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13 DE DEZEMBRO DE 2016, TERÇA FEIRA
FONTE: RC
POR: Paulo Fidalgo
Os jogos nacionalistas do capitalismo
Avalia-se aqui a natureza das estonteantes mudanças na representação política que estão a provocar tsunamis eleitorais em países desenvolvidos da Europa e América do Norte. E procuram-se retirar ilações sobre qual deve ser a conduta da esquerda para lidar com esta nova realidade.
Jogos políticos no discurso e na representação

O ano de 2016 representa uma aceleração tectónica na mudança de representação política dos regimes parlamentares, fruto da quebra de consenso social no período anterior, entre o grande capital
financeirizado e as camadas intermédias, leia-se pequena burguesia e funcionalismo público.

Porventura, também sectores operários mudaram o seu voto em várias direções, fustigados pela expiação com que o capitalismo os fez suportar a gestão da crise.

Depois dos abanões na Grécia e Portugal, notaram-se transformações nos EUA, Reino Unido, Itália e Espanha com modificações no quadro partidário, de sentido diverso. Na Áustria, o candidato da extrema direita à presidência, varreu a antiga representação conservadora e falhou por pouco a eleição. Porém, o lado vencedor mostrou igualmente uma perda das formações tradicionais, como o partido socialista. O status quo anterior, em especial a social-democracia, mas igualmente os conservadores, falharam rotundamente na administração política da crise económica iniciada em 2008, e perderam apoios em largas camadas da população, incapazes que foram de segurá-las nas malhas do austeritarismo e da perda de rendimentos. Angela Merckel, na Alemanha, está sob ameaça e, em França, a ascensão do Front Nacional estilhaça a arquitetura anterior, gaulista e socialista.

A metamorfose em curso na representação, associa-se a mudanças no discurso político.

Aquela esquerda que conseguiu progredir, fê-lo debaixo da promessa de inversão do austeritarismo , porém com aposta na cooperação supranacional, leia-se globalização de outro tipo, batendo-se pela sua regulação estrita no sentido de prevenir perdas de direitos. A esquerda internacionalista reconhece que o mundo caminha na direção de uma aldeia única, habitada tendencialmente por uma humanidade sem segmentações e assume que deve ser este o seu pathos. Por muitos engulhos que surjam, e mesmo passos atrás, o mundo sem fronteiras será o lugar da cooperação que potencia igualdade, desenvolvimento, bem-estar e ambiente sustentável.

A direita e forças menos caracterizáveis, porém vinculadas aos sectores intermédios, como o movimento 5 estrelas em Itália, rompem também com o discurso austeritário , mas procuram em grau diverso refazer a base de apoio ao capitalismo com mensagens de recuperação da grandeza nacional supostamente perdida, e com a retoma das fronteiras, controle da imigração e inversão das deslocalizações de empresas que tanto tinham atingido o emprego no período anterior. A demagogia ao estilo fascista é um traço especialmente repugnante da direita radical em ascensão, a que os americanos chamam “alt-right”. A demagogia atingiu o climax na campanha do brexit com a promessa mirabolante de que a cota financeira britânica para a UE iria servir para financiar o SNS carente, uma vigarice sem nome rapidamente anulada após o referendo. No caso americano, promessas de evitar o desemprego dos trabalhadores da Carrier , uma empresa de ar-condicionado do estado de Indiana, foram anuladas logo depois da eleição de Trump com o anuncio de investimentos em maquinaria para proceder precisamente a despedimentos.

A pequena burguesia ocupa um papel sensível nas mudanças de representação, dada a sua proverbial oscilação de humor. É bom rever o ensaio do filósofo grego, comunista, Nikos Poulantzas, “Fascismo e Ditadura”, e com ele revisitar os elementos da ideologia pequeno-burguesa e do funcionalismo público com ela aparentado, e a sua crise. Sem querer debater agora se estamos ou não a voltar aos anos 30 do século XX, há na verdade elementos recorrentes na crise ideológica da pequena burguesia e das camadas médias que estão seguramente a operar fortemente na presente situação. A pequena burguesia critica as grandes fortunas acumuladas de forma ilegítima no período peri-crise por distorcerem a “igualdade de possibilidades” e critica os atropelos à meritocracia – vista como meio para ascender socialmente e substituir as elites grande-burguesas caducas. Mostra ainda o seu apego a uma ideia de Estado, neutro, que devia intervir abertamente para impedir iniquidades – estatolatria – o que assume, no caso do funcionalismo, contornos de defesa do cesarismo estatal. Todos estes elementos diluíam-se, no passado, nos discursos das formações tradicionais, mas com o avolumar da crise, essa diluição cessou e essas ideias passaram a emergir com nitidez por chocarem com a orientação “ortodoxa” neoliberal.

