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26 DE MARÇO DE 2011, SÁBADO
Paulo Fidalgo
Governar à Esquerda é o caminho
Deitar abaixo o governo do PS só faz sentido quando a batalha mostra razoáveis hipóteses de proporcionar avanços e crescimento de uma perspectiva de governação à esquerda. É pelo contrário manobra arriscadíssima, mesmo que haja quem tenha o cálculo de crescimento eleitoral a curto prazo, quando afinal se pode estar a ajudar o regresso da direita ao poder.
A questão do momento resume-se a ganhar posições para influenciar mudanças na orientação europeia e, no plano nacional, a suster a austeridade que reitera as posições do capitalismo. É por demais uma utopia querer como querem os capitalistas, uma austeridade para reforçar as posições do capital, o mesmo agente que desencadeou e vai perpetuando a crise. Uma austeridade com forte atenção às questões sociais, seria por si uma estratégia com algum alcance, sem saída verdadeira porém, se não estiver acoplada a um evolucionismo de pendor socialista, apontada a criar mecanismos de retoma da expansão económica, onde pontifique um novo compromisso social na partilha da riqueza, e onde se desenvolvam mecanismos públicos de financiamento capazes de mobilizar as energias criativas dos trabalhadores.

O problema não é rejeitar apenas este ou outros PECs, não pode ser deitar abaixo este governo, e descurar-se ao mesmo tempo as condições políticas necessárias à superação da crise. A direita percebeu agora num curto de espaço de tempo que tinha argumentos para chegar lá, para arrebatar as desorientações e o pânico das classes intermédias.

O problema principal é o de construir o programa da esquerda para a mudança e construir soluções políticas que façam aumentar o peso dos interesses dos trabalhadores nas escolhas e desenhem uma solução governativa.

Ao deitar abaixo um governo atolado nas contradições da crise das dívidas soberanas, minoritário e forçado a constante negociação, a esquerda defendeu é certo os seus puríssimos princípios de intransigência política, o que no fundo quer dizer nenhuma capacidade de negociação nem foco em medidas concretas que aliviem imediatamente as angústias do povo, mas acabou por criar uma oportunidade soberana para a direita mais radical, com o seu vasto programa liberal para arrebatar o poder.

É claro que o governo de Sócrates não esteve isento de vastas culpas no cartório na forma como conduziu o processo e se conduziu para o isolamento e a intransigência à sua maneira. Tanto quanto se sabe, nem um telefonema houve, nem uma pequena conversa exploratória aconteceu para discutir tão-só que fosse se era este o momento para o chumbo do governo ou se porventura se poderia gizar uma outra solução que desse à esquerda e ao PS uma outra margem de manobra.

Essas são todavia características politicas atávicas na actual direcção do PS, de quem tem a sobranceria do poder e gosta de ir ao encontro das teses europeístas que pululam nas alcatifas agradáveis de Bruxelas.

A direita surge nesta contenda como único pólo com aparentes condições para tomar conta do poder, na medida em que reúne apoios aritméticos não desprezíveis e conta com uma pequena burguesia cansada e assustada pela iminência de bancarrota. Ao programa da direita, de castigar o espaço económico do Estado com despedimentos – foram 70000 os funcionários públicos despedidos na Irlanda para citar um exemplo próximo de nós – e de proceder a vastas privatizações que reduzam o espaço económico do Estado criado pelo esforço de gerações e gerações de portugueses. A ideia do capital é simples, procura cortar na despesa pública e aumentar as oportunidades de negócio privadas. A este programa radical conservador, a esquerda ainda não consegue mostrar como pode o país empreender uma rectificação geral a favor de um vasto compromisso social entre trabalhadores e classes intermédias. Qual é então o sentido de oferecer esta possibilidade ao campo da direita, dar-lhe a possibilidade de ir para a batalha com importantes trunfos e a esquerda estar em desvantagem táctica e correr o risco de saírem todos derrotados, o centro-esquerda e a esquerda, por ainda não terem reunido e organizado forças para a mudança. Não há explicação lógica para ter permitido que a direita tivesse imposto o seu aproveitamento da situação.

Embora difícil a situação agora criada, não podemos deixar de nos bater por uma saída pela esquerda. E é com confiança que insistimos que, no fim da crise, ou como condição do seu fim, existem possibilidades das forças populares ganharem posições quer no plano dos órgãos do Estado como no plano da remodelação económica.

Se é certo que são crescentes as desconformidades com a representação política, com o fenómeno das manifestações de jovens vítimas do terror económico do capitalismo, se é visível a inquietação por a esquerda não intervir com sentido de governo na presente conjuntura e tantas vezes escolher o centro-esquerda como alvo principal da sua acção de protesto e se é visível o descontentamento da base socialista com o comportamento autista da sua direcção, não quer isso dizer que tais deslocações de voto sejam necessariamente capturadas pela direita. Pelo contrário, o vazio de representação politica que se detecta pode ser uma arma para a remodelação de forças à esquerda que resulte em maior capacidade de gerar saídas credíveis ao nível da governação e coloquem maior pressão para uma viragem à esquerda e para um compromisso com a esquerda por parte do PS.

