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01 DE FEVEREIRO DE 2011, TERÇA FEIRA
António Bica
A inteligência é capacidade humana e de todos os animais, podendo o princípio da inteligência estar em tudo o que existe.
Por inteligência tem-se entendido a capacidade humana de raciocínio abstracto, isto é a possibilidade do cérebro figurar uma ou mais situações ou realidades imaginadas e de as relacionar com o observado no mundo exterior, ou entre si, capacidade de que resulta a consciência, isto é a auto-percepção da individualidade do correspondente ser.
A capacidade de raciocínio abstracto, usada para melhor solucionar os problemas de sobrevivência que se vão pondo na vida de cada ser, incluindo através do melhor entendimento do mundo, o que para isso é necessário ou útil, porque impele os humanos a observar todo o mundo exterior, leva-os a raciocinar sobre ele procurando explicar a sua origem e o seu funcionamento. Essa capacidade era entendida como exclusiva dos humanos e pelas religiões considerada consequência e prova da sua criação divina.

Hoje, por observações cuidadosas e experiências, é certo que outros animais, especialmente macacos, são capazes de raciocínio abstracto, embora não tão complexo como o dos humanos, o que, nomeadamente, lhes possibilita a produção e o uso de instrumentos, mesmo que rudimentares, para melhor resposta aos desafios que a natureza (incluindo os outros animais) lhes põe.

Mas inteligência não é apenas capacidade de raciocínio abstracto. Todos os animais, perante cada problema que enfrentam (ameaça, frio, chuva, fome, sede e outros), revelam capacidade para tentar superá-lo, lutando ou fugindo, procurando abrigo, buscando alimento ou água. Esses comportamentos são inteligentes, embora não resultem de raciocínios abstractos, isto é de prévia e antecipada figuração de cada problema e da mais adequada resposta a dar-lhe, incluindo antecipada reunião dos meios (nomeadamente instrumentos) para o efeito. A generalidade dos animais parece ser apenas capaz de agir com inteligência quando os problemas que precisa de solucionar se lhe põem. Se um animal não tiver capacidade para os resolver, a sua vida será curta e não deixará descendência. Assim a selecção natural estimula o uso da inteligência. Os seres que melhor a usarem maior capacidade têm de sobreviver por mais largo tempo e consequentemente de deixarem descendência.

A inteligência de cada ser animal é gerada em órgão específico, o cérebro, que dispõe de meios de comunicação com as restantes partes do respectivo corpo para lhes transmitir comandos e receber informações, incluindo dos efeitos sobre elas do mundo exterior.

Do referido resulta que inteligência é a capacidade de cada animal, incluindo o homem, para dar a melhor resposta a cada um dos problemas que continuamente enfrenta. Em síntese pode dizer-se que inteligência é a capacidade de cada animal para escolher o melhor para si.

As pessoas de boa formação moral, perante esta definição de inteligência, tendem a reagir como sendo justificação de egoísmo. Mas não é. Muitos animais, especialmente os humanos, são seres gregários que precisam da colaboração dos outros para, em primeiro lugar, se reproduzir, e, depois, melhor viver, isto é melhor defender a sua existência. Por isso, cada um, a par de pulsões para defesa da sua individualidade, o que é necessário para se manter vivo, sente pulsões para bem se relacionar com os outros, o que é necessário para que a espécie se reproduza e para defesa da sua individualidade por cooperação.

É necessário o justo equilíbrio entre os comportamentos de cada ser para a necessária defesa da sua individualidade e os adequados à indispensável cooperação com os outros para se assegurar a reprodução e a melhor defesa colectiva, que é também defesa de cada indivíduo. Cada animal nasce geneticamente programado para manter esse equilíbrio. Se houver desequilíbrio, o tempo de vida do indivíduo tende a encurtar-se e assim a selecção natural a eliminá-lo.

Também cada planta procura o melhor para ela, embora não disponha de órgão capaz de centralizar informações das suas diferentes partes e, através delas, do mundo exterior, e de as processar e emitir comandos com base nelas. Mas as suas partes são sensíveis ao mundo exterior, nomeadamente à luz, ao frio, à água, e, por meio de compostos químicos orgânicos complexos que produz, assegura a comunicação entre elas.

Por isso, quando a semente germina, as suas raízes procuram a terra e as folhas o ar e a luz. Esse comportamento não é de natureza estrutural distinta do do animal que procura comida para se alimentar ou abrigo para se proteger das intempéries. E, se uma planta nasce sem capacidade para encaminhar as suas raízes para a terra ou as folhas para o ar e a luz, a selecção natural eliminá-la-á.

