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25 DE ABRIL DE 2007, QUARTA-FEIRA
por Luís Carvalho
Boris Ieltsin:“um desastre na história russa”
Ieltsin acabou por ser um agente dos novos oligarcas e antigos burocratas que mandaram às malvas a farsa de socialismo da URSS, na verdade um capitalismo de estado, e se converteram ao capitalismo privado, literalmente assaltando o Estado e a população.
Boris Ieltsin
“um desastre na história russa”

O facto de Boris Ieltsin ter falecido não é razão para apagar a memória do seu papel na história.
Não foi o coveiro de nenhum regime socialista, coisa que a URSS não era. Nem foi o construtor de uma democracia, que abateu a tiros de canhão.
Depois de ter feito carreira no Partido “Comunista” da URSS, Ieltsin teve o mérito de participar, ao lado de Mikhail Gorbatchov, no início, 1985-7, da tentativa de reforma democratizante da URSS - a Perestroika. Notabilizou-se pelas suas críticas contudentes aos privilégios da classe dominante, a burocracia estatal, de que fazia parte.
Mas acabou por ser um agente dos novos oligarcas e antigos burocratas que mandaram às malvas a farsa de socialismo da URSS, na verdade um capitalismo de estado, e se converteram ao capitalismo privado, literalmente assaltando o Estado e a população. Tornando-se numa classe dominante muito mais restricta e privilegiada do que a anterior.
Ieltsin soube aproveitar-se da tentativa de golpe de Agosto de 1991 para conseguir um dos objectivos dos golpistas: afastar Gorbatchov. Mas na ânsia de derrubar Gorbatchov, e alcançar o poder supremo, numa ambição mórbida, Ieltsin não hesitou em destruir o Estado federal da URSS, e em desorganizar o próprio Estado russo de que era presidente, alimentando os nacionalismos, inclusive na Tchetchénia.
Em 1991 a economia da URSS estava em crise, mas ainda funcionava razoavelmente, e com um grande potencial industrial. Uma vez derrubado Gorbatchov, Ieltsin conduziu o país para um capitalismo selvagem que causou mais destruição na economia russa do que a invasão nazi na 2º guerra mundial. E lançou a esmagadora maioria do povo na miséria, destruindo direitos e garantias sociais que apesar de tudo tinham sido conseguidos no anterior regime.
Em Outubro de 1993, Ieltsin não hesitou em violar a constituição e matar centenas de pessoas ao encerrar a tiros de canhão o parlamento que o elegera presidente da Rússia. Não destruiu completamente o pluralismo e algumas liberdades conquistadas com a Perestroika. Mas criou um regime mafioso, uma farsa de democracia. Em 1996 o PC russo teria muito provavelmente regressado ao poder se as eleições não tivessem sido descaradamente adulteradas.
Em 1994 Ieltsin deu início à guerra da Tchetchénia, mais assassina do que a guerra do Afeganistão a que a Perestroika pôs termo.
Pela forma como espatifou a Rússia, e pelo seu servilismo perante os EUA, Ieltsin pôs fim ao clima de desanuviamento criado pela Perestroika, e escancarou o caminho à arrogância desmedida dos EUA, com os resultados que estão á vista no Iraque.
Atente-se no seguinte testemunho de um antigo apoiante de Ieltsin:
«Oleg Rumiantsev tentou criar um partido social-democrata durante o período da Perestroika. É um dos poucos políticos russos que nunca pertenceram ao Partido Comunista. “Sempre estive na oposição”, (...). Os anos 80 foram o único período em que pôde exprimir as suas ideias. (...) “Desde Outubro de 93, nunca mais tive acesso aos media. Houve uma traição da democracia que existiu nos anos 80, ainda sob o comunismo. Hoje só os ocidentalistas radicais podem exprimir-se”.
Rumiantsev não compreende a tese de que se teve de suprimir a democracia para que os comunistas não voltassem ao poder e a suprimissem para sempre. “Eu vi a democracia a funcionar neste país, sob o comunismo. No final dos anos 80 havia democracia. No início dos anos 90 foi suprimida. Os intelectuais, os professores, não têm uma palavra a dizer. Só a têm os ricos e os criminosos. O que aconteceu foi uma grande revolução criminal”.
Rumiantsev apoiou Gorbatchov, depois apoiou Ieltsin, depois (...) cortou com todos. O que correu mal?
“Tudo correu mal. Tudo. A culpa foi de Ieltsin, que foi um desastre na história russa.» ( in Público, 5/7/1996)


 

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