Os objectivos a partir de agora não podem deixar de ser os de colocar um travão aos planos da direita de hegemonizar o governo, de forçar o PS a uma rendição do tipo bloco central e dar mais força à esquerda. Dar mais força à esquerda implica igualmente derrotar o verbalismo do protesto sem alternativas viáveis, isolar o esquerdismo hoje imperante nas suas organizações que preferem o conforto do oposicionismo verbalista à luta em prol de objectivos concretos de dar sentido social à batalha económica e à geração de uma politica de superação da crise e, sobretudo que não confunda os alvos amalgamando o PS oficial com a direita do grande capital. Defender o espaço económico do Estado reformando-o, caminhar para um novo compromisso social que mobilize os trabalhadores para a partilha justa da riqueza, criar um pólo público de financiamento para a promoção do emprego e a remodelação económica, são os eixos fundamentais onde pode ser fixado um conjunto de forças sócias capaz de alcançar a hegemonia.


Documentos
 
A Esquerda numa encruzilhada ou como passar entre os pingos da chuva
Enviado por A. Estanqueiro Guarda, em 07-04-2011 às 01:01:22
As opções que se colocam hoje ao nivel da esquerda, levam-nos sempre a oscilar entre a rendição à pressão económica da direita, ou a tentar descortinar um caminho que entre a diminuição de direitos e a erosão dos adquiridos - SNS, prestações sociais e educação, permita manter uma pressão contra as desigualdades gritantes na sociedade portuguesa.
Quando a oposição derruba o governo PS, ficamos com a impressão que há um erro de cálculo da esquerda, que favorece a ascensão ao poder da direita pura e dura. Não era fácil a posição da esquerda em relação ao PEC, mas não vi qualquer motivo para regozijo pela seu chumbo e abertura para novas eleições. Embora nem sempre seja evidente, as politicas públicas desenvolvidas pelos governos PS são globalmente diferentes das propostas pelo PSD. Neste dia de recurso à ajuda externa, vamos esperar que se consigam vislumbrar propostas de esquerda mais abrangentes e não a negação da realidade.
A globalização alterou tudo.
Enviado por PAULO SILVEIRA, em 28-03-2011 às 19:27:47
Estou completamente de acordo com o primeiro parágrafo (e globalmente com os restantes) deste artigo.
Em minha opinião a esquerda, um pouco por todo o mundo e na Europa em particular, não soube adaptar-se ao fim da guerra fria, O que permitiu o rápido e desregulado avanço da globalização sob a batuta americana.
Para o grande capital, com a possibilidade de deslocalização das empresas, deixou de fazer sentido pagar o estado social na Europa pois podem sempre ir para a China, índia, ou afins, onde a escravatura é quase total e a mão de obra quase grátis.
Faltam gabinetes de estudos, no movimento sindical, cooperativo e social, que definam caminhos alternativos a esta política.
Há diferenças!
Enviado por Paulo Fidalgo, em 28-03-2011 às 17:12:02
Creio que é relativamente nítido que há diferenças entre o PSD e o PS. O PEC do PSD, brevemente enunciado num número anterior da VISÃO, mostra como a direita pretende ir bem longa na consigna de reduzir o peso do Estado como arma para cortar a despesa e proporcionar mais espaço de negócio ao capitalismo privado. Ficam assim comprometidos o SNS e a Escola Pública e tb a Segurança Social pública. O PS tem sido mais limitado nesse caminho, mas dada a pressão europeia austeritária, é com isso forçado a cortar nos salários e rendimentos das pessoas para cumprir as metas de Bruxelas. De facto, ou se corta no rendimento das pessoas ou se corta radicalmente nos serviços. O PSD até pode dizer que não tem de cortar nos rendimentos porque vende activos e promove o desemprego. Se despedirem 70 000 na função pública como se fez na Irlanda, até dá para manter o ordenado dos que ainda conservam o emprego.

Creio efectivamente que é um tremendo erro colapsar as diferenças que existem entre a orientação do PS e do PSD. Se as clapsarmos e formos indiferentes à vitória da direita podermos descobrir depois como são importantes essas diferenças, só que então será tarde demais.

Ao sublinhar estas diferenças não quero de forma alguma ser indulgente com o PS ou dar-lhe tréguas no conformismo com as ordens de Bruxelas e a sua falta de capacidade para gerar saídas alternativas. Mas insisto que, para os trabalhadores, há grandes diferenças entre a direita e o PS.
Mesma política?
Enviado por Telmo H. Caria, em 28-03-2011 às 15:02:39
Concordo com a ideia, mas o que tem justificado (no passado com Guterres e actualmente com Socrates) a opção de colaborar com a Direita na convocação de eleições é considerar-se que tanto faz, ser um governo PS ou PSD. Afinal, segundo a vossa opinião a políticas públicas do PS e do PSD não são igualmente de direita?! Existe de facto diferença entre o centro-direita e o centro-esquerda ou estamos apenas a falar de táctica política?

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