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11 DE JANEIRO DE 2011, TERÇA FEIRA
Jorge Nascimento Fernandes
O PCP e a Revolução Democrática e Nacional
Pretende-se provar que o PCP ao inscrever no seu Programa, aprovado em 1965, os oito objectivos da Revolu√ß√£o Democr√°tica e Nacional, que visavam derrubar o fascismo e instalar um regime democr√°tico, sem monop√≥lios e sem a subordina√ß√£o ao capital estrangeiro, se socorreu do conceito de ‚Äúetapas interm√©dias‚ÄĚ, que foi inicialmente formulado no VII Congresso da Internacional Comunista (1935) e pelo movimento comunista internacional, ao defender a forma√ß√£o de Frentes Populares e depois, j√° durante a II Guerra Mundial, de Frentes Nacionais.
Pretende-se provar que o PCP ao inscrever no seu Programa, aprovado em 1965, os oito objectivos da Revolu√ß√£o Democr√°tica e Nacional, que visavam derrubar o fascismo e instalar um regime democr√°tico, sem monop√≥lios e sem a subordina√ß√£o ao capital estrangeiro, se socorreu do conceito de ‚Äúetapas interm√©dias‚ÄĚ, que foi inicialmente formulado no VII Congresso da Internacional Comunista (1935) e pelo movimento comunista internacional, ao defender a forma√ß√£o de Frentes Populares e depois, j√° durante a II Guerra Mundial, de Frentes Nacionais. Este conceito abandonava ou relegava para mais tarde a ideia leninista de revolu√ß√£o socialista imediata. O abandono deste conceito trouxe sem d√ļvida consequ√™ncias ao n√≠vel da actua√ß√£o do PCP durante a revolu√ß√£o de Abril e que est√£o expressas na presente interven√ß√£o nas declara√ß√Ķes iniciais de Lenine ao chegar a Petrogrado e de √Ālvaro Cunhal, a Lisboa. Por outro lado, confronta-se esta posi√ß√£o anteriormente assumida pelo PCP com a divulga√ß√£o recente entre os militantes daquele partido de um texto do PC Grego (KKE) muito cr√≠tico da defesa daquelas etapas interm√©dias e das alian√ßas de classe que da√≠ resultam.

Pequena nota pr√©via ‚Äď O texto que se segue foi inicialmente publicado no site Comunistas.info. O texto original chamava-se O PCP, a Revolu√ß√£o Democr√°tica e Nacional e o rumo ao socialismo ‚Äď Algumas contribui√ß√Ķes para a caracteriza√ß√£o do 25 de Abril.
Os organizadores do col√≥quio entenderam, e bem, dada a extens√£o do meu texto original, que eu o resumisse unicamente para O PCP e a Revolu√ß√£o Democr√°tica e Nacional. Nesse sentido, refiz o texto original na parte dedicada √†quela Revolu√ß√£o, tendo-lhe acrescentado algumas opini√Ķes e informa√ß√Ķes recentes. Mantive, apesar de estar resumida, a compara√ß√£o entre a chegada de Cunhal e de Lenine, respectivamente, a Lisboa e a Petrogrado


