Comunistas.infoComunistas.infoComunistas.info
QUEM SOMOS
ACTUALIDADE
-
06 DE DEZEMBRO DE 2013, SEXTA FEIRA
Paulo Fidalgo
O Programa Necessário (gravura: Relatório de Dimitrov ao 7º Congresso da Internacional Comunista em 1935 onde foi estabelecida a política de unidade)
A luta social não pára por causa das festas – empobrecidas - que se avizinham. O drama dos operários dos Estaleiros de Viana e dos trabalhadores dos CTTs, indigna o país. Com eles aprende-se hoje, porventura mais depressa, o quanto importa conquistar uma mudança política que reponha a esperança.
Só os bloqueios no espaço político do centro-esquerda e da esquerda explicam porque é que tanta luta popular ainda não surtiu na queda do governo. Sem um esboço de solução abrangente poderá o governo ir-se safando, fruto dos suportes de vida a que está ligado, vindos tanto lá de fora como do palácio de Belém.

Os marxistas sabem que o bloqueio político à esquerda radica na diferenciação de interesses entre a classe média e a classe trabalhadora. É por isso que é enganador discutir o problema como estando situado, apenas, nos vícios de personalidade das lideranças e nos supostos arcaísmos dos partidos tradicionais.

Sectores da classe média demarcam-se do extremismo liberal mas não desejam outra coisa que não seja uma reestruturação dos seus partidos tradicionais, PS e PSD, já que o CDS poderá tornar-se irrelevante. Se possível fosse refazer o baile do bloco central, ainda que arriscando as dores de eleições, seria possível atenuar a austeridade e voltar aos bons velhos tempos, é o que parecem acreditar estes sectores. Não serão ainda assim fáceis as coisas porque o extremismo do capital financeirizado afrontou de tal modo a classe média e a pequena-burguesia que forçou o PS, o seu principal representante político, a recusar por agora esse cântico. O que de resto o vem tornando o alvo de ferroadas e punhaladas de comentadores e personalidades destes sectores em coro com os publicistas do governo.

Os defensores do bloco central pretendem mais estímulo económico para os seus negócios, em contra-ponto à pura austeridade, mas não recusam o emagrecimento do chamado Estado social. E encontram mesmo virtude no recuo da economia pública assim como na guerra de classe contra os trabalhadores que está sendo conduzida, na esperança de colher daí benefício.

Para os trabalhadores é muito importante compreender os contornos da operação de reconstituição de um bloco central que pode estar a ser montada. A ideia pode ser substituir lideranças para amaciar as diferenças entre o PSD e o PS, mesmo que usando uma campanha de linguagem porventura bem radical contra os atuais líderes acusados de incompetência (incompetência, diga-se, em reaproximar a classe média da política do capital financeirizado).

Para a grande maioria da classe média mais fustigada pela crise, o sentido das suas aspirações orienta-se para renegociar as condições dos credores, romper com o austeritarismo e conservar o perímetro do chamado Estado social em convergência objectiva com os interesses dos trabalhadores. Estes sectores parecem compreender melhor o papel da economia pública, mesmo para os seus interesses económicos imediatos, com posições crescentes contra as privatizações, em concreto da Caixa Geral de Depósitos e os CTTs, por exemplo. Politicamente, temem um avanço da classe trabalhadora mas gostariam de obter a sua anuência para poder formar um governo de maioria absoluta.

Ora, é neste quadro que importa avaliar quais as condições que poderiam servir de base a um vasto compromisso social e político capaz de satisfazer os interesses das partes e dar conforto aos temores que as assombram.

Para os trabalhadores mais combativos que se situam à esquerda do partido socialista, faz falta uma linha política compreensível para conjurar no imediato o perigo que a continuação da política do capital financeirizado comporta. Nem o PCP nem o BE estão nesta altura a defender um quadro mínimo político em que uma alternativa poderia ser aceite ou poderia singrar e isso é sem dúvida a questão mais problemática da política portuguesa na presente etapa.

Por não responderem minimamente à questão do tipo de alternativa porque se batem e como nela equacionam o lugar do Partido Socialista, PCP e BE frustram a aspiração a um entendimento abrangente entre importantes sectores de trabalhadores e da classe média. Com isso gera-se um vácuo que aumenta a abstenção e retira energia à luta social. É, talvez, por ter a política horror ao vácuo à esquerda que se notam nos últimos 3 anos tentativas de remodelar o quadro partidário. Esses movimentos não deram por enquanto mostras de abraçarem um programa político consistente e não é ainda claro, sequer, se procuram um projeto de reconstrução política de fôlego e de longo prazo que supere a mera lógica de pequeno grupo.

A Renovação Comunista, nasceu também como Associação Política para responder concretamente à questão conceptual de como construir um compromisso social e político abrangente que possibilite remodelar a economia. Sem ir mais longe, a questão mais imediata é a de relançar uma política que respeite o que são os imperativos e os valores constitucionais. Nesse desígnio, a Renovação Comunista tem discutido os contornos do que poderia ser um programa de transição económica e como, nesse exigente projeto, é importante a esquerda ser força que aspira à governação e se bate por alcançar compromissos com a principal força do centro-esquerda, o Partido Socialista concretamente.

