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25 DE JULHO DE 2013, QUINTA FEIRA
José Cavalheiro
Eleições autárquicas –Porto um processo exemplar
Enquanto a esquerda não estiver interessada em fechar o puzzle a direita vai continuar a sua politica de demolição do Estado
A chamada esquerda portuguesa , designação atribuída aos dois partidos que constituem com o PS a Oposição, há muitos anos que não cumpre uma função elementar para qualquer partido que disputa os votos para a Assembleia da República, isto é, estar disponível para participar nas tarefas da governação.

Com efeito não é porque tenham falhado conversações ou acordos que os dois referidos partidos nunca assumem as suas responsabilidades para com o respectivo eleitorado; simplesmente essas forças politicas cada vez que há que tomar decisões, como foi o caso de discutir a intervenção da tróica ou de se pronunciar perante o governo de coligação sobre a insólita proposta do presidente da república, colocam-se de imediato de fora. Esta atitude sistemática de fuga exclui os dois partidos de qualquer equação que procure resolver politicamente um problema nacional; são, na verdadeira acepção aritmética, dois zeros à esquerda.

O simples facto de se auto excluírem das soluções governativas constitui para os partidos da direita a garantia de que os votos de protesto de uma parte do eleitorado, que pode chegar aos 20%, não serão entrave para o desenvolvimento das suas políticas. Esta representatividade deficiente, a renuncia a estar presente nos momentos decisivos, constitui na prática um processo de neutralização dos anseios políticos duma franja significativa do eleitorado.

Paradoxalmente a ausência no palco das decisões verdadeiramente relevantes é exibida com superioridade, por vezes com a arrogância moral dos que se julgam superiores, simplesmente porque se furtam ao exercício difícil de compatibilizar as ideias e as teorias com as realidades.

O ataque sem precedentes ao Estado social, aos trabalhadores e à qualidade de vida de uma larga faixa da população, duramente conquistados ao longo de anos, poderia fazer esperar uma alteração desta postura autista por parte dos partidos.

Mas apesar da calamidade que se abateu sobre o país pela mão dum governo que tem como agenda principal transformar as áreas ocupadas pelo Estado em bens traficáveis com lobbies e grupos de pressão, a perspectiva de olhar para os outros partidos como concorrentes na captação do eleitorado manteve-se sem alteração.

As eleições autárquicas num período de grande emergência nacional poderiam ser uma excelente oportunidade para lançar pontes entre os três partidos da oposição, já que as eventuais pequenas divergências em matéria de programas eleitorais autárquicos poderiam facilmente esbatidas se houvesse um mínimo de interesse estratégico na aproximação e convergência política.

No caso particular do Porto a necessidade de congregação de esforços à esquerda era particularmente evidente:
o candidato do PSD identifica-se, e chegou mesmo a ter o apoio explicito do braço direito já amputado do primeiro ministro, o que confere um reforçado valor simbólico à sua derrota;
a direita parte para estas eleições na cidade com uma dupla fractura exposta: uma visível e activa fractura no maior partido , para além duma fractura entre os dois partidos da coligação, que enfrentam uma baixa de popularidade decorrente da sua governação desastrosa e de que resultou uma rejeição popular sem precedentes.

Seria assim possível iniciar um novo ciclo em que os partidos minoritários da oposição deixassem de ser atractores inconsequentes dos votos do eleitorado. Seria possível caminhar para o fim do bloqueio do regime e demonstrar que o entendimento entre estes partidos é possível sem pôr em causa as suas diferenças e identidade própria.

Acresce a tudo isto que o candidato do PS, Manuel Pizarro, muito antes de qualquer indício de abertura da direcção do seu partido, já publicamente vinha defendendo a sua disponibilidade e interesse em participar numa coligação de esquerda.

Apesar deste enquadramento favorável e dos esforços feitos pela RC e por outras organizações como o MIC no sentido de aproximar quer o PCP quer o BE sentando os seus responsáveis locais à mesa pelo menos para um encontro exploratório, a verdade é que tal não foi possível.

