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04 DE DEZEMBRO DE 2007, TERÇA FEIRA
A entrevista de Bertinotti ao "La Repubblica"
"Para Prodi, o último apelo é sobre os salários!"
Em diálogo público com o aliado da maioria de governo, o partido democrático, Bertinotti esclarece que o reposicionamento estratégico à esquerda apenas começou: "No fim do percurso, quero reconhecer ao Pd o direito de encontrar os aliados que quiser, mas quero garantir para nós o direito de voltar para a oposição".
Bertinotti, o "Fausto Rosso" (Fausto vermelho) é figura deveras incontornável no movimento comunista da actualidade. Protagonista que foi da negação (Aufhebung, a categoria da negação na dialéctica de Hegel e Marx) da descaracterização do PCI quando a sua direcção decidiu o abandono do comunismo, Bertinotti deu expressão à construção de um sujeito político radical, comunista, na esquerda italiana - o Partido da Refundação Comunista. Desde logo apontado igualmente a uma decidida reconfiguração programática do movimento comunista, com especial ênfase no plano do Internacionalismo. É com a acção e visão dos comunistas italianos que surge o projecto em construção do Partido da Esquerda Europeia, força política internacional que ambiciona remodelar a cena europeia por via de um projecto internacionalista de construção do movimento dos trabalhadores, de reclamação de uma nova solidariedade e de uma nova economia política do trabalho à escala continental. Fausto Bertinotti foi o primeiro presidente da Esquerda Europeia e transmitiu recentemente, em Praga, o testemunho da tarefa international ao novo presidente, o alemão Lothar Bisky.

No plano interno, a Refundação é protagonista central da experiência de governo plural de cuja maioria faz parte e através da qual assumiu Bertinotti a presidência da Câmara de Deputados. Trata-se de um fenómeno inédito de favorecimento de uma governabilidade reformadora, por um novo tipo de sujeito político que procura articular a acção social organizada, de massas, com ganhos no Estado, no desenvolvimento da democracia e na remodelação económica. Como seria de esperar, um tal empreendimento é necessáriamente pontuado de incertezas, de desfechos imprevisíveis, arriscados, de eventuais derrotas, embora se frutificar, poderá dar lugar a uma nova consciência política. Consciência de como o agir institucional pode potenciar as reclamações das forças sociais, sindicatos e organizações de trabalhadores.

Na importantíssima entrevista disponível em italiano que concedeu agora ao La Repubblica, Bertinotti cita Lenine acerca da diferença entre estratégia e táctica: "o grande tema para a esquerda radical é só um - a autonomia". Esse propósito deve projectar-se num espaço amplo e num tempo longo, para criar uma grande força europeia para o século XXI. Se é esta a ambição, então, tudo o resto tem de ser repensado. Ser mais ou menos aliado do partido democrático, estar mais dentro ou fora do governo: tudo se deve reposicionar em torno desta chave estratégica.

Em diálogo público com o aliado da maioria de governo, o partido democrático, Bertinotti esclarece que o reposicionamento estratégico à esquerda apenas começou: "No fim do percurso, quero reconhecer ao Pd o direito de encontrar os aliados que quiser, mas quero garantir para nós o direito de voltar para a oposição".

Será, então, que a União de Governo suporte do governo de Prodi, se assemelha a um comboio que está apenas a passar numa estação difícil, ou chegou afinal à estação terminal? Bertinotti responde com frontalidade: "Intelectualmente, já projectei outras" soluções, "mas politicamente ainda não"!. Para o camarada Bertinotti, a táctica impõe ainda o combate dentro do quadro da aliança e dentro do perímetro do governo em funções. Dá nota contudo de que, em Janeiro de 2008, um confronto deve acontecer. Na medida em que se avoluma na sociedade italiana a noção de menor crédito à esquerda por parte deste governo. E continua dizendo que se o governo quiser tentar uma nova fase da sua vida, haverá dois terrenos irrenunciáveis: "os salários e a precariedade!". " É preciso saber se para este governo o facto de 65% da mão-de-obra italiana não ter um contrato é ou não um problema?". E ainda "se a inflação continua em ascenso", o que se pensa da política de preços e ainda, o que "pensa" o governo "do problema dos salários" em baixa?

É óbvio que este questionamento à maioria assume foros de tensão, de um derradeiro apelo de re-orientação sob pena de um ruptura. Ruptura no perímetro da maioria de governo que é explicitamente diferente, contudo, do perímetro parlamentar de reformas do Estado e eleitorais, como admitiu Bertinotti. Será o caso da restauração da proporcionalidade eleitoral, por exemplo, onde forças mais amplas poderão estar interessadas como o "il cavalieri", o cognome de Berlusconi, um animal político da direita em processo de reorganização face à fragmentação no centro-direita.

Da leitura da entrevista, disponível em italiano , fica-se a compreender um pouco melhor como pode uma força política orientada para a superação radical do capitalismo, combinar a luta institucional, o debate democrático no espaço político do Estado, com a luta popular, de rua, as acções de greve e de manifestação nas cidades italianas. Compromisso e apego às reformas, força reivindicativa e geração de remodelação política são elementos de sinergia, desde que cometidos a uma desciplina estratégica inviolável: a construção de um sujeito político internacionalista na cena política europeia do século XX!

A experiência da Refundação aqui plasmada mostra como o caminho para ultrapassar o bloqueio político à luta popular - luta de rua que só vinha conseguindo momentâneos sucessos, mas raramente ou nunca, imprimia reformas mais alargadas no Estado, na economia e na política - tem potencial de acumulação sinérgica de força popular, desde que a disciplina estratégica e arte táctica sejam respeitadas de acordo com a tradição de Lenine. Tem igualmente riscos, perigos de retrocesso, de soluções espúrias ou criticáveis em compromissos porventura mal concebidos ou subordinações iníquas. Todas as variantes poderão suceder numa razoável imprevisibilidade histórica, de resto. Porém, o que é previsível e razoável é esperarmos que, a despeito de toda a incerteza e risco, a história que activamente construímos venha de facto a estar do nosso lado.


 

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