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21 DE ABRIL DE 2013, DOMINGO
Paulo Fidalgo
A luta de classes em Portugal em 2012/ 2013
Peço desculpa por plagiar um título dos clássicos. E, entre os clássicos, nem sequer devemos esquecer a preciosidade de Álvaro Cunhal, “A luta de Classes em Portugal no final da Idade Média”. Parafraseando esse ensaio, podemos dizer que a História do final de 2012 e dos primeiros meses de 2013 “é a história da agudização da luta de classes como tinham afirmado Marx e Engels”.
Um governo em estado crítico

Parece oportuno analisar porque é que um governo com maioria parlamentar, eleito há menos de dois anos, mergulhou em profundo isolamento e se encontra em estado crítico dependente da infusão de aminas vasoativas em unidade de cuidados intensivos. Suportes que lhe são fornecidos pelo próprio Presidente da República, o seu último amparo, fruto da proximidade de parentesco que liga este Presidente a esta maioria e a este governo. E este foi o funesto resultado das dilacerações à esquerda nas últimas presidenciais.

Apesar de ser um governo de maioria, só escapou à sua queda no dia do anúncio da decisão do Tribunal Constitucional pelo suporte in-extremis que lhe foi fornecido pelo Presidente da República. Presidente que lhe deu o apoio embora tenha sido ele um dos que levantou a questão do ilícito constitucional junto do Tribunal Constitucional. E, depois, numa fantástica pirueta para quem está obrigado a fazer cumprir a Constituição, como é o caso do Presidente, vem salvar o governo que se tinha colocado contra essa mesma Constituição.


A história acelera-se

Como foi possível uma tal aceleração do processo histórico nos meses de brasa do final de 2012 e nestes primeiros meses de 2013? O que faz convergir e polarizar forças à direita e, embora com desesperante lentidão, também o faz à esquerda?

Ora, para dezenas de comentadores alinhados com o chamado pensamento único da receita liberal e austeritária, parece incompreensível que um governo maioritário e detentor de tantos apoios internos e externos, esteja afinal a “governar mal”. Esta expressão de “governar mal” deve ser traduzida como incapacidade de levar por diante a sua agenda, que aliás sabemos almejar para além do que a Troika tem pretendido realizar.

A surpresa dos analistas explica-se afinal pela velhíssima luta de classes como motor de transformação histórica, como recordava com pertinência Álvaro Cunhal, referindo-se ao legado de Marx e Engels. Esse legado ensina que a luta política decorre, é certo, numa esfera da democracia representativa, mas acontece também com erupções de democracia participativa dos que estão por baixo. E que abalam afinal os alicerces e os cânones, julgados inamovíveis, dos senhores que passeiam nas alcatifas do poder.


A luta de classes faz evoluir os partidos

A história destes meses não é marcada apenas pela perda de energia e de ânimo político por um governo atolado em contradições. Marca igualmente a evolução dos partidos à esquerda, fruto da mudança de posição das classes que os apoiam.

No caso do PS, a grande força da pequena e média burguesia e que conta com apoios vastos na classe trabalhadora, é de assinalar a sua passagem de um estatuto de co-responsável pela aplicação do programa de resgate para uma crescente oposição. Evolução essa que culminou recentemente na apresentação de uma moção de censura e na recusa em alinhar na canção de sereia com que o primeiro ministro e a própria Troika o quiseram tentar. O PS exprime, com esta evolução, nem mais nem menos do que a radicalização dos sectores intermédios da nossa sociedade que estão a romper com a base social de apoio à orientação do grande capital.

E essa evolução, todos o compreendem, assusta as hostes da direita, perturba os analistas e faz erguerem-se as vozes a exigir ao PSD que dialogue com o PS, que se envolva com o PS, que se ordene ao PS para se juntar aos esforços do ajustamento capitalista. É a gritaria dos que clamam em todos os microfones para que se [re] construa um entendimento entre os partidos do chamado arco da governação. É ver aliás a manobra do CDS, nesta altura o partido com mais sensibilidade para as necessidades tácticas da direita. O CDS usa de todos os expedientes para pressionar o primeiro ministro e o PSD a dialogar com o PS, consciente do significado que tem a passagem do PS para a oposição, como prenúncio de uma derrota iminente para o governo de direita.

Os restantes partidos de esquerda, embora ainda muito entrincheirados acabaram por convergir com o PS na moção de censura. Ora, isso não deixa de constituir um marca positiva, porém longe ainda de anunciar um esboço de solução política de convergência. Também essa relutante evolução, traduz o que se passa na sociedade real onde prevalecem desconfianças mas se afirmam apesar disso convergências materiais entre trabalhadores e entre ativistas do movimento popular mesmo quando as direções partidárias se mantêm em autismo.

É ver as convergências de organizações e grupos nas ações de rua, e é ver os esforços nos concelhos para procurar compromissos com vista às autárquicas. Independentemente do dogmatismo e do sectarismo que infelizmente hoje marcam a orientação dos partidos à esquerda que nem para tomarem uma bica juntos se conseguem entender, a verdade é que o mundo real da política e da sociedade se move como assinalava Galileu.


