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27 DE MARÇO DE 2011, DOMINGO
Cipriano Justo
O 9 de Março de 2011
Com o resultado alcançado em 23 de Janeiro, não há à direita quem dê um passo sem a autorização de Cavaco Silva. Mais do que qualquer outro indicador parcelar, seria o incumprimento do valor do défice das contas públicas observado no final de 2011 que poderia representar o argumento maior para ele considerar que estavam reunidas as condições para dissolver a Assembleia da República e convocar eleições antecipadas.
Porque, em última análise, esse foi o compromisso em nome do qual as medidas de austeridade foram tomadas e no qual ele se envolveu pessoalmente através do seu enviado especial, Eduardo Catroga. Porém, o seu discurso de 9 de Março acabou por antecipar esse cenário. De nada vale fazer de conta que as palavras de Cavaco Silva foram levadas pelo vento. Não foram.

Proferidas em plena Assembleia da República, no dia da tomada de posse do seu segundo mandato, elas representaram, de facto e simbolicamente, a moção de censura que antes a direita não teve condições políticas para apresentar. A partir daquele momento instalou-se a verdadeira crise política. Passou a existir um antes e um depois do 9 de Março. Só assim se compreende o tom desafiador da comunicação do primeiro-ministro ao país no passado dia 14. Nesse dia o primeiro-ministro devolveu à direita a responsabilidade da queda do governo se na Assembleia da República reprovasse as novas medidas de austeridade. E tendo-se verificado esse cenário ao princípio da noite de 23 de Março, Cavaco Silva não tem agora outra alternativa senão dissolver o parlamento, dando seguimento e retirando todas as consequências da sua mensagem. A instalação de um clima de cinismo permanente na relação entre o governo e o Presidente da República é que prejudicaria ainda mais a situação política e social do país.

As aspirações da esquerda parlamentar têm-se limitado a protagonizar o protesto parlamentar, porque até o da rua lhe começa a fugir. Ainda que belicosa, está transformada numa espécie de sopa de abóbora a que lhe falta o pão torrado. Enquanto se mantiver nesse estado a direita agradece, incita e aplaude até que as mãos lhe doam. Por este caminho a esquerda parlamentar só faz de conta que não sabe quando não vai ser poder. É que sem um propósito explícito de que está comprometida com uma solução de governo para o qual dá garantias de contribuir com um programa em que a esquerda e o centro-esquerda se sintam suficientemente confortáveis, a sua base eleitoral de apoio tenderá a decidir-se pelo mal menor que em cada momento tenha condições para governar o país. Há uma economia do mal menor? Há, principalmente nas actuais condições, em que a aversão ao risco é a matriarca de todas as decisões. A alternativa é emergir uma solução partidária disposta a sujar as mãos e a dar a cara pelo que tem de ser feito.


 

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