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05 DE FEVEREIRO DE 2016, SEXTA FEIRA
FONTE: DN
POR: Entrevista de Sílvia Freches
Análise das presidenciais
"O que falta é renovação urgente no PCP"
Carlos Brito ao Diário de Notícias
Carlos Brito, presidente do conselho nacional da Renovação Comunista concedeu uma entrevista ao Diário de Noticias onde analisa os resultados das presidenciais e as perspetivas de evolução política.
O antigo dirigente comunista Carlos Brito acredita que Jerónimo de Sousa saiu reforçado do acordo com o PS, mas aconselha o PCP a ser ousado. E diz que a vitória de Marcelo se explica por falta de convergência da esquerda

O comportamento que o PCP tem tido desde o acordo com o governo era o que esperava?

No debate parlamentar do programa do atual governo, Jerónimo de Sousa definiu um critério, em relação ao posicionamento do PCP, que me pareceu muito ajustado. Disse (cito a ideia): "Nem exigir que tudo mude de uma vez nem aceitar que mude tão pouco, que fique tudo na mesma." Julgo por isso que o comportamento do PCP tem correspondido ao que esperava, o que não quer dizer que, numa ou noutra área de trabalho partidário, possa parecer que o critério do secretário-geral não foi bem assimilado.

Perante as negociações do governo com Bruxelas, receia que António Costa seja mesmo obrigado a impor mais austeridade?

Abateu-se sobre o governo do PS e o seu esboço de Orçamento uma pressão internacional gigantesca que compreende fugas e intrigas vindas de Bruxelas, chantagem das agências de rating e artigos alarmistas de órgãos de imprensa dos países mais ricos. No plano nacional, o PSD e o CDS, com os setores mais reacionários do grande capital, jogam como é seu hábito com esta pressão internacional para obterem os seus mesquinhamente ganhos partidários. Neste difícil quadro, admiro a forma serena como António Costa tem desdramatizado a situação, não fugindo dos princípios que definiu: respeito pelas regras da União Europeia e fidelidade com os acordos firmados à sua esquerda.


Mantendo-se a pressão, devem o PCP e o Bloco manter a posição de intransigência no que diz respeito ao acordado com o governo?

Na minha opinião, a natureza dos acordos do PS com o PCP, o BE e o PEV tem o pressuposto da negociação permanente, pois é impossível prever todos os dados da situação em que irão sendo realizados. Em cada momento, os quatro parceiros terão de avaliar o que podem e não devem ceder e as compensações que podem ser encontradas, pesar o valor essencial de manter e desenvolver esta solução governativa e calcular as perdas gerais e as de cada um, incluindo em termos de opinião pública, se ela não for avante. Negociar, negociar sempre, é minha essencial resposta.

Olhando para as presidenciais, o que falhou à esquerda para impedir a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa?

Primeiro, a falta de um candidato que, à partida, pudesse ombrear, em termos de notoriedade política, com Marcelo Rebelo de Sousa. Segundo, a incapacidade de, faltando um tal candidato, juntar forças em torno daquele candidato que parecia reunir maior possibilidade de consenso e que, como muitos entendiam, veio a provar-se que era Sampaio da Nóvoa. Os muitos candidatos que se apresentaram à esquerda só serviram para confundir o eleitorado de esquerda e desmotivar a necessidade de mobilização, que era o único caminho para bater Marcelo Rebelo de Sousa. Na minha opinião, toda a esquerda, sem exceção, é responsável pela derrota geral da esquerda.

Edgar Silva teve um resultado muito negativo. Estava à espera de melhor?

Não, não esperava. Julgo que pode deduzir-se da experiência de muitas presidenciais que um candidato do PCP, com a tarefa de "segurar" o eleitorado comunista, deve sair do núcleo central da sua direção. Um candidato em que o eleitorado veja o partido. Quando assim não aconteceu o resultado foi sempre mais fraco, não só agora.

Como explica esta escolha do PCP por Edgar Silva?

Julguei que a ideia era retirá-lo à boca das urnas e apelar ao voto em Sampaio da Nóvoa, tanto mais que, quando foi apresentado, já havia uma forte corrente de simpatia do eleitorado do PCP pela candidatura do antigo reitor da Universidade de Lisboa. Não se esqueça de que ele tinha participado em importantes iniciativas partidárias, especialmente numa de homenagem a Álvaro Cunhal.

Considera que a posição de Jerónimo de Sousa ficou afetada com as presidenciais?

Julgo que Jerónimo de Sousa viu a sua imagem pública muito fortalecida com o acordo firmado com o PS para dar base de sustentação à solução governativa que está à frente do país. Foi ele que lançou a ideia, na noite em que se contavam os votos das legislativas: "O PS só não é governo se não quiser." Para muita gente "o PCP ajudou a dar um governo ao país. Se não fosse ele, não se sabe o que seria". Ora esta imagem também repercute no interior do partido. A derrota nas presidenciais constitui uma grande deceção para os militantes, mas foi, acima de tudo, um erro tático, num quadro político em que toda a esquerda errou. Um acidente de percurso, como lhe tenho chamado.

Não receia que o PCP continue a perder terreno para o Bloco e se torne um partido demasiado pequeno e sem força?

Observo com o maior respeito os resultados do BE nas duas últimas eleições. É um grande sucesso da capacidade política e dos dotes comunicacionais dos seus candidatos, especialmente das suas candidatas, mas também um significativo efeito da renovação da orientação tática e talvez estratégica, também. Mas não receio, assim tanto, que o PCP continue a ficar atrás do BE. O PCP tem uma base organizada e uma influência entre os trabalhadores incomparavelmente superior. Não pode é contentar-se com isso e pensar que as coisas não mudam. Sem medo da "concorrência" e sem perder o que lhe é mais próprio, tem de se abrir ao país e ao mundo, renovar-se permanentemente e ser ousado, corajoso e intenso na tomada de iniciativas. Como podia ter sido, como disse atrás, nas recentes presidenciais. Por este caminho os resultados virão.

Considera necessária a renovação do PCP?

É o que lhe falta, a meu ver: a renovação urgente.



05 DE FEVEREIRO DE 2016
09:12 Sílvia Freches


CARLOS BRITO
PCP


 

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