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27 DE MAIO DE 2015, QUARTA-FEIRA
ELOGIO DA RAZÃO
Realizou-se ontem uma sessão pública de debate sobre o livro de Cipriano Justo "Elogio da Razão em tempos difíceis". Damos aqui conta da intervenção de Paulo Fidalgo.
ELOGIO DA RAZÃO
Francamente, não me ocorreu a forma boa de pegar nisto!

O Justo e eu já discutimos muitas vezes.

No plano da teoria é claro!

Porque somos fiéis àquela máxima dos antigos de que nos ensinaram que não há vitória prática sem antes haver vitória teórica.

E vocês perceberão que, nós, podemos estar à beira de enfrentar um desafio prático para o qual deveremos preparar-nos, no plano da teoria, no caso de conseguirmos impulsionar um novo ciclo político!
E o que o Justo quer que aceitemos é um desafio inédito na política.

É convencer-nos que não podemos continuar à espera da queda dos corpos doentes nos serviços de saúde, desamparados, com escassa margem de intervenção, sem antes apostar na mudança de trajetória que leva as gentes a adoecerem.

A ideia é uma quase quimera: viver mais tempo, com mais qualidade de vida, contrariar os factores que abreviam a nossa existência em vez de ficarmos à espera que a doença catastrófica suceda prematuramente e nos consuma recursos.

E ao mesmo tempo convocar o sujeito cidadão, nas suas comunidades locais, para soberanamente decidir as prioridades de promoção da saúde, e agir com inteligência na obtenção de qualidade de vida e capacidade plenas.

A principal objeção às ideias temerárias do Justo advêm das frustrações que os intelectuais da saúde sofreram com a prevenção. Eu falo por mim, antes de tudo.

Como muitos na minha geração, mergulhei naquelas ideias maoístas dos médicos de pé descalço supostamente remunerados, apenas e quando, os concidadãos estivessem saudáveis. E sujeitos a passarem fome se alguém apanhasse um resfriado, numa qualquer comuna no Shaansi onde o exército vermelho chinês estacionou depois da Longa Marcha, em 1935.

No início da minha carreira oncológica tive o privilégio de estagiar no Rockefellar Centre e fui bastamente industriado na tecla da prevenção da toxicidade alimentar e na tecla da manipulação de alimentos protetores contra o cancro do cólon. Estudei a evidência dos lenhadores da Finlândia e dos emigrantes japoneses de segunda geração no Havai.

Os meus mestres americanos, figuras extraordinárias da ciência, eram os mais eminentes cientistas da TOXICIDADE, extrínseca, da ideia lamarckista de que a pressão do meio faz surgir a forma e a função, degradadas, que seriam fixadas sob a forma de cancro.

Ora, como muitos saberão, a fixação de caracteres transmissíveis às linhagens celulares, subsequentes à intoxicação, é uma dificuldade incontornável das ideias de Monsieur de Lamarck, herói da Revolução francesa.

Nem os maoístas resolveram bem o problema, nem os meus queridos americanos, lamarckistas sem disso terem grande consciência, responderam aos dados da prodigiosa revolução molecular que entretanto veio mostrar que isso da intoxicação não é assim tão simples.

Realmente, Hegel e Marx tinham chamado à atenção do reflexo da Aufgebung, da negação-adaptação-superação com que os sistemas reagem à pressão dissolvente do meio.

Para simplificar, as espécies vivas são sistemas robustíssimos equipados para resistirem e oporem-se energicamente à pressão dissolvente do meio. Num sentido lato, o ser vivo, organizado, dispõe de equipamentos que o fazem resistir à intoxicação com sucesso.

Caramba, só 10% dos fumadores desenvolvem cancro do pulmão e o tabaco é mesmo uma arma de destruição maciça muito mais enérgica nas mãos da Philip Morris do que as supostas armas que o Saddam Hussein tinha guardadas no Iraque.

A ideia de PREVENÇÃO é, pois, uma ideia difícil por não descrever bem o guião do processo da doença. A meu ver, ela é filha da noção de que nascemos puros, perfeitos, imaculados, fruto quem sabe de uma obra superior da criação.

Do lado religioso, de outro modo, se perfeita não fosse a obra, imperfeito seria o criador e, isso, é algo de absurdo na melhor das teologias, atrevo-me a especular.

Eu não vos quero maçar com uma discussão teológica.
Aonde eu quero chegar, é: a prevenção pode ser equívoca, pois parte de uma ideia errada, a de que nascemos perfeitos e nos corrompemos seja pela má índole das gentes, pela vileza do consumismo capitalista ou, ainda, pelas artimanhas do demo….

A prevenção pressupõe, na sua visão mais ingénua, que há um estado de não-doença, subitamente e binariamente sucedido por um estado-de-doença, presumivelmente porque jantámos no dia anterior uns ovos de pata mal preservados. O evento que valorizamos, no encadear de fenómenos, pode certamente ser binário, mas numa condição infinitamente mais pequena, ao nível de uma molécula ou de um organelo celular, geralmente décadas antes do doença aparecer, por um encadeado de etapas sucessivas que vai originar a fase reconhecível da doença.

Prevenção primária, diz a wikipédia, é o conjunto de ações que visam evitar a doença na população, removendo os fatores causais, ou seja, visam a diminuição da incidência da doença. Tem por objetivo a promoção de saúde e proteção específica.

