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Convívio em Alcoutim
18 DE AGOSTO DE 2013, DOMINGO
Portugal precisa de mais influência comunista e marxista!
Intervenção de Paulo Fidalgo no convívio da RC em Alcoutim
No seu tradicional encontro de Verão em Alcoutim, Paulo Fidalgo afirmou:"Nós agimos para a renovação do projecto comunista, reafirmamos e desenvolvemos a nossa visão internacionalista, batemo-nos pela actualização do projecto comunista no sentido da reapropriação laboral dos excedentes e sublinhamos que nunca o socialismo pode ser confundido com a mera estatização e nacionalização. Nós empenhamo-nos na construção de uma teoria marxista, da política e do Estado, onde a liberdade, a democracia, e a participação, sejam contribuição, livre, de cada um, como condição para o desenvolvimento de todos."
Queridos Camaradas.

Vir a Alcoutim é convívio mas serve para refletirmos sobre a situação.

Creio que estamos de acordo que houve na direita quem tentasse salvar o governo à custa, é claro, de uma dança macabra das bruxas para atrair socialistas, com a promessa de eleições daí a um ano.

Camaradas, estaremos de acordo que foi positivo que o PS não se tivesse rendido às bruxas, e não aceitasse os cortes assassinos de 4,7 mil milhões, a mais recessiva operação de guerra de classe contra os trabalhadores até agora desenhada pelos estrategas do capitalismo financeirizado!

A recusa do PS reflete a oposição de setores intermédios e de setores de trabalhadores, à política de empobrecimento, desemprego e destruição do aparelho produtivo que os senhores da finança e das rendas querem impor.

É portanto possível detetar um deslizar para a esquerda de uma ampla base social no nosso país!

Mesmo com conversações armadilhadas, ficou mais claro que a direita fingia promessas de adoçicar o seu programa de aniquilação da economia pública, na ideia de se salvar mas, no fim, foi bem fundamentalista e recusou qualquer compromisso.

E ficou mais claro aos olhos de muitos, por entre as posições em confronto, quais serão as condições que deverão ser adoptadas para uma viragem económica.

Essas condições implicam recusar austeridade, cortes na despesa social do Estado, cortes salariais e despedimentos!

E ficou mais claro, para muita gente, como só uma nova maioria, necessariamente com o centro-esquerda e a esquerda, enfrentará os credores e iniciará a viragem política.

Para nós, camaradas, o processo negocial imposto pelo Presidente da República ao país foi sem dúvida um jogo perigoso contra a legalidade constitucional e teve em vista evitar o avanço para eleições.

O presidente jogou na ideia de que não era ainda clara – e não é –a alternativa para o país, quais as forças capazes de formar governo e que política irão apoiar.

O Presidente jogou no medo que pudesse acontecer uma deterioração brusca da economia pelos jogos do capitalismo financeirizado.

O Presidente, percebemo-lo bem, jogou com as ilusões prevalecentes em vastos setores, de que haveria ainda espaço, e margem, para uma negociação em que a direita prescindisse de alguns dos seus objectivos mais extremistas.

O canto das bruxas nos ecrans de TV e nos editorais dos jornais pressionou até à náusea o PS, mas sem êxito e esse é o ponto marcante e decisivo neste processo em termos de alinhamentos das classes e de evolução da correlação de forças.

A direita não conseguiu os seus objectivos (!),

não aumentou a base de apoio ao governo (!),

não evitará, estamos certos, o crescimento da luta por eleições (!).

Creio que podemos dizer com orgulho que:
a) As dificuldades por que passa o governo são o resultado da valorosa luta popular;

b) A progressiva demarcação do PS em relação à Troika e, sobretudo, em relação à linha governamental para a sua aplicação, são o resultado da valorosa luta popular.

c) E foi a luta popular que permitiu que mais gente viesse à rua, que mais unidade fosse possível, mais unidade entre sindicatos e entre as centrais sindicais, entre organizações sociais e entre socialistas e comunistas. E, camaradas, os avanços da luta popular foram, em momentos dados, mais significativos do que os cálculos das direcções partidárias, reafirmando velhas leis da política revolucionária que sempre sublinharam como, num processo de acelaração histórica, as massas se podem adiantar às direcções;

Creio que podemos igualmente afirmar que a luta popular será decisiva, em articulação com as posições institucionais, para alcançar a derrota deste governo, desencadear eleições e gerar as condições para uma maioria, entre o centro-esquerda e a esquerda, capaz de empreender a viragem da economia.