O PCP manteve-se sistemática e reiteradamente incontactável, por carta, por telefone ou por entreposta pessoa. O BE adoptou uma linha menos rígida, participando num debate promovido pela RC em Janeiro de 2012, em que já participou Manuel Pizarro, mas a partir daí jogou no adiamento de qualquer contacto com o PS tornando o factor tempo o decisor da situação.

Com efeito, uma proposta aprovada entre os apoiantes do BE que preconizava o interesse do encontro com o PCP e com o PS, demorou mais de 40 dias a originar uma primeira carta enviada ao PS-Porto. Entretanto houve uma reunião com o BE a pedido do PS, em 21 de Março em Lisboa, em que houve um convite expresso da direcção nacional do PS ao BE para formar uma coligação no Porto, ao qual o BE Porto respondeu exactamente 2 meses depois com uma primeira missiva! E assim temos a vida facilitada para a direita, sem que nenhuma razão forte permita justificar a divisão de votos da oposição.

Quando o interesse das populações é facilmente esquecido por partidos que se reivindicam de defender posições progressistas, quando a pequena intriga se sobrepõe a estratégias claras, transparentes e ideologicamente sustentadas, quando o mero interesse duma suposta contabilidade eleitoral ou a lógica dos equilíbrios internos perturba qualquer lucidez estratégica, será altura de perguntar: o título ou o rótulo de “partido de esquerda” é vitalício?

Será que as intenções apregoadas, que na prática são contraditadas pelos actos concretos, serve para atribuir uma designação? Ou, como se costuma dizer, de boas intenções está o inferno cheio, e aquilo que tem de ser valorado é a prática politica efectiva, a acção contra ou a favor dos grandes interesses financeiros e seus agentes?

Será que de forma rigorosa podemos dizer que em Portugal existem dois partidos com representação parlamentar à esquerda do PS? Ou apenas dois pára raios que conduzem para a terra o resultado de uma votação que nunca se salda pela partilha do poder ou do seu condicionamento em cada momento, como só ocorre quando se faz parte de um governo?

Como é possível que a uma intenção de voto que atinja quase 60% não corresponda uma alternativa óbvia para evitar que continuemos com a mesma trajectória de suicídio?

É preciso dizer basta a uma estratégia de isolamento ineficaz e perigosa, e dizer que o rei não vai nú: é apenas uma miragem desbotada , evocada numa homilia que apenas contribui para enfraquecer o combate a um capitalismo financeiro revanchista e duma ganancia sem limites.


 
Eleições autárquicas –Porto um processo exemplar
Enviado por jorge Cortez, em 28-08-2013 às 14:50:34
Acho que depois dos erros da coligação por Lisboa (leia-se desvio de direita do PCP) que só serviram para retirar influência ao PCP na área metropolitana de Lisboa e salvar o Jorge Sampaio de morte politica, irimos voltar a caír na mesma asneira aqui no Porto era uma tragédia para a esquerda e sinal de insanidade.
Caros camaradas,
Há muito que o PS meteu o socialismo na gavete. Durante muitos anos se apelou à "maioria de esquerda" para nada.
O PS está muito longe da esquerda, não tenhamos ilusões!
RC, um contributo para uma prática politica consequente `a esquerda
Enviado por Paulo Jacinto, em 02-08-2013 às 14:46:56
A cidade do Porto governado pela direita é “apenas” a segunda cidade do país. A Renovação Comunista e outros democratas cedo procuraram contribuir para construir uma solução democrática alternativa `a actual gestão municipal a apresentar nas próximas eleições. Neste processo tudo esteve em aberto, programa, listas, etc. PCP e BE recusaram participar numa solução democrática como é descrito no artigo. O aparecimento de duas candidaturas de direita `a câmara municipal no Porto criou uma possibilidade real e única de eleger uma gestão democrática ao serviço da cidade e dos portuenses. A apresentação de listas separadas pela esquerda em nada beneficia a cidade e as suas populações. Este é o dado objectivo.