A vacinação é o grande exemplo, tem alta eficácia em reduzir o risco de doença reconhecível, mas ocupa um lugar circunscrito, quando pensamos na carga de doença clínica que nos afoga nos serviços. Seria utópico pensar que poderíamos chegar a um tal desenvolvimento da vacinação que conseguíamos vacinar as gentes contra a incapacidade e a morte.

A frustração com a ideia da prevenção deve-se à falta de compreensão minuciosa dos mecanismos de doença e atribuí tudo a uma causa simples major que não é nada simples e nem ter de ser major! Por conseguinte, as estratégias para lidar com a fase subclínica e contra-seleccionar os seus efeitos, são exigentes e difíceis de provar no terreno dos estudos epidemiológicos e na diminuição da morbilidade e mortalidade.

Mas essa dificuldade não significa que abandonemos a ciência ou a razão e venhamos a desistir da agenda de aumentar a esperança de vida sem incapacidade.

Os filósofos sempre disseram que a matéria não tem ponto para começar nem para acabar. Disseram-nos que há um encadeamento de fenómenos e de possibilidades de evolução para que um sistema vivo adquira mais esta ou aquela possibilidade de doença. Um sistema vivo contém nele várias hipóteses de doença que poderão chegar ou não a vias de facto, por entre o impulso à diversidade e à ação de complexas forças de seleção.

Apesar de tudo estar agora a começar a ser desbravado, há argumentos para julgar pertinente meter mãos à obra e edificar estratégias de contenção de riscos.

Quem diria que a belíssima Angelina Jolie, um exemplo de animal saudável, robusto, inteligente, pudesse transportar consigo uma discreta peça menos bem fabricada. Como se pode conceber que uma alteração de uma letra na sequência do alfabeto do ADN, num único dos 23 mil genes que transportamos, acabasse por ameaçar tão devastadoramente a sua integridade física?

O que significará a prevenção para os portadores de doenças hereditárias com alto risco de cancro?

A prevenção seria inserirmos nas suas 10 elevadas a 12 células de cada um dos seus corpos, a sequência certa de ADN? Ou seria evitar que numa qualquer geração anterior, um pai ou uma mãe, ou avô, tivessem adquirido uma mutação? Não, não dispomos de armas tão poderosas. Mas podemos reconhecer o risco da Angelina e aconselhá-la a gerir e contrariar o seu risco por forma a proporcionar-lhe muitos anos de tela e cinema.

E a obesidade, epidémica que defrontamos? É ela apenas o resultado das filas para o McDonald’s ou sãos os descendentes dos que há 500 anos melhor sobreviveram às grandes fomes e, quando expostos hoje a alimentação suficiente ou plena, acabam por exprimir o exagero da capacidade que transportam, selecionada nos tempos antigos?

Os prevencionistas de todos os matizes, agiram sempre em desespero minoritário, mas o progresso da ciência, e a óbvia dificuldade em continuar a despejar baldes de dinheiro quando apenas acudimos à doença terminal catastrófica, recolocam a necessidade de uma mudança política. E esse é o mérito especial do manifesto do Justo. Explicar com frontalidade, agora que podemos chegar à mudança de ciclo político, que isso implica mesmo uma mudança na política de saúde!

E o Justo tem toda a razão em reclamar por ela porque a gestão inteligente do risco, na esfera pessoal, mas sobretudo social e local, não pode ser mais tempo iludida face aos prodigiosos avanços da ciência.

Insistir na medicina da doença terminal é o caminho da crise interminável, é negar a óbvia necessidade de mudanças substantivas para sairmos da grave crise económica, capitalista, em que Portugal e o mundo mergulharam.

Só com mudanças sensíveis de política a crise será superada ou, então, a estagnação para todo o século vai subsistir com mais cortes aos salários e pensões e no SNS.

Portugal não tem política aceitável de rastreios dos principais cancros. Dizem os estudos que só 20% estão a aceder e a aderir ao rastreio do cancro do cólon, enquanto hoje, nos EUA, essa percentagem estará nos 60% e há o plano de a fazer subir até aos 80% em 2018.

Que país é este que tanto se afasta das metas modernas de política preventiva e de gestão e controlo dos riscos?

Será concebível que não tenhamos uma política de segurança e racionalidade alimentar?

Será que vamos continuar a despejar toneladas de dinheiro para apenas lidar com a fase terminal das doenças sem cuidar de modificar os riscos?

O Justo enche-nos de profusa documentação sobre os factos. Os factos que mostram, para além do mais, como devastadora têm sido as consequências da crise e sobretudo da resposta conservadora austeritária que acrescentou crise à crise.

A crise que provoca cortes que afetam a capacidade de aquecimento no inverno dos idosos e gera o caos e a morte nas nossas urgências. O austeritarismo que faz com que as nossas crianças cheguem às aulas cheias de fome, sem terem tomado o pequeno-almoço.
As tarefas que a esquerda se coloca sob a batuta do Justo são imensas e não podemos iludi-las nem queremos iludi-las.

É uma batalha exigentíssima mas o Justo grita-nos ao ouvido que a saída implica mudar e recusar que tudo continue como dantes!


 

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