I ‚Äď A chegada de Lenine e Cunhal do ex√≠lio
O texto inicial de que me estou a socorrer come√ßava por estabelecer uma clara diferen√ßa entre a chegada de Lenine √† Esta√ß√£o da Finl√Ęndia, regressado do ex√≠lio, depois da Revolu√ß√£o de Fevereiro de 1917, que tinha tido lugar na R√ļssia, e a chegada de √Ālvaro Cunhal ao aeroporto da Portela, em Lisboa, pouco depois do 25 de Abril de 1974. Se para muitos de v√≥s √© clara a diferen√ßa, al√©m de alguma semelhan√ßa formal, resultante de serem dois exilados que regressavam depois de transforma√ß√Ķes revolucion√°rias nos seus pa√≠ses, j√° para a reac√ß√£o e especificamente para Zita Seabra e Vasco Pulido Valente, isso n√£o sucede. Fazem compara√ß√Ķes descabidas. Afirmam, que os discursos de Lenine e Cunhal foram pronunciados de cima de tanques e que eram um claro apelo √† revolu√ß√£o comunista. Isto poder-vos-√° fazer sorrir, mas estes senhores andam h√° anos a difundir esta balela.
Lenine, ao contr√°rio do que √© correntemente escrito, fez dois discursos, um ainda dentro da esta√ß√£o e outro no largo exterior, a√≠ de facto em cima de um tanque. Cunhal s√≥ falou no exterior do aeroporto, de cima de um tanque, por sugest√£o, segundo Victor Dias, no seu blog, de Jaime Neves, e depois de ter obtido por troca de olhares e de acenares de cabe√ßa o consentimento de Direc√ß√£o do PCP, que estava no Interior (declara√ß√Ķes de Carlos Brito). Simplesmente, enquanto que Lenine, que estava incomodado com a delega√ß√£o que o estava a receber, pois al√©m de camaradas, era gente do Governo Provis√≥rio, que ele n√£o apoiava, e do Soviete de Petrogrado, na altura dominado ainda pelos mencheviques, proclamou logo no seu discurso a transforma√ß√£o da guerra imperialista (a I Guerra Mundial) em guerra civil dos povos contra os seus exploradores capitalistas e deu vivas √† revolu√ß√£o mundial socialista. √Ālvaro Cunhal, pelo contr√°rio, n√£o s√≥ defendeu alguns dos pontos da Revolu√ß√£o Democr√°tica e Nacional, como outros ligados ao momento que ent√£o se estava a viver: como a defesa da ac√ß√£o legal dos partidos pol√≠ticos e o fim da guerra colonial, terminando o seu discurso com uma sauda√ß√£o ao MFA e √† Junta de Salva√ß√£o Nacional. √Č evidente que as situa√ß√Ķes eram completamente diferentes e a vontade dos seus intervenientes tamb√©m era diferente, simplesmente √© uma completa mentira falar do apelo de Cunhal √† revolu√ß√£o Comunista.

