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17 DE JULHO DE 2012, TERÇA FEIRA
Carlos Brito
As san√ß√Ķes de h√° dez anos
Foi h√° 10 anos - a 19 de Julho de 2002 - que o Secretariado Nacional do PCP recorreu √† arma administrativa das ¬ęsan√ß√Ķes disciplinares¬Ľ para tentar calar o debate pol√≠tico e a vontade de renova√ß√£o que estava ganhar for√ßa nas fileiras partid√°rias.
Seguindo a velha tradi√ß√£o de todas as repress√Ķes, a direc√ß√£o do PCP discriminou tr√™s destacados dirigentes - Carlos Lu√≠s Figueira, Edgar Correia e Carlos Brito - a quem puniu duramente, os dois primeiros com a expuls√£o do partido e o terceiro com a suspens√£o das actividades partid√°rias por um per√≠odo de 10 meses. Estas san√ß√Ķes p√ļblicas foram acompanhadas de muitas outras feitas em surdina atrav√©s da n√£o atribui√ß√£o de cart√£o, recusa de quotas, n√£o convoca√ß√£o para reuni√Ķes.

O objectivo era a intimidação de todos os contestatários renovadores, mas o que aconteceu foi o recrudescimento da contestação numa primeira fase, seguida do abandono do partido por parte de centenas de militantes, quando se convenceram que o debate político estava proibido no PCP.

Como primeira reac√ß√£o, os tr√™s sancionados tornaram p√ļblico um comunicado conjunto em que qualificaram as san√ß√Ķes como ¬ęinaceit√°veis, aberrantes, ileg√≠timas e injustas¬Ľ e anunciaram que continuariam a lutar pela renova√ß√£o do partido. Este prop√≥sito encontrou um largo apoio entre os comunistas que se traduziu em ac√ß√Ķes de protesto e afirma√ß√£o que conduziram √† constitui√ß√£o da Renova√ß√£o Comunistas, como organiza√ß√£o de comunistas diferenciada do PCP.

Passados 10 anos, acho que a vida tem dado raz√£o aos renovadores. Aponto dois exemplos esclarecedores.

O primeiro. A nossa principal crítica à linha política partidária visava o profundo sectarismo que tinha mergulhado o partido na estagnação, impedindo-o de crescer, nomeadamente no domínio eleitoral.

Passaram 10 anos e a estagnação continua, ou até se agrava.

O PCP (na sua tradicional coliga√ß√£o eleitoral CDU) nunca mais foi capaz de ultrapassar a fasquia dos 8 por cento nas v√°rias elei√ß√Ķes legislativas realizadas ao longo deste per√≠odo, fossem antecipadas ou n√£o, estivesse o PS ou a direita no poder. Antes das san√ß√Ķes o PCP (CDU) ainda conseguia aproximar-se da fasquia dos 9 por cento. D√° que pensar!

Julgo que os resultados das legislativas, para mais num per√≠odo t√£o dilatado e em condi√ß√Ķes diversas, s√£o um irrecus√°vel crit√©rio muito objectivo para avaliar a influ√™ncia partid√°ria.

O segundo. A principal crítica que nos era feita pelos adversários da renovação do partido era a de que estávamos imbuídos ideias da social-democracia, que queríamos socialdemocratizar o partido e até que, pura e simplesmente, nos queríamos passar para o PS.

Passaram 10 anos e o grosso dos militantes do movimento de contesta√ß√£o renovadora de 2000-2002 mant√©m-se coerentemente comunista. Uma grande parte constituiu a Associa√ß√£o Pol√≠tica ¬ęRenova√ß√£o Comunista¬Ľ, outros mant√©m-se comunistas independentes, alguns aderiram ao Bloco de Esquerda.

Esta coerência mantida ao longo de 10 anos, constitui também um critério objectivo para se avaliar a natureza comunista dos nossos propósitos.

Mas há e já havia então um claro pensamento renovador diferenciado da linha política que vigorava e continua a vigorar no PCP.

Ao constituir-se como movimento organizado em Março de 2003, a Renovação Comunista (RC) assumiu de forma rigorosa essa diferenciação política e ideológica na plataforma do seu Manifesto fundador, a que chamámos os pontos básicos do pensamento renovador. São os seguintes:

1¬ļ- O regresso a Marx, como forma de rejei√ß√£o do marxismo-leninismo, que n√£o de Lenine;
2¬ļ - O distanciamento fortemente cr√≠tico das fracassadas experi√™ncias sovi√©tica e do auto-apelidado ¬ęsocialismo real¬Ľ.
3¬ļ - A exalta√ß√£o do ideal comunista e a necessidade de recuperar a sua for√ßa de atrac√ß√£o.
4¬ļ - A considera√ß√£o do primado da democracia pol√≠tica e dos direitos, liberdades e garantias dos cidad√£os como principio essencial na ac√ß√£o dos comunistas e na sociedade socialista.
5¬ļ - A valoriza√ß√£o dos trabalhadores e do trabalho como fonte de toda a riqueza e principais intervenientes na transforma√ß√£o da sociedade.
6¬ļ - A defesa de um processo de di√°logo e converg√™ncia das for√ßas de esquerda e a persistente procura de acordos concretos, ainda que em √°reas limitadas, mas tamb√©m nas quest√Ķes da alternativa e do poder.
7¬ļ - Tratamento das quest√Ķes da integra√ß√£o europeia na perspectiva do internacionalismo marxista.
8¬ļ - A recusa do chamado centralismo-democr√°tico como regra de funcionamento interno do partido e a sua substitui√ß√£o pelo m√©todo democr√°tico, puro e simples.

Ao longo dos seus 9 anos de exist√™ncia, a RC tem seguido e desenvolvido, no plano pr√°tico e te√≥rico, estas linhas b√°sicas de um coerente projecto alternativo. Recusou at√© hoje a tenta√ß√£o de se transformar em partido, antes tem trabalhado, sem excluir ningu√©m, para incentivar a aproxima√ß√£o, o di√°logo, a converg√™ncia e a unidade das for√ßas de esquerda como principal esteio do regime democr√°tico, barreira fundamental para travar a presente pol√≠tica de austeridade que est√° a matar o pa√≠s, condi√ß√£o maior para viabiliza√ß√£o de uma alternativa de poder, via principal para que sejam poss√≠veis novas transforma√ß√Ķes progressistas da nossa sociedade, a caminho do socialismo.

A terminar esta breve memória, faço questão prestar homenagem e lembrar com muita saudade dois dos principais militantes do movimento constestatário-renovador de 2000-2002, prematuramente desaparecidos.

João Amaral, que até foi o primeiro dos sancionados ao ter sido excluído, pela direcção do PCP, da lista de candidatos da CDU às legislativas de 2002. Foi o principal redactor do Manifesto da Renovação Comunista. Faleceu em Janeiro de 2003.
Edgar Coreia, o mais destacado dos fundadores da Renovação Comunista, também redactor do Manifesto. Faleceu em Abril de 2005.


 
√Č de lamentar
Enviado por José Gonçalves Cravinho, em 27-12-2012 às 20:54:43
Eu,um simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velhote (88anos)digo simplesmente que é de lamentar a desunião da Esquerda e especialmente dos que se proclamam como comunistas.Eu,no meu fraco entender de simples operário,penso que até há divergências originadas por conflitos de carácter pessoal.No que respeita ao colapso da URSS,eu penso que isso se deve à PULHICE HUMANA que deu azo à corrupção,ao abandalhamento do Ideal que pretendia uma Comunidade Socialista sem a exploração do Homem pelo Homem.Mas a PULHICE HUMANA é ilimitada.

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