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11 DE FEVEREIRO DE 2011, SEXTA FEIRA
Paulo Fidalgo
Presidenciais, antes e depois...
Nos últimos anos têm sido vários os ensaios para aproximar o centro–esquerda da esquerda no encalço de uma nova resultante política para o país com reflexo no governo. A batalha das últimas presidenciais e o papel que nela ocupou a candidatura de Manuel Alegre, apoiada pela Renovação Comunista, pode inscrever-se nesse difícil e para já mal sucedido processo.
Um tal evolucionismo na vida nacional pode ser argumentado com a necessidade de superar o desdobramento entre a esquerda que governa, o PS, mas que não afronta o status quo em frequente entendimento com a direita, e a esquerda que protesta, o PCP e o BE, mas que desdenha da governabilidade das suas posições.

Leva tal desdobramento ao bloqueio na transformação da energia social em efectiva remodelação política, com frustração e desespero entre as vastas camadas da população laboriosa que não conseguem reflectir na política do governo a marca das suas aspirações levantadas em tantas e tão poderosas lutas.

Os ensaios para tão ambiciosa remodelação nas relações entre a esquerda e o centro-esquerda ouviram já vários tiros de partida, mas as hesitações e oposições que suscitam, tanto no PS como à sua esquerda, acabaram por conter e fazer abortar essas iniciativas.

Mas atenção, o impulso à remodelação não desapareceu apesar da história funesta dos episódios anteriores e, no entanto, a política nacional move-se.

Pode a crise do capitalismo acelerar a evolução da consciência popular, fenómeno por enquanto só verificado fora do continente europeu. Numa ruidosa afirmação, de resto, de realidades por vezes esquecidas no velho continente. Face aos auspiciosos acontecimentos no Norte de África, os dados parecem confirmar que as revoluções continuam a ser recurso para os povos resolverem problemas e que se enganam os que pensavam que os saltos históricos, revolucionários, teriam esgotado o seu papel. E trazem ao de cima as mecânicas típicas da visão leninista da “teoria do elo mais fraco” que desloca o centro revolucionário para regiões mais periféricas em relação ao que se passa no centro capitalista mais desenvolvido. De facto, o Norte de África não parece para já confirmar a ideia renascida em 1989, com a implosão da URSS, de que a História teria voltado ao seu caminho natural de apontar o fulcro da transformação revolucionária para o centro capitalista segundo a visão dos fundadores do marxismo. É porém prematuro, talvez, estar já a fixar tendências quando só agora começam as convulsões resultantes da crise.

A crise pode de facto acelerar a resolução dos bloqueios políticos nas forças de esquerda, em poucos meses ou dias, etapas que de outro modo levariam anos a ser percorridas. Não parece haver porém saída que não passe por resolver o bloqueio que funestamente divide o espectro esquerdo da política nacional. E é por isso que um novo avanço progressista no país implica necessariamente resolver este bloqueio pelo que são de considerar novas tentativas e novos caminhos para o conseguir, necessariamente.

O que levou Manuel Alegre à derrota e a um resultado bem aquém das ambições suas e dos seus principais apoiantes? Não foi certamente a falta de empenho e de brilho do candidato, podendo dizer-se com toda a propriedade que o candidato foi magnífico, empenhado, e deu a cara por mais, muito mais do que seria de exigir aos defensores de tão difícil causa. Para Manuel Alegre vai o nosso mais estridente aplauso, pois só com gente desta têmpera se poderá alguma vez chegar lá.

Estruturalmente, o que fragilizou a posição de Manuel Alegre não foi o ter apostado na reconstrução política entre a esquerda e o centro esquerda e o ter colocado no mesmo carril o PS e o BE e tantos independentes e gente da esquerda inorgânica. O que o fragilizou foi que a essa colagem de gente e tendências, não correspondesse pelo contrário uma ideia mínima, a uma possibilidade, mesmo ténue possibilidade que fosse, de alguma vez uma tal aritmética desaguar em novas resultantes políticas para o governo do país.

É bom lembrar que enquanto a esquerda e o centro-esquerda preparavam pela primeira vez em conjunto uma campanha eleitoral, os dados do confronto no parlamento entre apoiantes e opositores ao governo do PS eram por demais de esfacelo e de total impossibilidade de entendimento, sem sensibilidade para sequer permitir uma certa trégua susceptível de melhorar as possibilidades eleitorais do candidato.

Não compreenderam, o país e os trabalhadores, como um tão frágil e inverosímil entendimento nas presidenciais poderia alguma vez redundar em activos para alavancarem uma viragem no país.

