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03 DE JANEIRO DE 2014, SEXTA FEIRA
Cipriano Justo
O longo caminho da unidade de esquerda, a propósito do M3D
Têm pelo menos setenta anos, com a criação do MUNAF em Dezembro de 1943, os esforços para que a unidade entre as forças de esquerda represente uma resposta, primeiro para derrubar a ditadura, e desde 1974 para que a consolidação do regime democrático se realize na base de um programa que satisfaça as aspirações sociais de vastas camadas da população, principalmente dos operários, trabalhadores dos serviços e quadros técnicos. Até à constituição da CDE em 1973 esta unidade sofreu vicissitudes várias sobretudo resultantes da presença mais ou menos robusta da sua base social de apoio.
Durante a ditadura, foi notório que sempre que a unidade se realizava num contexto de processos de luta e movimentações populares os processos unitários viam o seu caminho facilitado – é o caso da constituição do MUNAF no seguimento das lutas operárias de 1942-43, do MUD, no fim da II Guerra Mundial com grandes manifestações populares a exigirem a queda do regime em consequência da derrota do nazi-fascismo, da candidatura de Humberto Delgado, com ampla participação de todas as camadas da população, das greves estudantis de 1962 e, finalmente, do Congresso Democrático de Aveiro de 973, realizado numa conjuntura de intensa oposição ao regime, que veio a tornar-se na plataforma política e programática do Movimento dos Capitães. Pelo caminho ficaram outros tantos fracassos sempre que a convergência era realizada, como então se dizia, “por cima”, exclusivamente entre personalidades das várias correntes da oposição, dando lugar à valorização dos estereótipos de cada ponto de vista, e cujo exemplo mais paradigmático foi a Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN). Nestes casos, acabam sempre por imperar várias manifestações de oportunismo, como o putchismo, o caudilhismo e o abstencionismo.

Já em democracia, a convergência entre os partidos da esquerda tem-se resumido a alguns entendimentos pontuais sobre a produção legislativa, mas sem quaisquer consequências no plano da acção governativa. Deve, no entanto, assinalar-se o acontecimento que representou a coligação em Lisboa em 1989 que reuniu PS, PCP, PEV, UDP e PSR. Esse teste acabou por constituir uma manifestação isolada para o qual deram a sua contribuição decisiva, é justo assinalar, os então secretários-gerais do PS e do PCP, Jorge Sampaio e Álvaro Cunhal.

Se é verdade que durante a ditadura foi a luta popular a principal obreira da unidade antifascista, envolvendo comunistas, socialistas, católicas e republicanos tradicionais, já em democracia, e agora em que a política de austeridade tem trazido à rua milhares de portugueses e as manifestações de oposição ao governo se sucedem, representando uma ampla base social de apoio a entendimentos políticos entre as várias formações de esquerda, essa unidade, apesar dessas condições, está longe de se concretizar, dando-se a entender que a aversão a ter-se responsabilidades partilhadas de governar é maior do que os sentimentos de vastas camadas da população. Não sendo os objectivos comparáveis em cada uma das situações, nem por isso a unidade antifascista foi facilitada pela identificação precisa do inimigo principal, razão pela qual ao longo de quarenta e oito anos ela tenha sido feita e desfeita e a sua composição e designação terem sofrido significativas alterações. As razões dos insucessos devem ser procuradas num fenómeno para o qual há que encontrar resposta: umas vezes as movimentações populares não tiveram interlocutores políticos à altura dos acontecimentos, outras vezes o isolacionismo e as hesitações da oposição antifascista acabaram por impor as suas lógicas, frustrando potenciais modalidades de convergência.

Nas actuais circunstâncias, em que as condições materiais para a substituição do governo estiveram por diversas vezes satisfeitas acabando essas oportunidades por sair frustradas apesar da combatividade demonstrada pelo movimento popular, não é de estranhar que se estejam a verificar dois tipos de dinâmicas sociais perante o desacordo evidente entre os partidos da esquerda quanto aos caminhos alternativos a seguir. Uma, que vê engrossar as suas fileiras à medida que os meses passam, as condições sociais se agravam mas não encontra respostas à esquerda, começa a ficar disponível para investir num bloco central remoçado; outra, que à força de se radicalizar corre o risco de perder a oportunidade única de contribuir para a afirmação de uma solução governativa à altura das exigências da actual situação.

É neste impasse, tanto social como partidário, que o Manifesto 3D, www.manifesto3d.pt, surge na cena política, propondo-se contribuir para o processo de desbloqueamento entre as formações políticas do arco da esquerda. Dir-se-á que a tarefa é sisífia, tantas têm sido as tentativas nesse sentido. Porém, antes que o desânimo faça soçobrar a vontade de mudança do eleitorado lançando-o nos braços de um actualizado bloco central, há que fazer a prova dos factos; isto é, confrontar as partes interessadas com as suas responsabilidades políticas desafiando-as para mostrarem as suas condições de participação numa solução governativa logo que se verifiquem eleições legislativas, sendo certo que, tal como é afirmado, o M3D está disponível para fazer parte da solução e para o efeito fazer também o seu caminho. No ciclo eleitoral que se inicia em 25 de Maio seria indesculpável que fossem as formações de esquerda a oferecer a custo zero a constituição de um governo com a participação da direita, contribuindo para a reedição de cenários que tanto verbera no seu discurso.


 

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