Os novos atores político-partidários perceberam a vantagem em jogar no reavivar destes elementos, ao ponto de trazerem esse discurso para uma aparente hegemonia. É bastante ilusória e inconsequente, contudo, essa saliência da ideologia pequeno-burguesa agora retomada, como o foi de resto nos anos trinta do século XX. A recuperação dos valores pequeno-burgueses pelos “novos” conservadores visa antes de tudo reconsolidar em novos moldes a subordinação destas classes tresmalhadas ao grande capital. A futura aliança renovada, social, entre o grande capital e sectores intermédios pode ser desenhada, portanto, com incorporação das manifestações de desconforto da parte destes em relação ao que tem sido a impiedosa orientação austeritária das forças tradicionais, conservadoras e social-democratas, na gestão da crise. O que se está a passar nas estonteantes remodelações político-partidárias em curso é, portanto, um colossal embuste ideológico para salvar, disfarçando-a, a velha hegemonia burguesa. E neste sentido, e apenas neste, é possível falar desde já em semelhanças com o que se passou na Europa dos anos trinta.

Pode ou não falar-se em nova fase do capitalismo?

Nos primeiros momentos da vitória do brexit e de Trump nos EUA, a mensagem nacionalista e xenófoba que então tomou conta dos media, desencadeou nos marxistas um debate sobre qual seria a base estrutural, económica, desta viragem política. Foi adiantada a hipótese de estarmos em fase final do que foi o modo de capitalismo financeirizado que se iniciou na década de 70 do século XX, com a correspondente cartada neoliberal, desregulação, privatizações e globalização selvagem com proteção total, mesmo com as esquadras navais, à liberdade de circulação do capital. Nesta discussão funcionou a analogia com a sequência ocorrida na passagem do capitalismo liberal do século XIX, para o capitalismo monopolista no início do século XX, em precedência às guerras mundiais. Será que agora vai suceder uma fase de tipo capitalismo monopolista de estado com instrumentalização em grau extremo do Estado a favor dos negócios dos capitalistas numa lógica nacionalista? Realmente, se olharmos às nomeações em curso para o governo americano, parece o assalto mais descarado dos capitalistas à chefia do Estado, como nunca se viu, e que faz pensar que há realmente uma guinada no evolucionismo político-económico.

Ela seria o resultado da própria crise do capitalismo o qual teria descoberto como saída uma maior e mais drástica intervenção do Estado no dumping ao capitalismo de cada potência para restaurar a expansão e a taxa de lucro, em grave retrocesso nestes dias. E porque não, jogando outra vez com a benesse dos superlucros , aquela margem acrescida proporcionada pelo protecionismo das fronteiras e que foi estímulo ao evolucionismo no início do século XX (Nikolai Bukharine, Imperialism and World Economy, 1915). Não é ainda possível demonstrar esta hipótese e teremos de aguardar por dados mais factuais.

Podem os democratas entrar nos jogos do capitalismo?

A ofensiva neo-consevadora, radical, ameaça agora conquistar avanços nas eleições próximas, em França e na Alemanha, em 2017, e reafirmar assim com maior nitidez um nacionalismo redentor que reagrupe as classes debaixo da asa do capital, mesmo que para isso se jogue no desmantelamento da UE. As forças do status quo que conservam o comando político na Europa recusam medidas de relançamento económico. Seria necessário conjugar para isso os enormes recursos que o continente dispõe, desde que postos a funcionar com energia e espírito de cooperação internacional. Podemos dizer que estas forças tradicionais, agora em queda, com o seu imobilismo, fazem abertamente o jogo das forças de extrema-direita que cavalgam na reclamação de acabar com a EU, recuperar a soberania e desencadear o protecionismo.

Por todos os elementos de crise e confusão ideológica aduzidos, geradores de demagogia e primarismo, é muito importante erguer um perímetro de forças que polarize os desejos de uma Europa de paz e cooperação, o que só será possível com mudanças sensíveis a favor da esquerda e do centro-esquerda ao nível do poder nos estados membros da UE. A base para essa vasta aliança tem de ser, necessariamente, a mudança de política económica no sentido da expansão e da solidariedade, o reforço da cooperação supranacional, e o aprofundamento da democracia. Face aos avanços da direita, não pode a esquerda e o centro esquerda fazerem concessões aos pontos de vista ortodoxos, neoliberais, pecado geralmente cometido pela social-democracia, nem se pode transigir com os afloramentos soberanistas que contaminam tanto a social-democracia como as forças à sua esquerda.

O ano de 2016 não correu bem para os construtores de um mundo novo, e o ano de 2017 mostra ainda sinais de mau tempo. Mas a dificuldade é para ser enfrentada com clarividência e convergência alargada recusando as tentações de acompanhar os jogos perigosos e destrutivos de capitalismo, sem esquecer que estes jogos surgem pelas dificuldades que enfrenta e só na aparência serão de natureza ofensiva .


 

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