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22 DE OUTUBRO DE 2008, QUARTA-FEIRA
A depressão, uma visão a longo prazo
Immanuel Wallerstein *
Depois de termos apresentado a entrevista que Imannuel Wallerstein concedeu ao jornal Le Monde (11/10/08) sobre o fim do capitalismo, publicamos hoje em português um artigo complementar, publicado inicialmente no jornal mexicano La Jornada (19/10/08): “A depressão já começou. Um tanto coibidos, os jornalistas perguntam aos economistas se não estaríamos apenas a entrar numa mera recessão. Não acreditem neles nem por um minuto. Estamos já no começo de uma depressão mundial de grande envergadura, com desemprego massivo em quase todo a parte. Pode assumir a forma de uma deflação nominal clássica, com todas suas consequências negativas para a gente comum. É um pouco menos provável que assuma a forma de inflação galopante, que é simplesmente outro forma pela qual os valores caiem, o que inclusive é o pior para as pessoas comuns.”
É claro que todo o mundo pergunta o qual foi a causa desta depressão. Serão os instrumentos derivados, que Warren Buffet chama as "armas financeiras de destruição massiva"? Ou são por acaso as hipotecas de segundo grau? Ou os especuladores do petróleo? Descobrir quem tem a culpa não tem importância real. Isso é concentrarmo-nos na poeira, que era o nome que Fernand Braudel dava aos acontecimentos de curta duração. Se queremos perceber o que está acontecendo, precisamos analisar outras duas temporalidades, que são muito mais reveladoras. Uma é a dos vai-e-vem cíclicos de média duração. A outra é a das tendências estruturais de longa duração.

A economia-mundo capitalista teve, durante centenas de anos, ao menos, duas formas importantes de vai-e-vem cíclicos. Uma são os chamados ciclos de Kondratieff, que historicamente tinham uma duração de 50-60 anos. A outra são os ciclos hegemónicos, muito mais duradouros.

Em termos dos ciclos hegemónicos, os Estados Unidos lutaram para conquistar a referida hegemonia aí por volta de 1873, conseguiram a sua dominação hegemónica em 1945 e desde os anos 70 que têm vindo a declinar. As loucuras de George W. Bush transformaram esse lento declínio em algo precipitado. E agora estamos já longe de qualquer indício de hegemonia dos Estados Unidos. Entramos, como ocorre normalmente, em um mundo multipolar. Os Estados Unidos permanecem como uma potência forte, talvez a mais forte, mas continuarão a declinar em relação às outras potências nas próximas décadas. Não há muito a fazer para que se possa mudar isso.

Os ciclos de Kondratieff têm uma temporalidade diferente. O mundo saiu da última fase B do ciclo Kondratieff em 1945, e então veio a queda mais forte até a fase A na história do sistema-mundo moderno. Chegou a seu clímax por volta de 1967-73, e começou o seu decrescendo. Esta fase B foi muito mais longa que as fases B anteriores e continuamos nela.

As características de uma fase B de Kondratieff são bem conhecidas e coincidem com o que a economia-mundo experimentou desde os anos 70. As taxas de juros nas actividades produtivas baixam, especialmente naqueles tipos de produção que foram as mais rentáveis. Em consequência, os capitalistas que desejarem níveis de juros realmente altos optam pelo mercado financeiro e se envolvem no que basicamente é a especulação. Para que as actividades produtivas não se tornem tão pouco rentáveis, tendem a mover-se das zonas centrais para outras partes do sistema-mundo, negociando custos menores de transacção por custos menores de pessoal. É por isso que começam a desaparecer os empregos em Detroit, Essen e Nagoya, e que se expandem as fábricas na China, na Índia e no Brasil.

No que diz respeito às bolhas especulativas, algumas pessoas sempre conseguem muito dinheiro a partir delas. Mas cedo ou tarde essas bolhas estouram. Se alguém pergunta porque é que essa fase B do ciclo Kondratieff durou tanto, é porque os poderes existentes – o Departamento de Tesouro e a Reserva Federal dos Estados Unidos, o Fundo Monetário Internacional e seus colaboradores na Europa ocidental e no Japão – intervieram no mercado de modo regular e importante para levar a bom porto a economia-mundo - em 1987, ao cair o mercado bolsista; em 1989, no colapso dos empréstimos nos EUA; em 1997, na crise financeira na Ásia oriental; em 1998, pela má administração dos chamados fundos de maneio de capitais de longo prazo; em 2001-02, com a Enron. Aprenderam as lições das anteriores fases B de Kondratieff, e os poderes existentes pensaram que poderiam vencer o sistema. Mas há limites intrínsecos para fazer isso. E agora chegamos a eles, como Henry Paulson e Bem Bernanke estão aprendendo para sua vergonha e talvez para seu assombro. Desta vez não será tão fácil, provavelmente é impossível, evitar o pior.

