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31 DE JANEIRO DE 2016, DOMINGO
FONTE: RC
POR: Manuel Oliveira
Crónica de uma derrota anunciada
As presidenciais motivam naturais reflexões à esquerda. Manuel Oliveira avalia os resultados e as dissensões que levaram à vitória do candidato da direita.

Crónica de uma derrota anunciada


A coligação PSD/CDS não tendo conseguido obter a maioria absoluta nas Legislativas realizadas em 4 de Outubro de 2015 e, pior, tendo sido afastada do poder apesar de ter obtido nessas mesmas Eleições a maioria relativa, estava “obrigada” a eleger um PR da sua área. As consequências de falhar esse objectivo e, porventura, assistir à eleição de Sampaio da Nóvoa, seriam dramáticas: reforço do PS (e o definhamento da sua ala direita), do PCP e do BE e a consolidação da solução governativa actual, uma convulsão interna no PSD e o afastamento da Direita do poder por muitos e bons anos. E, consequentemente, uma aceleração do processo de transformação progressista do País.

Então, sendo muito o que estava em jogo nestas eleições Presidenciais, a Direita tudo tinha de fazer para as ganhar. E, percebendo que só tinha um candidato capaz de realizar tal proeza, não hesitou: desenvencilhou-se de outros candidatos mais do seu agrado e, pragmática, deu o seu apoio ao comentador Marcelo. Acontece, porém, que o apoio da Direita não chegava, por si só para eleger o comentador Marcelo. Era também necessário penetrar no “centro político”, o que basicamente quer dizer, no eleitorado conservador do PS. E foi esta necessidade eleitoral que determinou toda a sonsa estratégia de campanha do comentador Marcelo, e não qualquer outra ordem de razões.

Nem de propósito, as divisões internas do PS na ressaca das suas eleições primárias e, sobretudo, a oposição da “direita do PS” aos acordos de incidência parlamentar que António Costa concretizou com o BE e com o PCP geraram uma candidatura de facção (concorrente com a candidatura de Sampaio da Nóvoa já há muito no terreno e com fortes apoios declarados dentro e fora do PS) que acabou por ser protagonizada por Maria de Belém. Ora, não tendo António Costa (e o PS) declarado o seu apoio a Sampaio da Nóvoa com a devida antecedência de modo a neutralizar a “oposição” interna, ficou politicamente limitado, não lhe restando outra opção que não fosse recomendar o voto, numa espécie de primárias, em Maria de Belém ou em Sampaio da Nóvoa. Como se isto não bastasse, a patética prestação de Maria de Belém tornou ainda mais fácil a vida do comentador Marcelo.

Na Esquerda, o PCP e o BE, previsíveis, apresentaram candidaturas próprias. A tese que suporta esta estratégia é conhecida, como conhecidos são os seus maus resultados! Insistir nela só se compreende à luz de pueris despiques partidários. O resultado foi humilhante para o PCP, também muito por culpa da má prestação de Edgar Silva (as suas declarações sobre a Coreia do Norte ou sobre o Orçamento rectificativo são apenas dois exemplos) que, inevitavelmente, vão fragilizar a sua posição negocial em acordos futuros de incidência parlamentar com o PS. Inversamente, neste aspecto o bom resultado do BE e a boa prestação de Marisa Matias reforçarão o seu poder negocial em acordos futuros de incidência parlamentar com o PS. Contudo, nem o PCP nem o BE atingiram o seu objectivo de obrigar a realização da 2ª volta, pelo que a eleição do comentador Marcelo também é da sua responsabilidade.

Demonstrando uma confrangedora incapacidade em aprender com os erros cometidos nas duas anteriores eleições Presidenciais (e que tiveram como consequência que durante dez anos tivesse-mos de suportar Cavaco Silva) o PS, o PCP e o BE não conseguiram ultrapassar os seus mesquinhos interesses partidários e sanar as quezílias que os tolhem. Se o tivessem feito como, aliás, aconselhavam os acordos de incidência parlamentar que tinham recentemente firmado, teriam enxergado o óbvio: para enfrentar com êxito um único e tão forte candidato da Direita, a única forma de o fazer seria convergirem numa candidatura única e fazer uma campanha bipolarizadora de modo a criar as sinergias e o elan necessários para ganhar na 1ª volta. Tendo em conta o muito que estava em jogo nestas eleições Presidenciais era o que se esperaria de quem, verdadeiramente, as quisesse ganhar.

E não se diga que não existia um candidato para protagonizar esta estratégia. Pelo contrário, nunca como nestas eleições Presidenciais existiu esse candidato. Sampaio da Nóvoa, académico prestigiado, sem filiação partidária, com boas relações com o PCP e com o BE, com fortes apoios no PS e na Esquerda, bem aceite pelas forças armadas e com uma “Carta de Princípios” politicamente abrangente, era esse candidato. E se dúvidas houvesse, a forma notável como protagonizou a sua candidatura, dissipou-as completamente.

Não foi possível desta vez. Paciência. Espero estar vivo em 2021 para o apoiar de novo!

Lamentavelmente, vamos ter de conviver durante os próximos cinco anos com um PR de Direita. Mais inteligente, mais sofisticado e mais manhoso que Cavaco Silva, mas igualmente de Direita. Use as máscaras que usar, a sua natureza acabará sempre por se revelar. Confesso apoiante de Passos Coelho e Paulo Portas (de quem se procurou distanciar durante a campanha eleitoral) certamente fará tudo para lhes facilitar o regresso ao poder.
Sem dúvida, a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa foi um revés. Mas não foi o fim do Mundo! É necessário vencer o desânimo para superar esse momento e para continuar a lutar com mais inteligência, mais empenho e sem sectarismo pelos “novos tempos” que se abriram com as eleições de 4 de Outubro de 2015.


Porto, Janeiro de 2016

Manuel Oliveira


 

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