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06 DE ABRIL DE 2012, SEXTA FEIRA
Cipriano Justo
Inside job
Passa hoje um ano sobre o dia em que José Sócrates tomou a decisão de pedir ajuda financeira à UE/FMI para evitar o default. Sobre os dias que antecederam essa decisão, Cristina Ferreira, jornalista do Público, realizou um importante artigo de investigação, publicado na edição de 1 de Abril daquele jornal, tendo para o efeito reunido um conjunto de testemunhos directos de actores políticos e empresariais envolvidos nesse processo, alguns deles já conhecidos mas descontextualizados, proporcionando uma visão de conjunto particularmente útil para se poder fazer um juízo político mais aproximado do que então se passou.
Entre Outubro de 2010 e 6 de Abril de 2011 sucederam-se uma vertiginosa série de acontecimentos envolvendo directamente banqueiros, empresários, Teixeira dos Santos, Luís Amado, Passos Coelho, o presidente da comissão política distrital do Porto, Marco António Costa, Eduardo Catroga, o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, Cavaco Silva, Jean-Claude Trichet e Ângela Merkel. Faltou ao artigo de Cristina Ferreira a descrição do ambiente que se vivia na Assembleia da República e na rua para se ter um resumo da totalidade da situação que levou à queda do governo na tarde de 23 de Março. De facto, foram eles que tornaram irreversíveis as condições subjectivas, de que a direita se aproveitou e apropriou, para aquele desfecho. A direita manobrava nos bastidores, a esquerda fazia oposição na rua.

A cronologia dos factos é particularmente relevante para se perceber o encadeado de todo o processo que levou à necessidade da assinatura do memorando de entendimento. Até à data da eleição presidencial e à tomada de posse, Cavaco Silva mantém-se distante, não interferindo directamente no curso dos acontecimentos. É no discurso de tomada de posse, a 9 de Março, que lança um violento ataque à política seguida pelo governo, configurando uma verdadeira moção de censura. A partir desse dia a situação política agudiza-se e precipita-se, com a divulgação a 11 de Março das medidas PEC IV e a declaração de Marco António Costa, vice-presidente do PSD e presidente da comissão distrital mais poderosa daquele partido, de que “ou há eleições no país, ou no partido”. No dia seguinte Passos Coelho dá a conhecer que não aprova o PEC IV. Contudo, é Carlos Costa, uma personalidade acima de qualquer suspeita no seio do PSD, quem afirma que “a CE e o BCE (leia-se Ângela Merkel e Jean-Claude Trichet) não queriam que Portugal fizesse um pedido de assistência financeira, igual ao grego e ao irlandês, e estavam empenhados na aprovação do PEC IV”. A 23 de Março toda a oposição converge votando contra o PEC IV, e nessa mesma noite José Sócrates anuncia que tinha apresentado a sua demissão ao Presidente da República. A 4 de Abril, os que até então no país compravam dívida mostram-se indisponíveis para continuar a fazê-lo, obrigando o governo a pedir auxílio às instâncias internacionais dois dias depois. Porém, e para a história, é entre 9 e 23 de Março que os dados foram sendo lançados e se organizam até a direita conseguir o seu objectivo.

Tanto a declaração de guerra de Marco António Costa, como a indisponibilidade de Passos Coelho para viabilizar o PEC IV e o resultado da votação no dia 23 de Março, configuram uma única leitura política daquelas decisões: a direita viu uma oportunidade para conquistar o poder e não quis deixá-la escapar, fosse qual fosse o preço que tivesse de pagar, mesmo tendo de gerir as medidas impostas no memorando de entendimento. É, por isso, de uma inusitada cobardia política andar a esconder-se sistematicamente atrás de José Sócrates sempre que tem elevar o PEC IV ao quadrado. Ela sabia o que a esperava. Já se percebeu, e ainda não leva um ano de governação, que PSD e CDS se coligaram para desfigurar e deixar irreconhecível o tecido social português. No final do seu mandato, tenha ele a duração que tiver, Portugal será uma caricatura do que já foi. Quanto à esquerda parlamentar, desunida e sem estratégia, tudo leva a crer que não tirou as necessárias lições daquele período. Veremos o que irá fazer no ciclo eleitoral que se inicia em 2013.


 

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