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12 DE OUTUBRO DE 2008, DOMINGO
Tudo o que você quer saber sobre a origem da crise e teme não entender
Por Walden Bello (*)
Economista e cientista político filipino, Walden Bello — um crítico agudo do conservadorismo neoliberal – explica, na forma popular de perguntas e respostas, as razões e os fundamentos da crise financeira iniciada em Wall Street. Tradução do Vermelho, a partir da versão espanhola da Revista Sin Permiso
O pior já passou?

Não. Se algo ficou claro com os movimentos contraditórios desta semana em que, enquanto se permitia a quebra do Lehman Brothers, a AIG foi nacionalizada e o Bank of America assumiu o controle da Merril Lynch, isto significa que não há uma estratégia para enfrentar a crise; unicamente respostas tácticas, como bombeiros que tentam apagar um incêndio.
O resgate de 700 mil milhões de dólares [Este artigo foi escrito antes da aprovação final do pacote de salvação dos banqueiros que, afinal, chegou a 850 mil milhões - nota da redacção de Vermelho] dos títulos com garantia hipotecária em poder dos bancos não é uma estratégia mas, basicamente, um esforço desesperado para restaurar a confiança no sistema, para evitar a erosão da fé nos bancos e outras instituições financeiras, e para evitar uma corrida para a retirada dos fundos dos bancos como a que desencadeou a Grande Depressão de 1929.

O que causou o colapso do centro nevrálgico do capitalismo global? Foi a ganância?

A velha e venerada ganância teve sua parte. A isto se referia Klaus Schwab, o organizador do Fórum Económico Mundial, o encontro da elite global celebrado anualmente nos Alpes suíços, quando disse este ano à sua clientela em Davos: “temos que pagar pelos pecados do passado”.

Tentou a Wall Street ser mais esperta do que permitia a sua capacidade?

Efectivamente. Os especuladores financeiros tanto fizeram que até se confundiram a si próprios com a criação de contratos financeiros cada vez mais complexos, como os derivados, tratando de ganhar dinheiro a partir de todo tipo de riscos (incluindo os exóticos instrumentos de futuros), como credits default swaps ou contratos de protecção de derivados de crédito, que permitiam aos investidores apostar, por exemplo, que aqueles a quem a própria instituição bancária tinha emprestado dinheiro não seriam capazes de pagar seus empréstimos! Este foi o comércio multimilionário não regulado que acabou por derrubar a AIG. Em 17 de Dezembro de 2005, quando a International Financing Review (IFR) anunciou os seus prémios anuais, escreveu num dos programas de prémios mais prestigiados do sector, o seguinte:

”Lehman Brothers não só manteve a sua presença global no mercado, como também dirigiu a penetração no espaço de preferência... desenvolvendo novos produtos e desenhando transacções capazes de atender às necessidades dos que recebiam os empréstimos... Lehman Brothers é o mais inovador nesse espaço justamente por fazer coisas que não se vê em nenhum outro sítio”. Nem é preciso comentar...

Houve falta de regulação?

Sim. Todo mundo reconhece agora que a capacidade de Wall Street para inovar e imaginar instrumentos financeiros cada vez mais sofisticados foi muito além da capacidade reguladora do Estado, e não porque o Estado não fosse capaz de regular, mas porque a atitude neoliberal de laissez-faire imperante impediu ao Estado criar mecanismos efectivos de regulação.

Mas não há mais nada? Não há nada sistémico?

Bem, George Soros disse que o que vivemos é uma crise do sistema financeiro, uma crise do “gigantesco sistema circulatório” de um “sistema capitalista global... que está arrebentando pelas costuras”. Para ficar com a ideia do grande especulador, o que estamos assistindo é a intensificação de uma das crises ou contradições centrais do capitalismo global, que é a crise de superprodução, também conhecida como superacumulação.

Diz respeito à tendência do capitalismo de construir uma enorme capacidade produtiva que termina por rebaixar a capacidade de consumo da população devido às desigualdades que limitam o poder de compra popular, e isso acaba por corroer as taxas de lucro.

Mas o que é que a crise de superprodução tem a ver com os acontecimentos recentes?