II ‚Äď Revolu√ß√£o Democr√°tica e Nacional
A Revolu√ß√£o Democr√°tica e Nacional (RDeN), com este nome e com as caracter√≠sticas a seguir definidas, foi inicialmente defendida por √Ālvaro Cunhal no relat√≥rio denominado Rumo √† Vit√≥ria ‚Äď As tarefas do Partido na RDeN e que foi apresentado ao Comit√© Central do PCP, em Abril de 1964, com vista √† prepara√ß√£o do VI Congresso PCP, que teria lugar no ano seguinte. A RDeN seria inclu√≠da no novo Programa do Partido, aprovado naquele Congresso.
Eram oito os objectivos fundamentais da RDeN: ‚Äúinstaurar as liberdades democr√°ticas destruindo o Estado fascista e instaurando um regime democr√°tico, liquidar o poder dos monop√≥lios, realizar a reforma agr√°ria, realizar uma pol√≠tica social que garanta a eleva√ß√£o do n√≠vel de vida das classes trabalhadoras, democratizar a instru√ß√£o e a cultura, libertar Portugal do dom√≠nio imperialista, reconhecer e assegurar aos povos das col√≥nias o direito √† autodetermina√ß√£o e √† independ√™ncia, adoptar uma pol√≠tica de paz e amizade com todos os povos‚ÄĚ.
Assim, segundo √Ālvaro Cunhal a revolu√ß√£o antifascista seria sin√≥nimo de democr√°tica e nacional e esta s√≥ seria alcan√ßada quando todos aqueles objectivos fossem realizados. Por outro lado, e isso √© importante, considerava-se que na etapa actual (1965) a revolu√ß√£o era democr√°tica e nacional, que √© uma etapa primeira e necess√°ria para a revolu√ß√£o socialista.
√Č evidente que esta caracteriza√ß√£o resultava em primeiro lugar da defini√ß√£o do que se entendia por fascismo: ‚Äúditadura terrorista dos monop√≥lios (associados ao capital estrangeiro) e dos latifundi√°rios‚ÄĚ. E em segundo lugar de uma an√°lise de classes que opunha ‚Äúos grandes grupos monopolistas e latifundi√°rios dominantes √†s restantes camadas e classes da popula√ß√£o‚ÄĚ. Da√≠ a designa√ß√£o da RDeN como ‚Äúanti-monopolista e anti-imperialista‚ÄĚ.
√Č evidente que a defini√ß√£o de fascismo n√£o √© nova, nem a caracteriza√ß√£o das classes em confronto. No VII Congresso da Internacional Comunista (1935) a defini√ß√£o de fascismo tem contornos semelhantes: ‚Äúditadura terrorista declarada (aberta) dos elementos mais reaccion√°rios, chauvinistas e imperialistas do capital financeiro‚ÄĚ, a que alguns partidos com maior peso de camponeses, acrescentaram ‚Äúe dos latifundi√°rios‚ÄĚ.
Para iniciar a concretização da RDeN e derrubar o fascismo o Programa do PCP apontava para o levantamento nacional, a insurreição popular armada, que no Prefácio à Acção Revolucionária, Capitulação e Aventura, de Cunhal, e mais de acordo como que se tinha sucedido no 25 de Abril, passa a ser uma insurreição militar e popular.
√Ālvaro Cunhal considera ainda em A Verdade e a Mentira na Revolu√ß√£o de Abril (A contra-revolu√ß√£o confessa-se) que ‚Äúa RDeN n√£o estava prevista nos manuais de ci√™ncia pol√≠tica, nem na hist√≥ria das revolu√ß√Ķes. O programa do PCP foi de facto o programa de uma revolu√ß√£o original, porque original era a situa√ß√£o do pa√≠s‚ÄĚ.
Esta √ļltima afirma√ß√£o parece-me um n√≠tido exagero vinda de quem, como √Ālvaro Cunhal, conheceu bem, porque delas teve conhecimento directo, ao participar VI Congresso da Internacional Juvenil Comunista, em Moscovo (Setembro-Outubro de 1935), das discuss√Ķes travadas, no m√™s anterior, no VII Congresso da Internacional Comunista (IC), que se realizou entre Julho e Agosto de 1935, igualmente em Moscovo. Mas mais do que isso, integrou, como o pr√≥prio afirma, a delega√ß√£o portuguesa, chefiada por Bento Gon√ßalves (√† √©poca secret√°rio-geral do PCP) que discutiu com o Comit√© Executivo da Internacional Comunista algumas das quest√Ķes principais desse Congresso. Nele foram assinalados, com o devido relevo, os perigos da amea√ßa fascista, que at√© a√≠ tinham sido minimizados pela IC, e foi proposta uma alian√ßa com a social-democracia, com vista √† forma√ß√£o daquilo que depois se viria a denominar por Frentes Populares. Esta nova orienta√ß√£o, encabe√ßada por Dimitrov, veio a suceder a um per√≠odo ultra-esquedista da IC (1929-1934).
J√° na prepara√ß√£o daquele Congresso, e recorrendo a um texto oficial da altura, √© afirmado ‚Äúque a palavra de ordem de luta directa pela ditadura do proletariado n√£o se adequava √†s condi√ß√Ķes reinantes em muitos pa√≠ses capitalistas. O socialismo continua a ser a meta final do movimento, mas devemos ter um programa de luta mais concreto, que n√£o aponte logo para a ditadura prolet√°ria e o socialismo, mas que leve as massas √† luta por esses objectivos finais‚ÄĚ. E mais adiante torna-se a afirmar ‚Äúque o processo revolucion√°rio nos pa√≠ses capitalistas n√£o avan√ßaria imediatamente e directamente atrav√©s da revolu√ß√£o socialista, mas que se aproximaria dela atrav√©s da etapa da luta democr√°tica geral contra o fascismo‚ÄĚ.
Como vemos, e devido à implantação do fascismo numa série de países com diferentes graus de desenvolvimento capitalistas, a ideia de uma etapa intermédia entre a situação de ditadura fascista e o socialismo, que ainda nessa época era sinónimo de ditadura do proletariado, foi desenvolvida e explanada no VII Congresso da IC.
A pr√≥pria experi√™ncia hist√≥rica do PCP permite-nos afirmar que, no in√≠cio dos anos 30, a pr√°tica defendida tinha muito ver com a via insurreccional para concretizar a revolu√ß√£o socialista e a instaura√ß√£o da ditadura do proletariado, de acordo com a orienta√ß√£o seguida ent√£o pela IC e aplicada por todo os partidos aderentes. A greve geral de 18 de Janeiro de 1934, contra a fasciza√ß√£o dos sindicatos, e a ocupa√ß√£o insurreccional da Marinha Grande pelos grevistas, eram devedoras desses objectivos, que resultavam igualmente da influ√™ncia do movimento anarco-sindicalista no movimento oper√°rio. A Revolta dos Marinheiros que se registou em Setembro de 1936, e que foi prontamente subjugada pelo fascismo, √© o √ļltimo reflexo entre n√≥s dessa concep√ß√£o. Com o regresso de Bento Gon√ßalves, que foi preso logo a seguir √† sua chegada do VII Congresso da IC, a nova estrat√©gia a√≠ defendida √© encarada pelo PCP, com todas as dificuldades que resultavam da pris√£o do seu secret√°rio-geral, chegando a propor-se a forma√ß√£o de um Frente Popular em Portugal, que n√£o teve sucesso. As propostas unit√°rias de luta contra o fascismo, com a aplica√ß√£o das novas orienta√ß√Ķes, s√≥ foram levadas √† pr√°tica com √™xito, primeiro, com a cria√ß√£o do MUNAF (1943) e depois do MUD (1945).


