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10 DE MAIO DE 2012, QUINTA FEIRA
Carlos Brito
Nada Está Escrito
Aí está o poeta a dizer presente, com a sua dorida reflexão e a expressão inimitável, que interpreta como poucas a angústia que invade os portugueses nos dias que correm.
Foi esta a impressão geral que recolhi da leitura de «NADA ESTÁ ESCRITO» de Manuel Alegre.
O livro foi apresentado no dia 20 Abril, em Lisboa, numa propositada identificação com o 38º aniversário da Revolução dos Cravos.
Nada mais apropriado, pois tal como aconteceu com outros livros de Manuel Alegre também este está impressionantemente sintonizado com os sentimentos de desamparo e de legítima revolta que percorrem o país.
Logo nos primeiros versos do primeiro poema, o poeta observa:

Irmãos humanos tão desamparados
a luz que nos guiava já não guia
somos pessoas – dizeis – e não mercados
este por certo não é tempo de poesia
gostaria de vos dar outros recados
com pão e vinho e menos mais- valia.


Não é só o desamparo, é também um sentimento de orfandade, que Alegre assinala, com rara mestria, no poema intitulado ESTRADAS ERMAS JUNTO AO MAR, que começa assim:

Pouco a pouco eles partiram
sonhavam outros mundos dentro
deste mundo. Levaram suas palavras
carregadas de bandeiras a esvoaçar.


Mais do que tudo, talvez o sentimento de incerteza que os processos nacional e mundial provocam actualmente mesmo nos espíritos mais lúcidos.
A incerteza percorre todo o livro e é assumida no próprio título: «NADA ESTÁ ESCRITO». É contudo traduzida com especial acutilância em alguns versos, como estes:

Quem sabe o que pode acontecer
quando ao verso escrito outro se junta
e tudo está no verso por escrever
e o que se escreve é só uma pergunta.


Sem deixar esta toada interrogativa, ao longo dos sete conjuntos de poemas que constituem o livro, Alegre retoma alguns diálogos que lhe são caros e tão característicos da sua poesia.
O diálogo com classicismo e os seus heróis, com a história de Portugal e os seus vultos, com o processo revolucionário e as suas figuras, com a cidade de Lisboa e as suas ruas.
Anoto ainda que neste livro também assoma o guerrilheiro com «uma espingarda carregada de poemas», que vem desde a «PRAÇA DA CANÇÂO», estes anos todos, para dizer «Não!» aos mercados, às suas fatais engenharias financeiras e às suas conspirações contra a democracia. Ao terminar o livro, Alegre anuncia, com esperança:

Por mais que o mundo nos oprima e nos esprema
há sempre um poema que nos salva
país é onde fica esse poema.


(«NADA ESTÁ ESCRITO», editado pelas Publicações D. Quixote, está à venda nas livrarias.)


 
Carlos Brito e Manuel Alegre
Enviado por Nelson de Matos, em 15-05-2012 às 16:29:19
Análise muito interessante a de Carlos Brito sobre os poemas de Manuel Alegre publicados no seu livro mais recente.
Um verdadeiro convite à leitura.
Alegre regressa à poesia de intervenção dando resposta ao mundo actual, como aliás também afirma Carlos Brito: "Alegre retoma alguns diálogos que lhe são caros e tão característicos da sua poesia."
NM

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