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23 DE ABRIL DE 2007, SEGUNDA FEIRA
por Cipriano Justo
Abril 33
Com esta intervenção inauguramos um espaço de participação semanal de comentadores "residentes" que tem por objectivo avaliar aspectos da conjuntura política.
Em Abril, o primeiro dever de um comunista é celebrar a liberdade. Sem queixumes dos passivos ou nostalgias do futuro. A vida e as vidas fazem-se todos os dias e vale a pena deitarem-se as contas na medida em que as somas ou as diferenças contribuam para dar mais rigor á acção, iluminar as distâncias, detectar os sinais que hão-de ser a norma, fugaz, ou identificar as marcas deixadas pelo movimento que está para chegar. É um exercício que requer um esforço metódico e exaustivo de recombinação do que se sabe. É também um acto de dilaceração das condições em que se produziram as condições que dão sentido ao que agora é insuspeito e tem sentido. Desmentíveis como uma desigualdade são as fórmulas que pela sua simplicidade e equívoca facilidade se tornam arbitrárias e ficam insensíveis à passagem do que factualmente acontece. Como as ficções, criaram raízes e cresceram no ambiente soturno dos salões onde se aguarda pela chegada dos mitos que tornarão desconhecidos para sempre, para sempre, os lugares mais iníquos. São mais irreais do que a Ítaca de Kavafis: Ítaca deu-te essa viagem esplêndida/sem Ítaca, não terias partido. / Mas Ítaca não tem mais nada para te dar. Descrevem um roteiro inominável, mais provável do que real, e os que por ele são tentados a meter-se ao caminho vão deixando à passagem as impressões pelo que só tem começo ou pela breve espera dos próximos passos. Retratam cenas vulgares, acontecimentos perdidos, lugares já remotos, deslocados dos sítios para onde converge o olhar de quem se detém para capturar mais pormenores sobre a recomposição da matéria. Há nelas uma mistura de euforia e perplexidade, de certeza e imprecisão quanto ao que ainda há para fazer, de tal maneira disfarçadas e entrelaçadas que os seus contornos se perdem quando se olham mais de perto. Lembram as paisagens da Provença, ao crepúsculo. Os detalhes nem sempre se conseguem ver à vista desarmada, é necessário um esforço de concentração para então se revelar, em segundo plano, sob a ínfima luz que ainda resta, a explosão de caracteres ainda errantes mas já querendo exprimir a intenção que irrompe da vontade irreprimível de improvisar uma revelação. Qual, quais? As que, embora insuficientes, sejam indispensáveis para detonar o tema que há-de sempre acompanhar a desobediência. É nela que está depositada boa parte do que se julga poder vir a modificar o andamento que por estes dias serve de obstáculo á passagem para quem chega e quer ficar, e tendo feito dos lugares por onde passou outros tantos motivos para não parar, não parou.


 

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