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20 DE MAIO DE 2019, SEGUNDA FEIRA
FONTE: RC
POR: Paulo Fidalgo
O Sindicalismo face a um governo de convergência à esquerda
As peripécias da luta social e novos fenómenos so sindicalismo são adiante comentados tendo em conta os processos mais recentes.
A reflexão a fazer sobre a crise é saber como responder à frustração dos objetivos dos professores. É que são eles indispensáveis na construção de um bloco orientado para uma alternativa de emancipação. E o seu insucesso, naturalmente, repercute negativamente na vasta aliança que queremos construir para mudar Portugal.
Podemos (e devemos) avaliar o processo.
Há desde logo a interrogação sobre se há maximalismo do lado sindical, entendido como desvalorização de ganhos parcelares contrariando décadas de – boa - prática sindical. Essa experiência diz-nos que não será fácil encontrar na história sindical uma batalha vitoriosa que tenha terminado com a completa conquista de todos as reivindicações.
Podemos compreender como a obstinação dos professores tem origem na brutalidade das políticas da troika. O congelamento da carreira retirou a possibilidade de muitos chegarem ao seu topo antes de se reformarem com total subversão das regras de jogo com que tinham entrado na profissão décadas antes. Podemos igualmente entender como este pormenor negocial constituiu, à sua maneira, uma mera inversão da intransigência do governo que impôs o seu calendário de 2 anos, 4 meses e 18 dias. Porém, a lógica avisa que a inversão do argumento não é a superação da contradição.
A intransigência do governo é vista, desde logo, como a incapacidade do centro-esquerda, com o seu presente peso específico, ir além de um certo limiar. Quer isto dizer que faz falta mais força da esquerda na direção do Estado, concretamente força eleitoral, para que a luta alcance maiores avanços. E é de ter esta necessidade em conta na ação sindical. Isto é: é essencial saber como podem os professores contribuir para o avanço global do processo.
É bom lembrar que a intransigência do governo tem sido arremessada contra os outros trabalhadores do Estado e não apenas os professores. Na verdade, em praticamente caso nenhum aconteceram acordos sindicais nesta legislatura fora dos acordos de 2015. Como se o centro-esquerda, ao conceder nesses acordos, os tivesse transformado em máximos não excedíveis pela movimentação social. É óbvio que, para os trabalhadores, esses acordos não eram máximos e não podiam parar o ímpeto à melhoria da sua situação. A inexistência de negociação frutífera nestes anos gera frustração para milhares de trabalhadores do Estado. Um governo originado em imensa esperança no mundo do trabalho pela inédita e auspiciosa convergência entre o centro-esquerda e a esquerda acaba por redundar em mar de azedume. Esse estado de espírito enfraquece as perspetivas para a mudança.
A presente conflitualidade laboral é inerente à fase em que estamos de relativa expansão do ciclo económico. Sabemos, da economia política, que a fase de expansão se associa com incremento das lutas económicas dos sindicatos pela vantagem gerada na redução do desemprego, reclamando legitimamente a melhoria da sua condição quando há bom tempo na economia.
Os contornos da crise politico-sindical que estamos a viver extravasam contudo a questão dos professores e convoca a nossa reflexão. O sindicalismo de traço neo-corporativo – um sindicalismo que se desliga do interesse geral e se vira para a obtenção de vantagem económica em visão estreita de uma dada corporação - afirmou-se recentemente em vários azimutes.
Não devemos ignorar que essa tendência confronta a visão clássica que combateu à esquerda o “tradeunionismo” e o corporativismo, e defendeu a perspetiva de um sindicalismo entendido como batismo democrático dos trabalhadores e escola de emancipação.
O sindicalismo foi edificado na ideia de que havia um nexo entre interesses económicos imediatos e uma linha geral de avanço social e político. Sem essa conexão, os grupos retrocederiam para corporações tendencialmente em conflito mútuo do tipo distopia hobbesiana, e se constituiriam em viveiro para todas as demagogias e neofascismos.
Quando sindicalistas reclamam contra a suposta interferência política (que não deve confundir-se com partidarismo, desde sempre condenável), o que vemos é a desvalorização de um projeto coletivo para uma sociedade e a rendição desse sindicalismo ao atual estado da sociedade.
Paradoxalmente e involuntariamente, a formação da atual maioria de governo poderá ter facilitado este processo quando as circunstâncias levaram à construção de um acordo que privilegia uma plataforma de forte incidência económica sem ligação a uma ideia geral de evolução do país. A aparente recusa de articulação com a linha geral, política, vem várias vezes a par com a radicalização da luta económica direta, de grupos profissionais restritos, mas sobre-determinantes na produção. Tendencialmente, nota-se também maximalismo nos objetivos económicos e maximalismo e impaciência nas formas de luta com greves sem prazo, greves cirúrgicas, um fenómeno que há décadas não se via e que arrisca derrotas desastrosas para os trabalhadores.
Por outro lado, o PCP e também o BE, falam pouco de questões de ideal o que ajuda a despolitizar e desideologizar a vida social, na verdade abrindo a porta à progressão de ideias e políticas primárias. Este deslize acontece em sindicatos neófitos, de resto jogados para a frente por setores de direita, mas não deixa de contaminar também sindicatos com tradição de luta também.
Ora, para além de explorar as possibilidades da convergência entre o centro-esquerda e a esquerda com a ideia de gerar pontos programáticos mais avançados, há também a necessidade de dotar a agenda política de mais política e de mais projeto, pois só um programa global para a uma sociedade mais justa ajudará a fazer retroceder esta suposta despolitização que afinal não passa de um truque para fazer singrar uma política bem mais retrógrada.


 

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