Camaradas, o PS é, bem o sabemos, uma força heterogénea onde pontifica uma ala direita ligada aos grandes interesses.

Sabemos como setores do PS se deixam tentar com compromissos com o grande capital financeirizado, sabemos como há grandes medos e preconceitos no PS em entendimentos com a esquerda.

Sabemos como existem comportamentos de força hegemónica, que lhe tolhem a capacidade para tornar as próximas eleições autárquicas num momento de crescimento da luta pela demissão do governo e num momento de significativa derrota para as posições da direita.

Até ao momento, a RC apenas fez um compromisso com o PS na cidade do Porto o que é deveras insuficiente para as necessidades que a situação convoca.

Este compromisso materializa, da nossa parte, que:

fazemos apostas em compromissos pré-eleitorais;

que privilegiamos a luta contra as posições da direita;

e estamos empenhados em favorecer uma grande vitória do centro-esquerda e da esquerda a favor das populações.

Estes são os nossos critérios políticos para as eleições autárquicas!

Camaradas, neste processo, nós não subscrevemos as teses dos partidos de esquerda oficial de recusarem qualquer processo negocial mesmo, como foi o caso, ele tenha sido convocado por um órgão de soberania da democracia portuguesa, e ainda por cima, aparecendo ligado a uma inaceitável discriminação contra os partidos da esquerda parlamentar.

Não é verdade, como ouvimos dizer à esquerda, que estivéssemos perante um dilema entre lutar por eleições ou negociar;

ou que a luta por eleições implicasse a recusa em iniciar um processo negocial!

A nosso ver, não se devem opôr negociações à luta por uma saída de eleições antecipadas!

Pelo contrário, as negociações também são luta, e a luta por eleições passa pela compreensão, generalizada, da necessidade de medidas económicas alternativas e pela afirmação da possibilidade um entendimento entre o centro-esquerda e a esquerda!

Ora, esses elementos de esclarecimento da opinião pública poderiam ser sobremaneira auxiliados no quadro de um processo negocial que confrontasse a direita com as posições convergentes da esquerda e ajudasse a desmascarar o baile das bruxas. A esquerda oficial, ao negar-se à negociação, deu mais liberdade às bruxas para dançarem a sua dança macabra.

Prosseguindo de certa maneira erros que vêm de trás, como o foram a recusa em negociar com Sócrates e com a Troika, a esquerda oficial continuou a privilegiar o PS como alvo dos seus ataques.

E foi por acharem que a queda do governo estava no papo que se colocaram na posição de que iriam disputar eleições supostamente inevitáveis, podendo acusar o PS de ambiguidade . Nessa linha, o PCP patrocinou aquela manobra de uma moção de censura explicitamente orientada para acabar com o “troca-tintismo” do PS, nas palavras de Jerónimo de Sousa. A moção serviu apenas como prenda ao governo da direita que a aproveitou para se re-legitimar.

A esquerda sobre-avaliou a correlação de forças e o papel fulcral nela jogado por um Presidente da República geneticamente vinculado à direita.

Ficou patente como a falta de uma força política, marxista, independente, tende a desaproveitar a enorme energia de luta que se desenvolveu e desenvolve em Portugal e como a inexistência de uma linha de convergência com o PS tem atrasado sobremaneira a luta por eleições, perpetuando gravemente o governo do capital financeirizado.

Camaradas, qualquer trabalhador entende com meridiana clareza que, sem juntar as forças da esquerda com as do PS, sem juntar as forças da CGTP com a UGT e outros sindicatos, sem juntar as organizações sociais, sem uma política de banda larga, unitária, a vitória sobre a direita fica mais difícil ou mesmo comprometida.

A vitória sobre a direita financeirizada pressupõe que antes haja uma vitória no seio da esquerda contra o sectarismo e contra o oportunismo eleitorialista que secundariza a contribuição para a defesa dos interesses imediatos dos trabalhadores a favor de ganhos eleitorais de circunstância.

E há, depois, aquela imaturidade esquerdista com as frases ocas que Lenine tão bem denunciava, cheias de bravata, como “rasgar o memorando”, “romper o pacto de agressão” e outra fraseologia pseudo-revolucionária.

Como é possível, camaradas, uma força marxista, responsável, não ir às lutas negociais, não mostrar em todas as instâncias as suas reclamações e pontos de vista para a resolução dos problemas?

Camaradas, as falhas da nossa esquerda não são apenas de ordem táctica.

Para esta esquerda, oficial, o futuro do projecto dos trabalhadores faz-se com acumulação de força oposicionista e nenhum compromisso, dito nauseabundo, com o PS, até que um dia haja o milagre da vinda do messias à terra.

