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26 DE JULHO DE 2015, DOMINGO
FONTE: Renovação Comunista
POR: Cipriano Justo
Newsletter, 2ª série, número 0
Que se lixem os portugueses?
O que vai acontecer quando as urnas abrirem a 4 de Outubro de 2015? Avaliam-se aqui os problemas gerados pela persistência da fragmentação à esquerda.
Quando as urnas abrirem na manhã de 4 de Outubro, a coligação de direita terá conseguido um feito de monta, apresentar-se aos eleitores como se um vendaval social não tivesse varrido a vida de muitos milhares de portugueses e o sol brilhasse para todos nós. Nestes anos tornou-se menos tosca nos modos, revestiu-se do verniz indispensável para camuflar o lixo que foi acumulando no diário da república, alterou o registo com que se dirigia à população –já não há membro do governo que não apresente condolências aos portugueses pelos valores do desemprego -, criou a ficção de um país de cofres cheios e livros de cheques bem temperados, apresenta-se com uma lista de benemerências que fazem inveja à misericórdia mais abastada e fazer projectos para se manter sentada à mesa do conselho de ministros por mais quatro anos, pelo menos. Se esta pode ser confundida com uma fotografia dos feitos deste governo tirada na photomaton, de facto tudo quanto era inimaginável ainda há dois anos pode tornar-se no mais pesado pesadelo a que a democracia pode vir a assistir: a reeleição da coligação de direita. E não são as sondagens que começam a dar sinais dessa possibilidade. É a debilidade e o conformismo que tomou conta da oposição.
Perdida em disputas para as quais qualquer português, mesmo com o 12º ano, teria de frequentar um curso pós-laboral para conseguir descodificar o que vai por aí, a esquerda apresenta-se nestas eleições mais do que dividida, subdividida, dilacerada, sem ter conseguido, nas melhores condições políticas que a direita lhe proporcionou, negociar um compromisso sobre duas ou três matérias que fossem prestáveis para as condições de vida da população, que nos fizesse acreditar, por uma vez, que alguma coisa estava escrita nas estrelas, a derrota da direita. Mas não é isso que está a acontecer. O que os eleitores ouvem do lado de onde sopra a esquerda é uma ladainha que pisa e repisa os efeitos da austeridade mas da qual não se conseguem ouvir uns ténues decibéis sobre como evoluir num quadro europeu que já deu mostras de que apesar das brechas que o processo grego abriu ainda mantém o quadrado bem defendido.

É por isso que, nas actuais circunstâncias, e com as inevitáveis tensões que a bipolarização vão desencadear, com muito do eleitorado a pesar a diferença que o seu voto pode fazer para as suas condições de vida, mesmo que o raciocínio não passe de uma fantasia, o melhor que a esquerda já interiorizou para o dia seguinte é como bater-se para controlar as hesitações do centro-esquerdo, apresentando-lhe um caderno de encargos que o embarace mas do qual lhe seja difícil escapar-se. Alguém insuspeito de simpatias com a esquerda, sequer com o centro-esquerda, T. S. Eliot, nas suas Notas para a Definição de Cultura observava que “há momentos em que a única escolha é entre a heresia e a descrença – ou seja, momentos em que a única maneira de manter uma religião em vida é operar uma cisão sectária”. A esquerda ainda não conseguiu fazer essa cisão, esta entre o passado e o futuro.


 

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