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-1ª página do Avante a 24 de julho de 1975
29 DE SETEMBRO DE 2014, SEGUNDA FEIRA
POR: Carlos Luís Figueira
Testemunhos do Verão quente de 1975
O depoimento de Carlos Luís Figueira sobre o assalto ao Centro de Trabalho do PCP, em Viseu, a 20 de julho de 1975
Carlos Luís Figueira recorda aqui o assalto ao centro de trabalho do PCP em Viseu pelas hordas de fascistas, no verão quente de 1975. E recorda como foi abnegada e forte a têmpera dos comunistas na sua ação defensiva.
As notícias do dia recordam: "20 de Julho de 1975 – Manifestação anticomunista em Viseu e de apoio ao Episcopado (à tarde), com tentativa de assalto à sede local do PCP. No final D. José Pedro da Silva, bispo titular de Thiava e bispo de Viseu, agradeceu a «solidariedade dos fiéis».

Depoimento de Carlos Luís Figueira

A propósito da inauguração de um novo Centro de Trabalho do PCP e antes que a minha memória se apague de todo porque hoje só me consigo recordar de acontecimentos que pela circunstância, pelo tempo e contexto em que ocorrera direi a propósito da inauguração do novo Centro de Trabalho de Viseu referenciado pelo PCP o seguinte. Não conheço o texto que Gerónimo terá feito durante tal acontecimento mas se não fez referência ao ponto de partida atestarei o seguinte : O Centro de Trabalho de Viseu, como muitos outros no centro norte do País, foi assaltado e completamente destruído, como muitos outros, por uma chusma ululante de fascistas que capitaneavam a ignorância de outros, com a contemplação do comandante do exercito chamado para conter a o assalto. De dentro do Centro de Trabalho um pequeno núcleo de militantes e dirigentes do Partido, esgotaram as munições que tínhamos: cartuchos de caçadeiras, embalagens de “ Laranginas C “ transformadas artesanalmente numa espécie de coktails Molotov. Perante a enormidade da correlação de forças em presença e a passividade das forças do exercito chamadas para acudir à situação foi dada ordem para fugir por uma janela traseira dos poucos que se aguentaram dentro. Voltamos tempos depois ao edifício destruído completamente no seu interior, nada restava nem as loiças da casa de banho. Meses depois recuperamos o edifício aliás localizado numa zona privilegiada num canto da avenida que dava acesso à estação de caminho de ferro e aí o Partido voltou a funcionar após uma festa comemorada a preceito com toda a justiça e orgulho. Estamos a falar de 1975. O Partido que tinha vários Centros de Trabalho no distrito de Viseu, só ficaram dois de pé: em Lamego porque dispúnhamos de uma organização com grande influência social porque predominantemente assente na classe média ( advogados, grandes produtores agrícolas ) gente respeitada e do Mortágua porque antes dos fascistas assaltarem o Centro de Trabalho, foram os membros do Partido, que tinham um arrojo e coragem sem limites que foram ter com eles ao café para lhe darem um grande enxerto de porrada o que contribui decisivamente para destroçar o acto que tinham em vista.
Antes desta barbárie que na altura impropriamente Mário Soares identificou como uma rejeição do povo ao comunismo no distrito de Viseu estavam inscritos cerca de mil militantes. Ficamos com pouco mais de 300, gente de uma coragem exemplar. Quando das eleições para as legislativas de 1976 ( se não me engano na data ) necessitávamos para concorrer de mais de uma dúzia de candidatos o que significava dar a cara, o corpo e a estabilidade da vida familirar para assumir tal desígnio, estava como responsável e funcionário do Partido em Coimbra com a responsabilidade de, entre outras, de toda a organização regional das beiras constituída pelos distritos de Coimbra, Aveiro, Castelo Branco, Guarda e Viseu. Ofereci-me para cabeça de lista como gesto que poderia dar ânimo e coragem para os que poderiam acompanhar-me na formação do resto da lista e assim foi : formamos lista e concorremos às eleições independentemente de um resultado que de partida já sabíamos que seria escaço.
Dessa batalha politica guardo a recordação de no sábado da chamada reflexão, de regresso a Coimbra com outros funcionários do Partido, ter o carro que conduzia ter sido abalroado em plena estrada nacional por um grupo de fascistas, aos gritos como representantes de herdeiros nazis alemães. Eram de Santa Comba Dão, facto que mais tarde consegui apurar. Levei uma sova monumental, foi a primeira e até agora única vez, que cai redondo KO com um soco no nariz. Só cinco anos depois o caso foi julgado com pena leve a um deles num grupo de cinco que me tinham cercado zumbindo com pontas de aço a que eu tanto quanto pude me procurava livrar dando pontapés no vento. No conjunto das pessoas que me acompanhavam é necessário dizer que se tratava de um casal funcionário do Partido cuja mulher estava grávida e que procurei de imediato que se afastassem do local e outro que lhe pedi para diligenciar uma chamada urgente da GNR o que veio depois a acontecer já após o meu KO e com grande enfado dos fascistas.
Para memória futura.


 

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