O messianismo é o ópio que gera impotência e obscurece a possibilidade de apontar, no imediato, ao conjunto dos trabalhadores e camadas médias a única ideia, realista e viável, de lutar por um governo de centro-esquerda e da esquerda.

Um governo apetrechado com um projecto de
representação dos nossos interesses face às instâncias internacionais (!);

um conjunto de reformas keynesianas para o relançamento económico (!);

um programa de requalificação das prestações sociais e da economia pública (!);

com medidas que invertam a dinâmica de guerra de classe contra os trabalhadores (!);

e um conjunto de medidas de urgência social (!).

Um governo que consiga, finalmente, pôr cobro à austeridade e consiga relançar a economia (!).

Camaradas, os dados mostram bem que a luta de classes é o motor da história. É, pois, o espectro de Marx que continua a assombrar os salões da burguesia, aqui e em Berlim, diga-se.

Com o uso das categorias do marxismo podemos tentar compreender quem conduz o poder.

É um sector do capital baseado nos bancos de investimento, nos fundos de investimento e nos negócios especulativos, como os Swaps, CDS e short-selling a que Marx chamava de capital fictício, e que hoje alguns chamam de financeirização do capital.

Mais do que emprestar o dinheiro a um dado juro médio de mercado, sem relação portanto com os ganhos da indústria ou comércio, este sector constitui-se em vez disso em cobrador de rendas sobre parte do produto das vendas e associam as suas rendas ao valor das vendas.

O problema é que as cobranças do sector financeiro não servem à formação de capital fixo – não são para comprar equipamentos ou investir – nem servem para aumentar a produção.

Os agentes do capital financeirizado não querem saber se a economia se expande ou contrai. Para eles, toda riqueza gerada num país deve servir, antes de tudo, para pagar as rendas devidas mesmo que tudo à volta se extinga.

Eles serão portanto o nosso inimigo principal no futuro próximo e é contra eles que devemos erguer uma grande aliança social e política que os derrote.
Camaradas, não é só Cavaco Silva que se preocupa com o pós-troica.

Os comunistas também procuram tactear o que acontecerá numa futura retoma se o capitalismo falhar na sua chamada reforma do Estado.

O choque entre capitalismo fictício, financeirizado, e economia pública, poderá revelar afinal uma surpreendente robustez da economia pública. Imaginem por momentos como isso poderá favorecer o projecto de reconfiguração económica de que os comunistas são portadores.

O futuro, camaradas, não está determinado à partida. Mas as possibilidades de evolução são restritas e serão escolhidas pela consciência e pela acção planeada dos homens no âmbito da luta de classes, como enunciou Marx na sua obra genial do 18 do Brumário. O futuro, camaradas, pode muito bem ser mais nosso do que deles. Até porque, dizia um chinês que às vezes dizia coisas interessantes, Mao-tse-tung no caso, “os tempos tendem à revolução”! Para isso precisamos de mais marxismo!

Camaradas, os comunistas ambicionam por uma transformação socialista da economia, desde logo apontada à reapropriação e ao controlo laboral do sobre-produto e dos excedentes produzidos nessa mesma economia.

Nós, continuamos fieis à ideia de construir uma economia de trabalhadores associados, tal como foi enunciada no Manifesto de Marx e Engels.

É por isso que valorizamos os ganhos e as transformações na economia pública como parte de um processo evolucionário, com mutações e momentos de tensão social e política, que permitam construir avanços para o socialismo e para a construção da sua base económica.

Nesse processo longo valorizamos, claro está, a formação de um governo que, no imediato, afaste e derrote o capital financeirizado e proceda à requalificação da economia pública. Esta é a tarefa que se deve colocar à esquerda e, para tal, é necessário que haja mais força marxista e maior clareza estratégica.

Camaradas, nós agimos para a renovação do projecto comunista, reafirmamos e desenvolvemos a nossa visão internacionalista, batemo-nos pela actualização do projecto comunista no sentido da reapropriação laboral dos excedentes e sublinhamos que nunca o socialismo pode ser confundido com a mera estatização e nacionalização.

Nós empenhamo-nos na construção de uma teoria marxista, da política e do Estado, onde a liberdade, a democracia, e a participação, sejam contribuição, livre, de cada um, como condição para o desenvolvimento de todos.

Creio que Portugal precisa de mais influência comunista e marxista e que é urgente aumentar a intervenção organizada dos comunistas para que se possam colher os frutos da abnegada luta dos trabalhadores.

Viva a Renovação Comunista


 

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