Muitíssimo. Mas, para entender a conexão, temos que voltar para a chamada Era Dourada do capitalismo contemporâneo, o período que vai de 1945 a 1975. Foi um período de rápido crescimento, tanto nas economias centrais como nas subdesenvolvidas, um crescimento impulsionado, em parte, pela massiva reconstrução da Europa e do Leste asiático após a devastação da Segunda Guerra Mundial, e em parte, pela nova configuração socio-económica institucionalizada sob o novo estado keynesiano. Um aspecto chave da responsabilidade deste foi os severos controlos estatais da actividade do mercado, o uso agressivo de políticas fiscais e monetárias para minimizar a inflação e a recessão, bem como um regime de salários relativamente altos para estimular e manter a procura.

O que aconteceu, então?

Bem, este período de elevado crescimento terminou em meados dos anos 1970, quando as economias do centro se viram imersas na estagflação, isto é, na coexistência de um baixo crescimento com uma inflação alta – o que a teoria económica neoclássica supunha que fosse impossível. Contudo, a estagflação não era senão o sintoma de uma causa mais profunda, a saber: a reconstrução da Alemanha e do Japão, assim como o rápido crescimento de economias em vias de industrialização, como Brasil, Taiwan e Coreia do Sul, adicionou uma enorme capacidade produtiva e incrementou a concorrência global, enquanto que a desigualdade social, dentro de cada país, e entre os países, limitou globalmente o incremento do poder aquisitivo e da procura, do que resultou a erosão da taxa de lucros. A drástica subida do preço do petróleo nos anos 70 só agravou a situação.

Como é que o capitalismo tratou de resolver a crise de superprodução?

O capital ensaiou três vias de saída do atoleiro: a reestruturação neoliberal, a globalização e a financeirização.

Em que constituiu a reestruturação neoliberal?

A reestruturação neoliberal tomou a forma do reaganismo e do thatcherismo no Norte e do ajuste estrutural no Sul. O objectivo era a revigorar a acumulação de capital, o que se conseguiu: 1) removendo as restrições estatais ao crescimento, ao uso e ao fluxo de capitais e de riqueza; 2) redistribuindo os rendimentos das classes pobres e médias aos ricos, de acordo com a teoria de que assim se motivaria aos ricos para investir e alimentar o crescimento económico. O problema desta fórmula era que, ao redistribuir os rendimentos a favor dos ricos, se estrangulava os rendimentos dos pobres e das classes médias, e isso provocava a restrição da procura, sem necessariamente induzir aos ricos a investir mais na produção.

De fato, a reestruturação neoliberal, que se generalizou no Norte e no Sul durante os anos 80 e 90, teve alguns escassos registros em termos de crescimento. O crescimento global médio foi de 1,1% nos anos 90 e de uns 1,4% nos anos 80, enquanto que nos anos 60 e 70, quando as políticas intervencionistas eram dominantes, foi respectivamente de 3,5% e de 2,54%. A reestruturação neoliberal não pôde colocar um fim à estagflação.

Em que medida a globalização foi uma resposta para a crise?

A segunda via de escapa global ensaiada pelo capital para enfrentar a estagflação foi a “acumulação extensiva” ou globalização, isto é, a rápida integração das zonas semicapitalistas, não-capitalistas e precapitalistas na economia global de mercado. Rosa Luxemburg, a celebrada economista e revolucionária alemã, descreveu este mecanismo há muito tempo, vendo-o como um mecanismo necessário para restaurar a taxa de lucro nas economias das metrópoles. Como? Acedendo ao trabalho barato; ganhando mercados novos, mesmo que limitados; ganhando novas fontes de produtos agrícolas e de matérias-primas baratas; e criando novas áreas para investimento em infra-estrutura. A integração produz-se através da liberalização do comércio, removendo os obstáculos para a mobilidade do capital e abolindo as fronteiras para o investimento estrangeiro.

A China, não é preciso dizer, é o caso mais destacado de uma área não capitalista integrada na economia capitalista global nos últimos 25 anos.

Para neutralizar seus lucros que vinham a declinar, um considerável número de corporações empresariais situadas entre as primeiras 500 do ranking da revista Fortune mudou parte significativa de suas operações para a China, para aproveitar as vantagens do chamado “preço chinês” ( as vantagens derivadas do custo barato do trabalho chinês parecem inesgotáveis). Em meados da primeira década do século XXI, entre 40 e 50 por cento dos lucros das empresas dos Estados Unidos vinham das suas operações e vendas no exterior, e principalmente, da China.