Para resolver o impasse que está a fazer retardar a solução política em Portugal, importa assumir três pressupostos:

1) a solução realista, viável, e desejável no imediato, para o conjunto das classes sociais fustigadas pela política do capital financeirizado é de procurar um compromisso entre o centro-esquerda e a esquerda capaz de agregar os interesses comuns e mobilizar uma base social ativa e combativa;

2) na construção de uma convergência tão difícil como esta, os comunistas como parte interessada, dão a máxima prioridade à questão da demissão do governo e à convocação de eleições sem mais condições prévias para se encetar um entendimento e convergência na ação. Isto quer dizer que a questão prioritária é o governo de Portugal. A questão supranacional terá de ser discutida no quadro da solução de governo que vier a ser negociada. A conduta é resolver primeiro Lisboa para resolver depois Berlim.

3) A linha de ação a privilegiar é a de construir a maior base política e partidária possível, sem descriminações, com envolvimento de partidos, movimentos sociais e independentes de todo o espectro do centro-esquerda e da esquerda.

Em termos de plataforma programática a Renovação Comunista vem considerando como questões nucleares para um entendimento entre o Centro-esquerda e a esquerda os seguintes pontos:

1) Alcançar a renegociação da dívida

2) Romper com a austeridade

3) Desenvolver uma orientação de estímulo económico ao crescimento a favor da coesão e o desenvolvimento social

4) Reformar, requalificar e relançar as prestações sociais atribuídas ao Estado Social

5) Adoptar um programa de emergência social para atender às situações de mais grave carência geradas pela política da direita

6) Agir com firmeza no quadro supranacional para alcançar condições mais favoráveis ao financiamento da economia portuguesa, desenvolver esforços diplomáticos e políticos para agregar forças no espaço europeu, incluindo entre Estados e governos, a favor da remodelação económica e política da União, por forma a relançar o desenvolvimento, a coesão social e o bem estar.

Todos os afloramentos para remodelar o espaço político à esquerda do Partido Socialista só poderão surtir se vingar uma política de busca insistente e coerente de convergência com o Partido Socialista.

O que não significa ser-se submisso às suas hesitações e erros, nem abdicar das reclamações específicas dos trabalhadores erguidas de forma autónoma e independente.

Essa atitude não é compatível com o verbalismo dos que à esquerda recusam assumir responsabilidades governativas para gozar do conforto eleitoralista. Implica apostar numa linha de longo prazo, de evolucionismo e reforma, que consiga subtrair o país à lógica do capitalismo financeirizado, necessariamente num quadro de grande interligação supranacional.


 
Esquerda/ união
Enviado por Zé Manel, em 13-12-2013 às 13:15:21
Lamento que se insista em não ver o óbvio. Os lideres das esquerdas nunca se quiseram unificar em torno de nada. Ainda há dias Louçã execrava fortemente qualquer compromisso. A razão é simples, mas nunca admitida. Todos lutam ferozmente pela manutenção do status quo porque são partidos situacionistas e pretendem continuar a viver na mama dos subsídios estatais. É isto que tem de ser denunciado sem hesitações. É por isso que eles sabotam contínuamente as lutas populares e vão continuar a fazê-lo. Vamos continuar a fingir que se pode alterar algo com aqueles que não querem alterar nada??? Já é tempo de acordar e pensar em outras vias.
Não esbanjámos...não pagamos!!!
Zé Manel
Tudo pela convergência, zero por um projeto comunista!
Enviado por João Carvalho, em 09-12-2013 às 12:58:27
Pena que a renovação comunista esteja mais interessada em realizar a convergências da esquerda que a elaboração de um projecto de esquerda internacionalista no espírito do Manifesto Comunista.

Nem uma referência à flagrante desigualdade social em Portugal, a qual se agravou com a crise actual. Nem um referência à promoção da igualdade, objectivo final de um projecto comunista!

Aliás este texto fica ao sabor da última piada do líder parlamentar do PCP nas jornadas eleitorais (Diário de Notícias)... marximo dialético, ou camarada vamos mas é dividir isso...
Sem condições
Enviado por António Marques Pinto, em 08-12-2013 às 22:51:22
Mas então, para constituir o tal "entendimento entre o Centro-esquerda e a esquerda" basta querer ou é preciso que se verifiquem os tais "pressupostos"? E a culpa de não se verificarem os ditos é de quem? Ou o que é preciso é " assumir responsabilidades governativas" a qualquer preço, sem pressupostos nenhuns? Em que ficamos?

O seu comentário
Os campos assinalados com * são de preenchimento obrigatório

Digite em baixo os caracteres desta imagem

Se tiver dificuldade em enviar o seu comentário, ou se preferir, pode enviar para o e-mail newsletter@comunistas.info.