aborda o tempo da clandestinidade e da Revolução. Na segunda, O Revolucionário na Democracia, segue o desenrolar dos acontecimentos políticos e as dissidências do final do século XX. Na terceira, Carisma e Singularidades, refere algumas estórias que mostram o carácter e sentido de humor de Álvaro Cunhal. Gosto particularmente da primeira parte.

O Líder na Revolução

Nesta primeira parte, o autor fala na liderança sem brecha de Cunhal, no seu estilo de direcção e intervenção, na estratégia para a vitória, avançada pela primeira vez no III Congresso do PCP de 1943 (I Ilegal) e desenvolvida em 1964 no VI Congresso com o texto Rumo à Vitória. O derrubamento do fascismo era a primeira tarefa. Para isso era necessário estabelecer a mais ampla unidade das forças políticas. Mas o derrube do fascismo só poderia ter efeito com o uso da força e o estabelecimento, após a vitória, dum governo de unidade nacional.

Nesta parte, podemos acompanhar também algumas andanças por Praga, a Hungria, a Roménia e as críticas de Cunhal à actuação de alguns dirigentes daqueles países do socialismo real. Caímos depois na invasão da Checoslováquia e nas feridas graves que provocou na organização, particularmente nos camaradas de Praga, liderados por Flausino Torres. Não teria sido fácil para o patriota Cunhal engolir a invasão mas engoliu. O que seria do mundo socialista, perguntava.

O Álvaro vivia numa casa secretíssima e modesta nos arredores de Paris. Franqueou-a para curar Carlos Brito. De lá acompanhava a situação interna do país. Não se apercebeu dos sinais lançados pelo levantamento de 16 Março nas Caldas da Rainha e alertou os camaradas do interior para os perigos do putchismo.
Chegou ao aeroporto de Lisboa a 28 de Abril, subiu à chaimite, falou às massas e tomou rapidamente a direcção do combate. Nesse dia, acrescento eu, morreram de emoção dois poetas, o camarada Borga e o surrealista Pedro Oom.

Vou referir um pouco ao acaso os dias Inaugurais da Revolução e os enfrentamentos com Spínola, a franqueza de Samora Machel, a fantástica estratégia do Pacto MFA – Partidos e o balde de água gelada das Eleições para a Assembleia Constituinte.

Após a tomada de posse do V Governo Provisório e da publicação do Documento dos Nove, Cunhal altera de novo a estratégia. Na reunião do Comité Central, em Alhandra, realizado no verão de 1975, desenvolve uma estratégia que mobiliza o partido no sentido de evitar a rotura entre a esquerda militar e o Grupo dos Nove. “Não nos devemos deixar encostar ao muro.”

Ocorre o tenso debate na televisão com Mário Soares sobre a situação política. “Olhe que não, olhe que não.” Esteve iminente a invasão do parlamento, cercado pelos operários da construção civil, incitados pela extrema-esquerda. A determinação e a influência de Álvaro Cunhal, como mostra Carlos Brito, foram determinantes para que no 25 de Novembro falhasse o plano Carlucci – Mário Soares para afogar a comuna de Lisboa.

Creio que neste ano e nos combates seguintes se verificou o que Carlos Brito assinala na página 238:
“A palavra do secretário-geral tornou-se durante um certo período e como raramente acontece numa força material de resistência que permitiu que a “rua” enfrentasse as instituições e travasse os seus propósitos.”

Nos primeiros tempos Cunhal tinha dificuldade em fazer programas eleitorais, o programa era o do partido, e em substituir ou apagar os símbolos da foice e do martelo. Mas a verdade é que no início da nossa democracia, o PC foi o obreiro maior do recenseamento eleitoral e constituiu em boa medida o modelo da actividade e até do programa dos restantes partidos.

O Revolucionário na Democracia

Na Segunda Parte, os capítulos mais polémicos são o segundo e o terceiro, respectivamente “Ensaio renovador sob duas tempestades” e “Substituição, regresso, entronização.”

A queda do Muro de Berlim e a implosão da União Soviética fizeram lavrar a contestação e a divisão dentro do PCP e da sua direcção. A primeira fogueira ateou-se no grupo parlamentar e originou o Grupo dos 6 que, em escritos públicos, exteriorizou a sua discordância com a linha do partindo recorrendo largamente à autoridade dos clássicos. Internamente, a contestação exprimiu-se na carta dos 300 da Terceira Via, de que fui subscritor.

Álvaro Cunhal teve ainda um último sobressalto tentando segurar a contestação. No relatório ao XII Congresso apresentou uma nova fórmula “Por uma Democracia Avançada no século XXI.”

Carlos Brito detém-se nos episódios ligados à substituição de Álvaro Cunhal na liderança e também na contestação interna. Fala no “Novo Impulso” e no “Manifesto da Insubmissão”, diz que os renovadores internos conseguiram derrotar no Comité Central, por duas vezes, o camarada Álvaro. Na última, teve a seu lado os representantes da cintura industrial de Lisboa e de Setúbal. Mas Álvaro Cunhal voltou à liça com medo de que o partido se perdesse, como escreve o autor, e derrotou os renovadores.

Carlos Brito respeita a implantação social do partido comunista português, mas considera que corre o risco de se transformar num mero partido de protesto. Será assim? Será que Cunhal abafou o adorado bebé?

Álvaro Cunhal, Sete Fôlegos do Combatente. Memórias é um livro de grande fôlego sobre um mundo que é o fim duma época. Naqueles termos ela não volta mais.
Mas hoje para onde vamos? Não podemos submeter-nos à ditadura do capital financeiro nem abdicar da liberdade e do pensamento livre e criador. O debate por um mundo humano e fraterno tem de mobilizar todas as mulheres, homens e jovens, de boa vontade, e acordar-nos a todos do sono e da submissão.

Carlos Brito termina o seu livro com o funeral do camarada Álvaro e serve-se de palavras de Jorge Luís Borges: “Há na derrota uma dignidade que dificilmente pertence à vitória”.

Este livro é uma fonte preciosa pelas informações que transporta e pela serenidade com que manuseia os documentos e a memória. Toca-nos fundo. É denso, corajoso, vivo. Uma pedra para a História.


 

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