Posteriormente, durante a II Guerra Mundial, a experi√™ncia das ‚Äúfrentes populares‚ÄĚ foi enriquecida com a forma√ß√£o das ‚Äúfrentes nacionais‚ÄĚ nos diversos pa√≠ses onde se lutava contra o fascismo. Recordo que as ‚Äúfrentes nacionais‚ÄĚ estiveram posteriormente na origem dos pa√≠ses de ‚Äúdemocracia popular‚ÄĚ, que se formaram no final da Guerra, dentro da √°rea de influ√™ncia da Uni√£o Sovi√©tica. As ‚Äúfrentes nacionais‚ÄĚ englobavam os movimentos comunista, socialista e social-democrata, mas igualmente for√ßas mais √† direita e que se opunham ao nazi-fascismo, como o degaullismo em Fran√ßa.


Para uma melhor caracteriza√ß√£o do que temos vindo a dizer, mas de outro ponto de vista, gostaria de transcrever uma declara√ß√£o do Partido Comunista da Gr√©cia, a prop√≥sito do 90¬ļ anivers√°rio da Grande Revolu√ß√£o Socialista de Outubro (2007), em que se afirmava: ‚ÄúNo Ocidente capitalista, os partidos comunistas n√£o puderam elaborar uma estrat√©gia de transforma√ß√£o da guerra imperialista ou da luta de liberta√ß√£o numa luta pela conquista do poder oper√°rio. Eles remeteram o objectivo do socialismo para mais tarde e definiram tarefas que se limitavam √† luta na frente contra o fascismo. O ponto de vista que prevalecia na altura, sustentava que era poss√≠vel a exist√™ncia de uma forma interm√©dia de poder, entre o poder burgu√™s e o poder da classe oper√°ria revolucion√°ria, com a possibilidade de vir a evoluir para um poder oper√°rio.‚ÄĚ Ou ent√£o, esta outra: ‚ÄúA pol√≠tica seguida por um bom n√ļmero de partidos comunistas que consistia em colaborar com a social-democracia, fez parte da estrat√©gia da ¬ęgoverna√ß√£o anti monopolista¬Ľ, uma esp√©cie de estado interm√©dio entre o capitalismo e o socialismo, que se expressava igualmente atrav√©s de governos que tentaram administrar o sistema capitalista.‚ÄĚ
Esta declara√ß√£o mereceu, j√° na nossa d√©cada, ampla divulga√ß√£o em alguns blogs de militantes do PCP, e serviu mesmo de texto de forma√ß√£o ideol√≥gica dentro do pr√≥prio partido. √Č um fen√≥meno estranho a sua actual popularidade, porque n√£o s√≥ critica, mesmo que indirectamente, as posi√ß√Ķes assumidas pelo PCP em defesa da RDeN, como parece ser a reprodu√ß√£o ipsis verbis das afirma√ß√Ķes de Francisco Martins Rodrigues, um dissidente do PCP dos anos 60, j√° falecido, no seu livro Anti Dimitrov ‚Äď 1935-1985: meio s√©culo de derrotas da revolu√ß√£o. Como se v√™, a vida d√° muitas voltas.