Por é que a globalização não pode superar a crise?

O problema desta via de saída para a estagnação é que ela exacerba o problema da superprodução, porque acrescenta capacidade produtiva. A China dos últimos 25 anos acrescentou um tremendo volume de capacidade manufactureira, o que teve o efeito de deprimir os preços e os lucros. Não foi por acaso que os lucros das empresas dos Estados Unidos deixaram, desde 1997, de crescer. De acordo com um índice estatístico, as taxas de lucro das 500 maiores, da Fortune, passou de 7,15% em 1960-69 para 5,30% em 1980-90, para 2,29% em 1990-99 e para 1,32% em 2000-2002. Dados os limitados ganhos obtidos, que fossem capazes de conter o impacto depressivo da superprodução, seja pela reestruturação neoliberal ou pela globalização, a terceira via de saída tornou-se vital para manter e elevar a rentabilidade. Esta terceira via é a financeirização. No mundo ideal da teoria económica neoclássica, o sistema financeiro é o mecanismo graças ao qual os poupadores, ou quem se ache na posse de fundos excedentes, se juntam aos empresários que precisam de seus fundos para investir na produção. No mundo real do capitalismo tardio, com o investimento na indústria e na agricultura alcançando magros lucros por causa da superprodução, grandes quantidades de fundos excedentes circulam e são investidos e reinvestidos no sector financeiro. Isto é, o sistema financeiro gira sobre si mesmo.

O resultado é que se alarga o hiato aberto entre uma economia financeira hiperactiva e uma economia real em estagnação. Como bem observou um executivo financeiro: “tem havido uma crescente desconexão entre a economia real e a economia financeira nestes últimos anos. A economia real cresceu, mas nada comparável à economia financeira... até que estourou”. O que este observador não disse é que a desconexão entre a economia real e a economia financeira não é acidental: que a economia financeira disparou precisamente para fazer frente à estagnação originada na superprodução da economia real.

Quais foram os problemas da financeirização como via de saída para a estagnação?

O problema de investir em operações do sector financeiro é que equivale a exprimir valor a partir de valor já criado. Pode trazer ganhos, é certo, mas não cria valor novo – só a indústria, a agricultura, o comércio e os serviços criam valor novo. Uma vez que os lucros não se baseiam na criação de valor novo, ou agregado, as operações de investimento acabam sendo extremamente voláteis, e os preços das acções, das obrigações e de outras formas de investimento podem chegar a divergir radicalmente de seu valor real. Por exemplo, as acções de empresas emergentes da Internet, que se mantiveram em alta por algum tempo, sustentadas principalmente por valorizações financeiras em espiral, caíram pouco depois. Os lucros dependem, então, do aproveitamento das vantagens oferecidas pelos movimentos de preços que jogam para cima o valor das mercadorias, para vender oportunamente antes que a realidade force a “correcção” para baixo, para ajustar aos valores reais. Esta alta radical dos preços de um activo, muito além dos valores reais, é o que se chama a formação de uma bolha.

Porque é que a financeirização é tão volátil?

Com a rentabilidade dependente de golpes especulativos, não surpreende que o sector financeiro vá de bolha em bolha, ou de uma mania especulativa para outra.

Assim, sustentado por uma mania especulativa, o capitalismo induzido financeiramente não deixou de registrar crises financeiras desde que os mercados de capitais foram desregulados e liberalizados nos anos 80.
Antes da actual queda Wall Street, as crises mais explosivas foram a mexicana de 1994-95, a crise financeira asiática de 1997-1998, a crise financeira russa de 1996, o colapso do mercado de valores de Wall Street em 2001 e colapso financeiro argentino de 2002. O antigo secretário do Tesouro de Bill Clinton, um homem de Wall Street – Robert Rubin —, predisse há cinco anos que “as crises financeiras futuras serão, quase com toda certeza, inevitáveis, e poderão chegar a ser piores”.

Como se forma, crescem e estouram as bolhas?