Ainda que não explicitada foi colocada uma segunda questão no comentário de Nuno Ribeiro.

Tanto quanto sabemos a dimensão de uma organização não constitui um qualquer seguro para o acerto ou o desacerto das suas análises e propostas.

A esquerda aparece nas sondagens com 55% de intenções de votos por parte dos portugueses. BE com 8,2%, PCP com 11,15% e PS com 34,6%. Num momento em que o actual governo investe violentamente contra os trabalhadores e o Estado Social, entendemos que é obrigação das esquerdas, sem renunciarem aos seus valores e princípios, procurarem dialogar e identificar o patamar comum mínimo a partir do qual possam iniciar a construção de uma solução alternativa `a actual governação.

Se alguma coisa ressaltou com estrondo na crise vivida pelo país nos últimos dias foi a inexistência de uma alternativa politica `a actual coligação. Existisse ela e o PR teria seríssimas dificuldades em manter o governo Passos/Portas e em recusar marcar eleições antecipadas que a maioria da população reclamou.
Renovação de quê?
Enviado por Nuno Ribeiro, em 30-07-2013 às 17:17:26
É com tristeza que vejo esta renovação comunista neste triste estado.
Desaparecida durante meses re-começa a enviar newsletters, a reavivar as hostes a dizer/fazer algo.
No entanto aquilo que se nota e que todo o marketing tem só e apenas um intuito, o da candidatura autárquica do ps. Nada mais se pretende com isto a não ser apoiar o pizarro (e logo o pizarro!!).
Talvez a renovação devesse dar um exemplo à esquerda e fechar as portas e as luzes de algo que não existe há muito tempo. São um conjunto pequeno de iluminados que tem o rei na barriga. Que tristeza ter feito parte e perdido tempo com esta pseudo-organização...
O caso do Porto e as desculpas esfarrapadas do costume
Enviado por José Cavalheiro, em 30-07-2013 às 12:32:44
Para o PCP e muitas vezes para o BE o culpado de tudo é o concorrente no "negócio" dos votos, ou seja o PS.Neste caso mais uma vez o culpado foi o PS, pois vejam só, teve a ousadia de indicar o nome do seu candidato, sem esperar pela benzedura dos guardiões morais da esquerda.

Qualquer partido poderia ter anunciado os seus nomes para a Câmara do Porto; nada impedia que esses nomes fossem depois integrados numa lista unitária.

Suponhamos que o PS não indicava nenhum nome e contra toda a evidencia num rebate de consciência democrática o PCP e o BE até se aproximavam em busca de uma solução comum.
Seriam o PCP e o BE a definir o nome do candidato do PS? Seria o PS a definir o nome dos candidatos do PCP? Julgam os militantes do PCP ou do BE que teriam o direito de impor ao partido maioritário o nome do cabeça de lista?

Quando fazem uma critica desenvolvam-na até ao fim!O clubismo politico não anula a realidade; os factos, suportados por documentos são como as repetições televisivas em câmara lenta: as faltas existem independentemente da berraria dos adeptos.
Eleições Autarquicas
Enviado por JOÃO CARLOS COELHO SANTOS, em 29-07-2013 às 23:05:52
Lamento que Maria Rodrigues não tenha lido bem o artigo. Se o tivesse feito, não tentava branquear com inverdades, o comportamento (previsível) dos dois partidos que se rotulam de...esquerda(?!). Se houve interessados o único foi o candidato do PS. De seu a seu dono!
candidatura precoce
Enviado por Maria Rodrigues, em 29-07-2013 às 20:47:04
Pois... O candidato do PS à Câmara do Porto deveria ter pensado nisso antes de ter lançado a sua candidatura.
Poderia ter manifestado interesse em lançar uma candidatura conjunta...mas lançou-se primeiro e veio depois propôr apoios à sua candidatura.
O resultado? Foi determinado pelo processo.
..

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