√Č interessante que, depois de j√° eu ter escrito o post inicialmente referido, fui encontrar no livro de Carlos Brito, ‚Äú√Ālvaro Cunhal, sete f√īlegos de um combatente‚ÄĚ um texto do informe de Cunhal ao III Congresso do PCP, de 1943, em que este escreve: ‚ÄúN√≥s tornamos bem claro que sempre fomos e continuamos sendo pelo Poder Sovi√©tico. Mas as condi√ß√Ķes n√£o est√£o maduras para a Revolu√ß√£o Prolet√°ria. Todas as energias e todas as for√ßas se devem unir no momento presente para bater o inimigo comum ‚Äď o fascismo‚ÄĚ, o que reafirma tudo aquilo que temos vindo a dizer.
Para Carlos Brito o primeiro grande f√īlego da √Ālvaro Cunhal foi sem d√ļvida o Rumo √† Vit√≥ria, de 1964, onde era plasmada a situa√ß√£o pol√≠tica portuguesa e as tarefas indispens√°veis para o derrube do fascismo e a proposta da Revolu√ß√£o Democr√°tica e Nacional como tarefa central a realizar a seguir √† queda do fascismo. Brito afirma mesmo: ‚ÄúO eixo ideol√≥gico central do Rumo √† Vit√≥ria √© a Revolu√ß√£o Democr√°tica e Nacional, uma cria√ß√£o te√≥rica a que √Ālvaro Cunhal chegou depois de profundo estudo sobre a realidade do pa√≠s, que lhe permitiu fixar a etapa da revolu√ß√£o portuguesa e as respectivas tarefas no processo mundial‚ÄĚ.


Retomamos aqui a originalidade de RDeN j√° defendida por Cunhal e que anteriormente critiquei. No entanto, ainda muito recentemente, num livro com v√°rios autores, todos eles dirigentes do Bloco de Esquerda, Os Donos de Portugal, se faz refer√™ncia √† proposta da RDeN como tendo ‚Äúem vista uma alian√ßa anti-monopolista abrangendo, para al√©m dos trabalhadores, o campesinato e a pequena e m√©dia burguesia do com√©rcio e da ind√ļstria. A Revolu√ß√£o n√£o visava apenas substituir a ditadura fascista pela democracia. Iria mais al√©m. O Estado sob a coliga√ß√£o das for√ßas progressistas, tomaria conta dos grupos econ√≥micos industriais e financeiros e expropriaria o capital estrangeiro.
Percebe-se hoje que essa seria a √ļltima hip√≥teses do projecto de Fomento, daquilo que se convencionou chamar ‚Äúo projecto nacional desenvolvimentista‚ÄĚ, do desenvolvimento da ind√ļstria, da reforma agr√°ria, da substitui√ß√£o das importa√ß√Ķes, j√° sem col√≥nias, nem o sorvedouro da guerra colonial, em vidas e or√ßamento. Um Estado auto-suficiente, com a revolu√ß√£o industrial cl√°ssica completa. Da mina √† m√°quina complexa.
Era… a chamada do proletariado à primeira linha da ideologia do Fomento. Apontando para uma etapa de uma democracia progressiva, prévia a um esperado e ulterior regime socialista, cuja transição era indefinida e indefinível. Até porque
‚ÄĚ segundo Cunhal, no b[]Rumo √† Vit√≥ria ‚Äúa liquida√ß√£o do poder dos monop√≥lios ter√° de ser acompanhada por uma pol√≠tica de r√°pido desenvolvimento industrial, onde a direc√ß√£o superior do Estado n√£o s√≥ n√£o exclua como anime a iniciativa das empresas privadas‚ÄĚ.
Esta longa cita√ß√£o confirma tudo aquilo que vimos dizendo sobre RDeN, acrescentando-lhe no entanto um ponto novo que √© a sua liga√ß√£o a linhas program√°ticas anteriores, de autores n√£o alinhados com a classe oper√°ria, que defendiam para Portugal um projecto de Fomento. E este texto, que vimos citando, quase que termina com esta afirma√ß√£o cheia de esp√≠rito, de que Ferreira Dias ‚Äúnunca pensaria que a classe oper√°ria poderia cumprir o programa dos engenheiros‚ÄĚ. Aquele autor era um conservador afascistado, que defendia nos anos 40 a industrializa√ß√£o do nosso pa√≠s,