Vamos tomar como exemplo a crise financeira asiática de 1997-1998.
•Primeiro: balança de pagamentos e liberalização financeira impostos pelo FMI e pelo Departamento do Tesouro dos EUA.
•Depois, entrada de fundos estrangeiros em busca de rentabilidade rápida e elevada, o que significa que entraram no mercado imobiliário e nas bolsas de valores.
•Superinvestimento, o que levou à queda dos preços no mercado de valores e no mercado imobiliário, o que, por sua vez, conduziu ao pânico e à consequente retirada dos fundos: em 1997, em poucas semanas, 100 mil milhões de dólares abandonaram as economias do Leste asiático.
•Resgate dos especuladores estrangeiros por parte do FMI.
•Colapso da economia real: a recessão se estende por todo o Leste asiático em 1998.
•Apesar da desestabilização em grande escala, todas as tentativas feitas para impor regulações nacionais ou globais do sistema financeiro foram rejeitadas com razões puramente ideológicas.

Voltemos à presente bolha. Como se formou?

O actual colapso de Wall Street está enraizado na bolha tecnológica do final dos anos 90, quando o preço das acções das empresas emergentes no mundo da Internet disparou, para cair logo em seguida, levando à perda de activos no valor de 7 biliões de dólares e à recessão de 2001-2002.
As frouxas políticas monetárias da Reserva Federal sob Alan Greenspan estimularam a bolha tecnológica, e quando esta entrou em colapso levando à recessão, Greenspan, para evitar uma recessão duradoura, em Junho de 2003 baixou as taxas de juros para um nível sem precedentes em 45 anos (a 1%), mantendo este nível durante mais de um ano. E, com isso, o que conseguiu foi estimular a formação de outra bolha, a bolha imobiliária. Já em 2002, economistas como Dean Baker, do Center for Economic Policy Research, alertaram sobre a formação de uma bolha imobiliária. Mais tarde, em 2005, o então presidente do Conselho Económico de assessores da Presidência dos EUA, e actual presidente da Reserva Federal, Bern Bernanke, atribuía o aumento dos preços das residências, nos EUA, a “uns fundamentos económicos robustos”, e não à actividade especulativa. A quem pode surpreender que o estouro da crise dos subprime no Verão tenha atingido este homenzinho com a guarda totalmente em baixo?

E como cresceu ela?

Ouçamos da boca de um dos próprios jogadores chave dos mercados, George Soros: “As instituições hipotecárias incentivaram aos hipotecados refinanciarem as suas hipotecas aproveitando a revalorização das suas casas. Rebaixaram seus critérios de empréstimos e introduziram novos produtos, como hipotecas com juros variáveis, como hipotecas que “só rendiam juros” e “ofertas promocionais” com taxas de juros de causar risos. Tudo isso incentivou a especulação com as moradias. Os preços das casas começaram a subir ao ritmo de dois dígitos. Isto serviu para alimentar retroactivamente a especulação, e a alta dos preços imobiliários fez com que os proprietários das casas se sentissem ricos; o resultado foi o boom consumista que sustentou a economia nestes últimos anos.”

Observando as coisas mais de perto, pode-se ver que a crise hipotecária não foi resultado de uma oferta maior do que a procura real. A “procura” estava, há muito, fabricada pela mania especulativa de corretores e financistas empenhados em conseguir grandes ganhos a partir de seu acesso ao dinheiro estrangeiro que inundou os EUA na última década. Enormes volumes hipotecários foram agressivamente oferecidos e vendidos a milhões de pessoas que, em condições normais não teriam condições de contratá-los, e a taxas de juros ridiculamente baixas, mas posteriormente reajustáveis, para tirar mais dinheiro dos proprietários das casas.

Como foi possível que as hipotecas subprime degenerassem em um problema de tais dimensões?

Porque os activos financeiros passaram então a serem “securitizados”: aqueles que haviam gerado as hipotecas passaram a misturá-las com outros activos em complexos produtos derivados chamados “obrigações de dívida colateralizada” (CDO, na sigla em inglês). Isso não foi difícil pois trabalhavam com diferentes tipos de intermediários que, conhecedores do risco, se desfaziam destes títulos o mais rapidamente possível, passando-os a outros bancos e investidores institucionais. Estas instituições, por sua vez, se desfaziam desses produtos passando-os a outros bancos e instituições financeiras estrangeiras.

Quando aumentaram as taxas de juro dos empréstimos subprime, das hipotecas variáveis e de outros empréstimos imobiliários, o jogo chegou ao fim. Há cerca de 6 milhões de hipotecas subprime, das quais 40% não serão cumpridas nos próximos dois anos, segundo estimativa de Soros.