E a base desta primordial incredulidade está obviamente na imaturidade do que poderão ser as políticas para um programa de governo alternativo, onde fique bem expresso um novo tipo de compromisso social entre trabalhadores e camadas intermédias, e fique igualmente bem expresso o modelo ou modelos para relançar a prosperidade económica.

E não podemos esquecê-lo, deverá a nova resultante politica reorganizar as alianças internacionais no espaço europeu e fora dele para ajudar a mudar a correlação de forças contra a hegemonia conservadora das instituições internacionais.

A falta de compromisso programático até nem é assim tão grande se nos lembrarmos de eventos como as discussões da Aula Magna, as diversas propostas para combater a crise que vêm surgindo com base partidária e a própria contribuição da Renovação Comunista com as suas linhas programáticas (ver aqui).

O que falta sobretudo é transmitir a ideia, com credibilidade, de que à esquerda há quem esteja disposto a assumir as dores e terríveis responsabilidades da governação desde que os pertinentes eixos programáticos de transformação sejam acordados.

Mas se o balanço das presidenciais é de derrota para Manuel Alegre e, no nosso caso, de derrota para os ensejos da Renovação Comunista, realçam-se ainda assim resultados a valorizar devidamente.

Por um lado, a campanha de Manuel Alegre ajudou sem dúvida a que o score do candidato da direita ficasse muito aquém do que eram as suas projecções iniciais, o que vem dificultar sem dúvida uma operação de blitzkrieg para o derrube do governo logo a seguir à posse do Presidente da República na perspectiva da rápida reversão eleitoral da presente maioria parlamentar de esquerda e de centro-esquerda.

Por outro lado, é de relevar que, em condições deveras difíceis, o candidato Manuel Alegre reuniu o apoio de quase 800000 votos a partir precisamente da esquerda e do centro-esquerda, numa convergência de vontades que afinal detém imensas possibilidades de ancorar a reconfiguração política no país.

É de tal ordem ameaçador este resultado para um certo status quo que a noite eleitoral dos comentadores viu aparecerem aos magotes os coveiros da experiência Manuel Alegre, não fosse este embrião de algo de novo desatar a crescer e a singrar. O que é igualmente curioso é que no seio dos partidos à esquerda do PS, a derrota relativa do sentimento reconfigurador deu lugar a uma autêntica deriva de ataques àqueles que se tinham entendido na frente presidencial, deitando nomeadamente mão do bluff das moções de censura que esconjuram a mancha do entendimento anterior e repõem a dança do velho cisma da esquerda.

Ao colocar no palco mediático a questão da censura ao governo, há uma esquerda que não está minimamente a cuidar de fazer ganhar no país a consciência da necessidade de uma nova alternativa. Está apenas a tentar mostrar que, para quem tivesse dúvidas, a esquerda, as esquerdas, são os campeões do protesto, porventura mais o BE do que o PCP ou mais o PCP do que o BE.

A doença censória da esquerda é a forma de esconder a questão bem mais difícil e arriscadíssima da alternativa. O bluff das moções da esquerda só pode de facto ser compreendido como bluff pois confiamos que, em caso algum, qualquer das formações da esquerda não contribuirá nunca para que a direita volte ao poder, desta vez com a presidência do seu lado.

Em todo o caso, para se mostrarem campeões do protesto e da esconjura das contaminações em que a candidatura de Manuel Alegre procurou realmente mexer no velho estado de coisas, a esquerda que censura consegue ainda um outro resultado trágico para os anseios dos trabalhadores: está a permitir reforçar a direita no interior do PS e a serem esmagados todos os herdeiros da frágil convivência ensaiada nas presidenciais entre esquerda e centro-esquerda.

Os desvios e reacções ao insucesso das presidenciais não vão conseguir evitar aquilo que é uma necessidade objectiva do processo português: construir uma nova solução política a partir do potencial social e eleitoral do centro-esquerda e da esquerda. Não são estas manifestações de doença infantil que alteram a força dos tempos e que impõem novas soluções, novas pontes e novos entendimentos, com partidos mas também fora deles, em torno de contradições chave do binómio capital-trabalho, mas igualmente em muitos outros domínios das aspirações e contradições da nossa sociedade. Nesse futuro que a crise torna urgente, quem está em melhor condição de ocupar um lugar construtivo é quem entende a necessidade de um novo compromisso na vida nacional. Na esteira e exemplo do que foi o enorme esforço e contribuição de Manuel Alegre. Neste sentido, os tais 800000 votos ainda poderão valer muito, apesar de todas as pedradas desferidas de vários quadrantes.


 

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