Atendendo ao que anteriormente foi escrito, a RDeN pode-se inserir, com os objectivos que o PCP entendeu formular, e que evidentemente reflectem algumas das caracter√≠sticas da situa√ß√£o portuguesa da √©poca, dentro das ‚Äúetapas interm√©dias‚ÄĚ que visavam, por um lado, derrotar o fascismo, e os seus apoios de classe, e, por outro, instalar um regime democr√°tico, sem os monop√≥lios e sem a subordina√ß√£o ao capital estrangeiro, tendo como objectivo √ļltimo a instaura√ß√£o do socialismo. Foi fundamentalmente com a experi√™ncia da luta anti-fascista, com as ‚Äúfrentes populares‚ÄĚ primeiro e com as ‚Äúfrentes nacionais‚ÄĚ depois, que o movimento comunista enriqueceu a sua experi√™ncia hist√≥rica e aprofundou a sua forma√ß√£o te√≥rica, de que, sem qualquer d√ļvida, √© tamb√©m devedor o PCP. Isto implicou alguma ruptura, nunca assumida, com o leninismo e com a sua teoria da revolu√ß√£o socialista. E se para justificar estas novas concep√ß√Ķes, novas para a √©poca, sempre se socorre de alguma frase de Lenine, como esta citada por Cunhal: ‚Äútodas as na√ß√Ķes vir√£o ao socialismo, ‚Ķ mas n√£o vir√£o todas de forma absolutamente id√™ntica, cada uma trar√° a sua originalidade, nesta ou aquela forma de democracia, nesta ou naquela variedade de ditadura do proletariado ‚Ķ‚ÄĚ, a verdade √© que este s√≥ escreveu sobre as ‚Äúetapas interm√©dias‚ÄĚ ou de ‚Äútransi√ß√£o‚ÄĚ a prop√≥sito de coisas bem diferentes, como era a revolu√ß√£o democr√°tico-burguesa ou as lutas pela independ√™ncia nacional. O que √© justific√°vel dado que Lenine n√£o foi contempor√Ęneo da ascens√£o do fascismo. Por isso, compreende-se mal que haja hoje quem no PCP, sem nunca ter feito qualquer cr√≠tica ao conceito de RDeN, se assanhe em divulgar uma declara√ß√£o como a do PC Grego, j√° por mim referida.


Gostaria de real√ßar dois aspectos relevantes antes de terminar. Primeiro referiria que, para concretizar a RDeN e derrubar o fascismo, o PCP defendia o ‚Äúlevantamento nacional‚ÄĚ, que, segundo a opini√£o de Cunhal, encaixou como uma luva com o que se passou no dia 25 de Abril. Pode-se afirmar que √† √©poca (1961), com a defesa feita no XX Congresso do PCUS (1956) da transi√ß√£o pac√≠fica para o socialismo, era dif√≠cil um partido comunista assumir que defendia um caminho de viol√™ncia para o derrube do Governo do seu pa√≠s. A seguir √†quele Congresso, o Comit√© Central (CC) do PCP entendeu formular a concep√ß√£o da ‚Äúsolu√ß√£o pac√≠fica do problema pol√≠tico portugu√™s‚ÄĚ abandonando mesmo a express√£o ‚Äúderrubamento do fascismo‚ÄĚ. Mas j√° com Cunhal em liberdade (Janeiro de 1960), depois da sua fuga de Peniche, o CC decide, em reuni√£o efectuada em Mar√ßo de 1961, fazer a cr√≠tica daquilo que considerou ser ‚Äúo desvio de direita no Partido nos anos de 1956-59‚ÄĚ, reponde de novo a linha de ‚Äúlevantamento nacional‚ÄĚ. √Č justo pois assinalar esta diferen√ßa, que Cunhal valoriza extraordinariamente, pelo menos em rela√ß√£o √†s posi√ß√Ķes assumidas pelo PC espanhol.


