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02 DE JULHO DE 2013, TERÇA FEIRA
Cipriano Justo
As portas que o CDS fechou
É um lugar-comum afirmar-se que o modelo social europeu foi construído pela social-democracia e a democracia-cristã. Porém, este lugar-comum, como quase todos os lugares-comuns, é uma simplificação do que realmente aconteceu. Após a vitória dos aliados na II guerra mundial, a reconstrução da Europa foi realizada com os dinheiros do plano Marshall, no valor de treze biliões de dólares, canalizados pelo tesouro norte-americano, entre 1948-52, para os países europeus envolvidos no conflito, tendo como objectivo disputar ao campo socialista as realizações no campo da educação, saúde, emprego e segurança social.
Numa Europa destroçada, socialmente desorganizada e politicamente vulnerável, impunha-se satisfazer as necessidades básicas da população sob pena de esta se voltar para os exemplos do que se estava a passar à sua porta. Mas mais importante do que esta medida preventiva foi a luta dos trabalhadores e das suas organizações sindicais por melhores condições sociais e de vida, que impuseram, de facto, o que actualmente se designa por estado social.

Sabemos o que aconteceu depois de 1990. A social-democracia europeia rendeu-se ao liberalismo, com as consequências que ainda hoje se fazem sentir, e as democracias-cristãs converteram-se ao reagan-tatcherismo. Quando o PSD evolui para PPD (partido popular democrático) e o CDS para PP (partido popular), não se tratou de um capricho inconsequente dos seus dirigentes, representou uma escolha ideológica em sintonia com os sinais dos tempos, quando era suposto que a história tivesse chagado ao fim. Se o inimigo externo tinha soçobrado, nada justificava que se continuasse a alimentar deste lado da fronteira um modelo que representava a sua principal arma de combate ideológico. As dificuldades de respostas políticas à situação económica e social instalada na Europa não são, afinal, mais do que a consequência das derivas ideológicas das formações políticas que se reivindicam do modelo social europeu.

Separar o que esteve confundido nestes últimos vinte anos, quando a livre circulação entre os territórios ideológicos destas famílias políticas era a característica dominante da governação, traduzida no conceito de alternância, é um exercício que exige o abandono do pragmatismo e a recuperação dos valores que justificam as diferenças de interesses presentes na sociedade. Apesar de a moção apresentada ao congresso pelo presidente do CDS ser atravessada por um desejo de se distanciar das suas responsabilidades pela situação que o país vive, de facto ela não é mais do que uma espécie de guião dos interesses financeiros instalados, considerando a necessidade de acautelar as condições de estabilidade do governo até ao Outono de 2015.

Ao aliar-se ao PPD/PSD, o presidente do CDS seguiu e replicou as pisadas do seu parceiro de coligação até as campainhas começarem a retinir no Largo do Caldas, em 15 de Setembro de 2012. Foi nesse dia que a moção que vai apresentar ao congresso começou a ser escrita, não tanto por um rebate de consciência patriótica, mas principalmente por ficar em jogo a sua sobrevivência política no rescaldo do julgamento eleitoral que os portugueses fizerem quando forem chamados para o efeito. E por muito patriótico que se queira apresentar aos olhos dos portugueses no momento de prestar contas intercalares, eles sabem que é da sua natureza representar os interesses daqueles que estão a lucrar com o seu empobrecimento. De tal maneira que entendeu mandar escrever nas estrelas que, por ele, a coligação cumprirá integralmente a legislatura.


 

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