Os chamados seres inanimados, embora nada haja que se não mova, tudo girando e fluindo, que o movimento parece ser constante universal de que resulta o tempo, como interagem? Observando, vemos que os seres que designamos por não animados o fazem da forma que melhor a eles parece adequar-se, isto é mais lhes convém: Os corpos celestes giram entre si segundo leis constantes; os compostos químicos cristalizam sempre sob certas formas; os elementos simples (hidrogénio, oxigénio, carbono e os outros) associam-se de modos sempre iguais se as condições forem as mesmas; os protões, os neutrões e os electrões organizam-se entre si sempre segundo formas certas; os elementos mais simples, embora constituam realidades ainda mal compreendidas, parece obedecerem ao mesmo tipo de constâncias. Assim agem porque de outro modo deixam de ser o que são.

O que os faz assim agir, procurando a melhor organização para eles, não será princípio inteligente universal comum a tudo o que existe?

Se assim for, a inteligência humana corresponderá ao constante avanço organizativo de tudo o que existe, complexificando o princípio inteligente universal. Tudo o que existe, ao tornar-se progressivamente cada vez mais complexo, potenciará esse princípio inteligente universal até capacitar, pela inteligência abstracta, os humanos a debruçarem-se sobre si mesmos e o universo de que fazem parte.

Outra questão é se os humanos alguma vez alcançarão o pleno conhecimento do universo, isto é de tudo o que existe. Não parece possível, que, sendo os humanos parte do universo, isso estará fora do seu alcance. Compreender implica abarcar, o que os humanos parece que nunca poderão conseguir com o infinito universo de que são ínfima parte. À parte parece estar vedado compreender, abarcar o todo.

Poder-se-á considerar que este entendimento da inteligência corresponde à aceitação de deus imanente, isto é de deus inteligência do universo, pois, sendo a suprema complexidade, englobando a complexidade de todos os seres, incluindo os humanos, corresponder-lhe-á necessariamente a suprema inteligência que tudo compreende geradora da máxima auto-consciência, concepção que se contrapõe-se à de deus transcendente independente do universo, dele criador e nele presente, que e é a das religiões monoteístas.

A ideia de deus imanente não parece aceitável, que isso implicaria o conjunto do universo ser dotado de inteligência distinta da de cada ser e haver nele órgão específico produtor de consciência e inteligência e mecanismos capazes de fazer chegar os seus comandos a cada parte da sua infinitude, que, pelo que se pode inferir do que se observa, não existem.

A ideia de deus transcendente, isto é pré-existente ao universo, dele criador e distinto, responde à necessidade humana, que resulta da capacidade de raciocínio abstracto, de explicar o mundo exterior e consequentemente o universo. Porque os humanos, sendo ínfima parte dele, são incapazes de o compreender, embora o vão entendendo cada vez mais, em vez de modestamente aceitar essa realidade, tentam explicá-lo figurando a existência de deus como dele criador e aceitando a sua incapacidade de explicar deus.

Os defensores da ideia de deus transcendente argumentam com a necessidade de haver para os humanos regras de conduta por ele ditadas a certos privilegiados para assegurar a harmonia entre eles. Além de não ser racional a ideia de deus privilegiar alguns homens com a sua comunicação, mesmo que indirecta (a melhor teologia defende que deus não comunica directamente com os homens), entendendo-se o universo criado por deus, é ele regido pelas melhores leis, bastando por isso aos humanos, para assegurar a harmonia, procurar progredir no conhecimento delas. Por outro lado, tendo deus necessariamente criado o universo com as melhores leis, isso exclui a possibilidade de milagres entendidos como excepção às leis naturais por intervenção de deus, pois não podem deixar de ser as melhores, portanto insusceptíveis de correcção.

A capacidade humana de raciocínio abstracto é a geradora da ideia de deus imanente ou transcendente. O avanço dos humanos no progressivo conhecimento do universo, embora modestíssimo como é e seguramente sempre será, está a levá-los a progressivamente aceitar a sua natural incapacidade para completamente o compreender sem deixar de sempre querer progredir no caminho do seu conhecimento.


 
Outra possibilidade de existência de Deus
Enviado por Alcides Santos, em 01-02-2011 às 17:51:20
No penúltimo paragrafo, o texto não considera a possibilidade de um deus que actua independentemente das leis da Natureza por Ele criadas. Poderá ter criado o Universo com as Leis que o regulam mas permitindo-se actuar acima destas quando quiser. E isso será o fundamento para as preces. É quase como o direito petição. Pede-se a Deus que interceda e dobre um pouco as leis por si criadas. E então, podemos questionar porque razão temos nós que pedir a Deus para que faça algo, se Ele tudo sabe e terá consciência do sofrimento que as Leis implicam. Mas até o pressuposto de que tudo sabe poderá estar errado: Deus poderá ter criado o Universo com as suas Leis, mas desconhecer as consequências da sua obra, ou simplesmente ter mais que fazer, como por exemplo outros Universos para criar. Seja como for, penso que independentemente da resposta, Deus existe para quem necessita da sua existência, ou como dizem alguns orientais, não foi Deus que sonhou o homem mas antes o homem que sonha com Deus.

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