No passado, cada vez que uma depressão começava a fazer os seus estragos, a economia-mundo levantava-se, sobre a base de inovações que podiam ser quase monopolizadas por um período. Assim, quando dizem que o mercado da bolsa de valores voltará a subir, é nisso que pensam, que desta vez será como no passado, depois das populações do mudo tenham sentido todo o dano causado.

Há, no entanto, algo novo que pode interferir nesse belo padrão cíclico que sustentou o sistema capitalista por 500 anos. As tendências estruturais podem interferir com as tendências cíclicas. Os rasgos estruturais básicos do capitalismo como sistema-mundo operam mediante certas regras que podem ser traçadas em um gráfico como um equilíbrio em movimento ascendente. O problema, como com todos os equilíbrios estruturais de todos os sistemas, é que com o tempo as curvas se movem muito mais além do equilíbrio e se torna impossível regressá-las a este. Durante alguns anos, talvez suceda isso ou qualquer coisa semelhante.

Há, no entanto, algo novo que pode interferir nesse belo padrão cíclico que sustentou o sistema capitalista durante 500 anos. As tendências estruturais podem interferir com as tendências cíclicas. Os rasgos estruturais básicos do capitalismo como sistema-mundo operam mediante certas regras que podem ser traçadas num gráfico como um equilíbrio em movimento ascendente. O problema, como com todos os equilíbrios estruturais de todos os sistemas, é que com o tempo as curvas se movem muito mais para além do equilíbrio e se torna impossível fazê-las regressar a este.

O que fez com o sistema s fastasse tanto do equilíbrio? Em resumo, o que ocorre é que ao longo de 500 anos os três custos básicos de produção capitalista – pessoal, preços e impostos – subiram constantemente como percentagem dos preços possíveis de venda, de tal modo que hoje é quase impossível obter grandes ganhos pela produção monopolista, que sempre foi a base da acumulação capitalista significativa. Não é porque o capitalismo esteja falhando no que faz de melhor. É precisamente porque o está fazendo tão bem que finalmente minou a base de acumulações futuras.

O que ocorre quando alcançamos um ponto assim é que o sistema se bifurca (na linguagem dos estudos de complexidade). As consequências imediatas são uma turbulência altamente caótica, que nosso sistema-mundo está experimentando neste momento e que seguirá experimentando por mais 20 a 50 anos. Como todos empurram em qualquer direcção que pensam que é melhor neste momento, emergirá uma ordem do caos em um dos muito diferentes caminhos alternativos.

Podemos asseverar com confiança que o presente sistema não sobreviverá. O que não podemos prever é qual a nova ordem que será eleita para substitui-lo, porque esse será o resultado de uma infinidade de pressões individuais. Mais cedo ou mais tarde, um novo sistema instalar-se-á. Não será um sistema capitalista, mas pode ser algo muito pior (ainda mais polarizado e hierárquico) ou muito melhor (relativamente democrático e relativamente igualitário) que o dito sistema. Decidir o novo sistema é a luta política mundial mais importante de nossos tempos.

No que diz respeito às perspectivas de curta duração ad interim, é claro o que ocorre em todas as partes. Temo-nos estado a mover para um mundo proteccionista (esqueçam a chamada globalização). Temo-nos estado a mover para um papel muito maior do governo na produção. Ainda por cima os EUA e a Inglaterra estão nacionalizando parcialmente os bancos e algumas moribundas grandes empresas. Movemo-nos até uma distribuição populista conduzida pelo governo, que pode assumir modos social-democratas à esquerda do centro ou formas autoritárias de extrema-direita. E nos movemos em direcção a conflitos sociais agudos no interior de alguns Estados, pelo fato de que todos competirem por um bolo mais pequeno. A curto prazo, não é, de modo algum, um panorama agradável.

* sociólogo norte-americano, é professor da Universidade de Yale

Tradução para o espanhol: Ramón Vera Herrera
Tradução para o português: Fernando Damasceno, em o Vermelho, revisão para português de Portugal por JNF.
Existe também uma tradução para português na Agência Carta Maior. O título do artigo nesta tradução é Depressão, uma visão de longa duração.
Com o mesmo título há igualmente uma tradução para português de Luis Leiria no Esquerda.net


 

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