A elas deve-se juntar outras 5 milhões que estarão na mesma situação nos próximos 7 anos, derivados das taxas de juros hipotecários variáveis e de outros “empréstimos flexíveis”. Mas os títulos, cujo valor se conta por biliões de dólares, já se infiltraram como um vírus no sistema financeiro global. O gigantesco sistema circulatório do capitalismo global foi fatalmente infectado.

b]Mas como puderam os titãs de Wall Street desabar como um castelo de cartas?

O que aconteceu com Lehman Brothers, Merrill Lynch, Fannie Mae, Freddie Mac e Bear Stearns foi, simplesmente, que as perdas representadas por estes títulos tóxicos rebaixaram muito suas reservas, o que levou à sua queda. E cairão mais, provavelmente, quando seus livros de contabilidade, nos quais agora estes títulos estão registrados na coluna Haver, forem corrigidos para reflectir o actual valor desses activos. E muitos outros seguirão o mesmo caminho, na medida em que forem ficando expostas a outras operações especulativas, como as centradas nos cartões de crédito e nas diferentes variedades de seguros contra riscos. A AIG caiu devido à sua gigantesca exposição na área não-regulada dos contratos de protecção creditícia derivada (credit default swaps), uns derivados financeiros que permitiam aos investidores apostar dinheiro na possibilidade das empresas não poderem pagar os seus empréstimos.
Tais apostas sobre incumprimento creditício representam agora um mercado de 45 biliões de dólares, um mercado, como disse, fora de qualquer regulação. A ciclópica dimensão dos activos que poderiam ser prejudicados no caso do colapso da AIG foi o que moveu o governo de Washington a mudar de ideia e intervir para resgatá-lo, logo após ter deixado a Lehman Brothers quebrar.

O que vai acontecer agora?

Pode-se dizer que haverá mais bancarrotas e mais nacionalizações e intervenções públicas, com as instituições e os bancos estrangeiros desempenhando um papel auxiliar do governo dos EUA. Que o colapso de Wall Street continuará e vai prolongar a recessão nos Estados Unidos. E que essa recessão nos EUA vai contaminar a Ásia e o resto do mundo, que também sofrerá uma recessão, senão algo pior. A razão disto é que o principal mercado exterior da China são os EUA e que a China, por sua vez, importa matérias primas e bens intermediários – que usa em suas exportações para os EUA – do Japão, Coreia e do Sudeste asiático. A globalização tornou impossível o “descolamento”. Os EUA, a China e o leste asiático andam agora como três prisioneiros presos a uma mesma corrente.

Em suma?

A queda de Wall Street deve-se não só à ganância e à falta de regulação estatal de um sector hiperactivo. O colapso de Wall Street tem suas raízes na crise de superprodução que foi a praga do capitalismo global desde meados da década de 1970. A financeirização do investimento foi uma das vias de escape para sair da estagnação, sendo as outras duas a reestruturação neoliberal e a globalização. Como a reestruturação neoliberal e a globalização significaram um alívio pequeno para a estagnação, a financeirização pareceu atraente como mecanismo de restauração da rentabilidade. Mas o que agora ficou demonstrado é que a financeirização é uma rota perigosa, que leva à formação de bolhas especulativas, capazes de oferecer uma efémera prosperidade a uns quantos, mas que terminam no colapso empresarial e na recessão da economia real.

As questões chaves são estas: Quão profunda e duradoura será esta recessão? A economia dos EUA vai precisar de gerar outra bolha especulativa para sair desta recessão? E se for este o caso, onde se formará esta bolha? Alguns dizem que a próxima bolha surgirá no complexo militar-industrial ou no “capitalismo do desastre” sobre o qual escreve Naomi Klein. Mas isto é farinha de outro saco.


(*) Walden Bello é professor de ciências políticas e sociais na Universidade das Filipinas (Manila); é membro do Transnational Institute de Amsterdam, presidente de Freedom from Debt Coalition, e analista sénior no Focus on the Global South.

A versão espanhola foi publicada na Revista Sin Permiso (05/10/08).

Traduzido do espanhol por José Carlos Ruy para Vermelho (11/10/08). Adaptação ao português, de Portugal, por JNF
Existe também uma tradução para português na Agência Carta Maior (7/10/08)


 

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