A rua no centro do furacão

Sem dúvida que se podem contabilizar centenas de ações populares que quase diariamente dão voz à indignação e protesto e estão a transformar a cena política pressionando, corrigindo e superando as insuficiências das elites políticas. É extraordinário o valor político que joga a Grândola do Zeca na mobilização popular nestes dias. Todavia, as ações populares não têm todas, como é natural, o mesmo alcance e impacto na aprendizagem política dos portugueses.

Neste aspecto é de assinalar que a primeira grande derrota deste governo, e da Troika, resultou da vontade de todo um país que, em 15 de Setembro de 2012, se levantou em unanimidade contra a mudança na Taxa Social Única. Ao fazê-lo, o movimento popular, a força de um povo em ação, sinalizou imediatamente várias lições políticas e hipóteses de evolução: a ação popular pode fazer o governo recuar e fazê-lo recuar deveras estrondosamente; a ação popular pode centrar-se num objectivo relativamente defensivo como seja defender o penalty da TSU, mas nada iria ou irá impedir que, no futuro, o mesmo tipo de energia possa ser canalizado para objectivos mais ofensivos. E foi isso que aconteceu a 2 de Março de 2013, quando o país inteiro saiu à rua a exigir a demissão do governo.

É bom recordar aqui um aspecto porventura pouco valorizado nas análises: estes enormes movimentos foram desencadeados em resultado de um iniciativa popular antes, ao lado, e apesar, da relativa espectativa das direções partidárias, mostrando aquilo que um clássico como Lenine sempre assinalou: as massas podem assumir diretamente a ação e corrigir e ultrapassar o atentismo e a cristalização das direções.

A 2 de Março, de facto, o governo ainda sobreviveu.

Porém, ficou sem margem para levar por diante o seu programa de delapidação da riqueza nacional e, com o golpe do verdito constitucional, está agora ligado à máquina na enfermaria de Belém. Também aqui importa recordar algumas ideias da teoria política retiradas da doutrina militar: quando não se consegue prosseguir a ofensiva, quando se paralisa uma ofensiva, pode suceder um período de relativo empate de forças mas, forçosamente, isso vai ter de ser desempatado. Ora, o propósito desta reflexão é precisamente o de sinalizar como é agora importante prosseguir com redobrada energia a luta pela demissão do governo e desempatar a situação. Se o movimento popular o fizer, se o fizer com elevado sentido unitário que tem dado mostras, certamente que se criarão as condições para alcançar a grande vitória a curto prazo.

Sem dúvida que a força de todo um povo paralisou o governo e levou-o ao estado de coma em que se encontra! Sem dúvida que a força do povo fez evoluir a posição do PS em direção positiva. Sem dúvida que a mesma força alcançará uma solução alternativa que resulte da convergência de forças à esquerda, mesmo que alguns do seus dirigentes ainda não compreendam a sua necessidade. E que será a força popular a vencer a conspiração de parte da direita para reconstruir uma solução de bloco central, ou do PS com o CDS, depois de eleições antecipadas.

De facto, por muito que dissessem o contrário os arautos do fim da História, está viva a luta popular em Portugal, mostra enorme energia e acerto político, fruto da rápida aprendizagem das novas gerações de ativistas que estão a despertar para a luta. Mostra a iniciativa popular inclusive mais acerto do que as direções partidárias e volta a mostrar como é insubstituível para alcançar a transformação política.


 
O Povo,é quem ordena!
Enviado por Mário Rebelo, em 22-04-2013 às 00:03:26
Concordo plenamente com a análise que acabei de ler. E há aspetos que são relevantes, é o acordar de um Povo que tem andado adormecido iludidos nos últimos anos por uma melhoria de vida,de poder de compra. Que deu origem a um consumismo desmedido era créditos para carros,férias,casas. Eu próprio fui na onda. Mas tudo não passava de uma ilusão e pura especulação e todos caímos no real. Depois da queda do governo minoritário dom Sócrates a quem todos acusam,incluindo eu,esquecendo os governos PSD/CDS,as maiorias do Cavaco Silva que tinham obrigação de ter feito as tais reformas extruturais que foram sempre adiadas. Então entra em cena a troika e um dos piores governos desde o 25 de Abril,chefiado por esse imcompetente,demagogo ,mentiroso e ultra liberal Passos Coelho que,apresenta um programa eleitoral que nunca cumpriu,mas que sempre afirmou que se fosse primeiro ministro ia mais longe que a toika. Mas inexplicavelmente o sentido de voto dos Portugueses foi de forma a dar a maioria e a aprovação á politica que já era explicita: ataques ao Estado Social,aos Trabalhadores e salvar o setor bancário o capitalismo. Agora como refere o artigo,assiste-se a um novo crescente de contestação a todas estas medidas que não criam trabalho nem riqueza. Só mais miséria e desemprego e quem tem tomado a liderança é a sociedade civil. Principalmente os jovens que não se veem nesta politica,nem veem futuro neste País. Mas também aqueles que andavam acomodados preferiam futebol fado, os únicos incentivos que os faziam sair para a rua acordaram para a realidade receosos com o seu futuro mas principalmente com o dos filhos netos. As próximas gerações! por isso é com satisfação que vejo o Povo a reclamar a impor a sua voz e a sua vontade. Porque é o Povo quem mais ordena,e é o POVO QUE VAI DERROTAR ESTE GOVERNO ULTRA LIBERAL QUE É CEGO NOS CORTES QUE FAZ A MANDO DOS INTERESSES DO GRANDE CAPITAL!

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