Segundo, assinalar que Cunhal considera no seu livro, O PCP e o VII Congresso da Internacional Comunista, que algumas das ac√ß√Ķes empreendidas por aquele partido s√£o devedoras daquele Congresso, principalmente a luta pela unidade, apesar de reconhecer que, na situa√ß√£o particular de Portugal, era dif√≠cil implantar a ‚Äúfrente popular‚ÄĚ e a actua√ß√£o dos comunistas nos sindicatos fascistas, abandonando a ideia de manter a todo o custo sindicatos paralelos ilegais. No entanto, em parte alguma do livro referido se considera a RDeN como a continua√ß√£o das propostas avan√ßadas pelo VII Congresso.


III Conclus√£o

Pelo que atr√°s ficou dito pode-se afirmar que o conceito de Revolu√ß√£o Democr√°tica e Nacional, estando intimamente ligado √† realidade nacional, √© no entanto devedor das formula√ß√Ķes te√≥ricas, principalmente da ideia de etapa interm√©dia, entre o derrube do fascismo e a chegada √† sociedade socialista, j√° formuladas no VII Congresso da Internacional Comunista. Simplesmente, este conceito, que informou durante anos o movimento comunista internacional, rompe, mesmo sem o assumir, com o conceito leninista de revolu√ß√£o. Esta ideia teve necessariamente implica√ß√Ķes na atitude que o PCP tomou durante a revolu√ß√£o de Abril. E hoje tardiamente, alguns militantes do PCP, sem uma vis√£o cr√≠tica do seu passado, retomam, pela porta do cavalo, alguns dos velhos conceitos anteriores √†quele Congresso.


Sites onde se pode encontrar referências a este tema:

O Desvio Esquerdista e Sect√°rio da Internacional Comunista (1929-1934), 28 Julho de 2007, in Comuistas.info.

Os desvarios ideológicos de um militante do PCP, 10 de Novembro de 2007, in DOTeCOMe

Lenine e a Revolu√ß√£o, de Jean Salem ‚Äď Uma an√°lise cr√≠tica ‚Äď Parte I, 5 de Dezembro de 2007, in DOTeCOMe

Lenine e a Revolu√ß√£o, de Jean Salem ‚Äď Uma an√°lise cr√≠tica ‚Äď Parte II, 19 de Dezembro de 2007, in DOTeCOMe

O PCP, a Revolu√ß√£o Democr√°tica e Nacional e o rumo ao socialismo ‚Äď Algumas contribui√ß√Ķes para a caracteriza√ß√£o do 25 de Abril, Parte I, 25 de Junho de 2008, in Trix-Nitrix.

O PCP, a Revolu√ß√£o Democr√°tica e Nacional e o rumo ao socialismo ‚Äď Algumas contribui√ß√Ķes para a caracteriza√ß√£o do 25 de Abril, 27 de Junho de 2008, in Comuistas.info.

O PCP, a Revolu√ß√£o Democr√°tica e Nacional e o rumo ao socialismo ‚Äď Algumas contribui√ß√Ķes para a caracteriza√ß√£o do 25 de Abril , Parte II, 28 de Junho de 2008, in Trix-Nitrix.

√Ālvaro Cunhal, sete f√īlegos de um combatente, 9 de Julho de 2010, in Trix-Nitrix


 

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