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20 DE JULHO DE 2013, SÁBADO
Serafim Nunes
Cinco anos depois…
Faz por esta altura cinco anos que eclodiu a crise do subprime nos USA que conduziu ao descalabro do sistema financeiro, sobretudo americano e europeu, provocando a mais grave crise depois da Grande Depressão.
Nos meses que se seguiram ao eclodir da crise muitos preconizaram, precipitadamente, como se veio a confirmar, a hecatombe do capitalismo. As manifestações de revolta popular provocadas pela súbita percepção da fragilidade dos bancos, do aventureirismo irresponsável dos banqueiros, do jogo de casino em que algumas das maiores instituições financeiras mundiais tinham transformado a sua actividade, da insegurança das poupanças arrecadadas por vezes com quanto sacrifício, pareciam apontar para um virar de página definitivo no sistema e a emergência de uma nova ordem que parecia estar ali, mesmo ao virar da esquina.

Lembro-me bem do clima de euforia que, apesar da crise, se instalou nos meios progressistas e de esquerda com a proliferação de diagnósticos, análises, comentários, opiniões e teses que não obstante a sua diversidade convergiam no essencial: o sistema estava moribundo, sem retorno, restando fazer-lhe o enterro.

Alguns, mais avisados, ainda lembraram que o capitalismo já tinha historicamente provado ter mais fôlegos que um gato, que já renascera de cinzas bem mais negras, que recolheria as garras para voltar com elas mais afiadas, que tocaria a rebate e reagruparia as suas tropas pondo de lado as suas divergências e que, derrotá-lo, exigia bem mais que uma crise, por grave que fosse. E tinham razão, como hoje se constata.

Volvidos os primeiros meses de surpresa e desorientação, governos, banqueiros, empresários, políticos, analistas, grupos de pressão, media, etc. meteram mãos à obra e, mais cedo do que se esperava, contra-atacaram. E com que eficácia, reconheça-se!

Arrojadamente, puseram os Estados, que tanto execram, a salvar os Bancos, pouco se importando com a aparente contradição ideológica – que aliás não existe; para sacar do Estado estão sempre disponíveis. Ardilosamente, elegeram como seu alvo a Europa e o euro. Ao descalabro do sistema financeiro contrapuseram o descalabro das contas externas e das contas públicas dos países europeus, sobretudo dos da Europa do Sul, ignorando o seu próprio descalabro nesta matéria – refiro-me sobretudo aos USA. Cinicamente, desenvolveram um ataque sem precedentes ao euro, apostando fortemente na desintegração europeia e consequente implosão da moeda e evitando tanto quanto possível os ataques especulativos directos à moeda. Com desfaçatez, atacaram o modelo social europeu, que detestam por razões de natureza ideológica e, sobretudo, porque lhes vem sonegando atractivas oportunidades de negócio – saúde, educação, pensões, etc. E de permeio, como manobras de distracção, lá foram anunciando o reforço das medidas de supervisão, lá mandaram para a cadeia um ou outro banqueiro caído em desgraça, lá foram deixando cair uma ou outra ameaça sobre os paraísos ficais, tudo na justa medida e de acordo com o princípio de que é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma!

O certo é que conseguiram muito rapidamente sair da linha do fogo que os tinha em mira e, mais do que isso, souberam reorientá-la para os seus interesses. E das expressões de incredulidade, indignação e espanto, das exigências de apuramento de responsabilidades e de castigo, das reafirmações de desejo de transformação e mudança, rápida e imperceptivalmente se saltou para a diabolização do Estado, para a execração dos partidos e dos políticos, para a suspeição da democracia, para o estigma dos pobres, excluídos e desempregados (bando de malandros) e, sobretudo, para o esquecimento dos carrascos!

Desse ponto de vista o capitalismo deu, mais uma vez, uma grande lição de estratégia e táctica, sabendo concentrar-se no (para si) essencial, não se perdendo com o (temporariamente) acessório e adiando ajustes de contas internos para tempo mais oportuno. Hipocrisia? Talvez, mas sobretudo instinto de sobrevivência.

Ao olhar para o que se passa no nosso país, sobretudo no campo progressista e de esquerda, pergunto-me por vezes se não deveríamos tirar algumas lições de tudo isto e se o estancamento do sofrimento que vem sendo infligido ao nosso povo não exigiria menos retórica, menos arrogância, menor recriminação, maior concentração no essencial, alguma humildade mesmo…Aprender, mesmo que do inimigo, não é uma heresia!


 

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