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08 DE JANEIRO DE 2009, QUINTA FEIRA
A propósito de mais um Aniversário da Revolução Cubana
Guilherme da Fonseca-Statter
"É de longa data a ideia de que é de bom-tom, ou politicamente correcto, desancar naquilo que terá sido conseguido em Cuba depois da tomada do poder por parte dos revolucionários liderados por Fidel de Castro. A julgar pelo teor de alguns dos escritos que tenho encontrado, designadamente na imprensa portuguesa e a acreditar nos relatos de alguns dos turistas que até lá vão passar umas férias, aquilo é mesmo uma miséria...". Lei aqui esta ineressante opinião de Gulherme Statter a propósito de alguns comentários avulsos que foram feitos sobre mais um aniversário da Revolução Cubana.

A propósito de mais um Aniversário da Revolução Cubana

É de longa data a ideia de que é de bom-tom, ou politicamente correcto, desancar naquilo que terá sido conseguido em Cuba depois da tomada do poder por parte dos revolucionários liderados por Fidel de Castro.

A julgar pelo teor de alguns dos escritos que tenho encontrado, designadamente na imprensa portuguesa e a acreditar nos relatos de alguns dos turistas que até lá vão passar umas férias, aquilo é mesmo uma miséria... Alguns dizem-me que a cidade de Havana estará numa decadência, com alguns dos edifícios mais nobres da cidade com aspecto profundamente degradado. Nesse particular respeito, os turistas portugueses não precisavam de ir tão longe. Bastava-lhes dar uma volta pelos bairros antigos de Lisboa ou do Porto... Mas enfim, cada um vê aquilo que quer ver. Segundo ouvi na rádio aqui há uns dias, alguém se queixava de que “não havia dinheiro” para recuperar grande parte do património histórico e cultural português. Julgo também ter ouvido que cerca de 40% desse património, classificado como sendo de interesse pela própria UNESCO, estaria em risco de degradação total e definitiva.

Voltando à questão do quinquagésimo aniversário da Revolução Cubana, pareceu a alguns comentadores ser oportuno fazer uma espécie de balanço. Seria portanto ocasião para se colocar em dois pratos de uma balança analítica, aquilo que positivo e de negativo aconteceu (ou se deixou acontecer) em Cuba ao longo destes últimos cinquenta anos. Seria de esperar que, a esse respeito, se fizesse também uma, ainda que sucinta ou rudimentar, listagem dos condicionamentos externos e dos múltiplos factores intervenientes que tenham interferido e afectado o desenrolar “normal” dos acontecimentos naquele país.

Uma coisa é insofismável. Vive-se em Cuba em regime de ditadura de um só partido. Tal como é insofismável que se vive nos Estados Unidos em regime de ditadura de só dois partidos. Aquando da condenação à morte de uns dissidentes cubanos, tive ocasião de me manifestar contra. Até pela simples razão de que, como princípio ético geral, sou contra a pena de morte. E ponto final. No entanto já não sou contra penas de trabalhos forçados. Coisa que certamente escandalizará muitos espíritos bem pensantes. E no caso dos tais dissidentes tive ocasião de perguntar porque razão eles não eram antes condenados a estudar uns calhamaços quaisquer (já nem me lembro bem quais...), de fio a pavio, alternando esse estudo com a tarefa de partir pedra – por exemplo - para a reparação de estradas e caminhos de interesse público. Mas estou a desviar-me do assunto...

Uma vez reconhecida a situação de “ditadura do proletariado”, seria de interesse avançar para os resultados alcançados. Uma vez feita essa avaliação seria razoável imaginar o que poderia ter sido alcançado se os tivessem deixado em paz... Designadamente se não houvesse o boicote declarado pelos Estados Unidos, logo a seguir à nacionalização – sem indemnização – das empresas norte-americanas que até aí se tinham entretido a explorar recursos cubanos, com a corrupta conivência da ditadura de Fulgêncio Baptista. Seria também da mais elementar honestidade intelectual assinalar que enquanto a ditadura de Baptista era aceite e apoiada pela administração norte-americana, já a outra ditadura, a dos revolucionários liderados por Fidel de Castro, essa era inaceitável...

Imaginemos como poderia ter sido... Se não houvesse boicote dos Estados Unidos, teria havido (tem havido...) empresários norte-americanos interessados em ali investir, sem ser em casinos e bordéis de luxo. Foram investir na China comunista, porque razão não haviam de investir em Cuba, ali muito mais à mão e com praias maravilhosas. Mas, se não houvesse muitas empresas americanas interessadas, provavelmente haveria canadianas e europeias, se a interdição e boicote dos Estados Unidos não se estendesse, por via indirecta, a todos os países e empresas que negociassem com Cuba...

Pois é. Mesmo assim, sem qualquer tentativa de analisar minimamente as causas da actual situação de Cuba (a ilação subliminar acaba por ser clara – gato escondido com o rabo de fora – “a culpa é toda da ditadura”...), mesmo assim alguns comentadores sempre vão dizendo algumas coisas como “Economicamente, Cuba é hoje um dos países mais pobres da América Latina” (Vital Moreira, 6 de Janeiro de 2009 in “A Revolução Exangue”).

Mais adiante, diz-nos o mesmo comentador que “Nos principais índices de bem-estar material de uma sociedade moderna, Cuba ocupa sistematicamente os lugares inferiores em termos comparados. Os níveis de rendimento são em geral muito baixos”. Vamos por partes.

A América Latina é um conjunto de 24 países independentes, sendo 21 de língua espanhola, 2 de língua francesa e 1 de língua portuguesa. Penso que será razoável interpretar aquela afirmação de Vital Moreira “um dos países mais pobres da América Latina”, como querendo significa que estaria entre os últimos lugares de uma qualquer classificação relativamente à economia, strictu senso.
Fui ver e verifiquei que não é bem assim.

De acordo com as estimativas da CIA (o Banco Mundial e o FMI ignoram Cuba...) o PIB de Cuba (em paridade de poder de compra) era em 2007 de 125.500 milhões de dólares. Estava em 57º lugar numa tabela elaborada a partir dos dados daquela Agência Central de Informação dos Estados Unidos.

De acordo com as mesmas estimativas, Cuba aparece em 73º lugar mundial, mas em 6º lugar entre os países da América Latina. Com base em cálculos que levam em linha de conta as necessidades alimentares, para uma vida saudável, de um agregado familiar, despesas adicionais de habitação em conforto médio de acordo com normas socialmente aceites, incluindo acesso a água, electricidade, e serviços de sanidade pública, e considerando que a instituições como o Banco Mundial e o FMI, só porque a vida económica em Cuba não obedece lá aos cânones da sua ortodoxia neoliberal, simplesmente ignoram a existência daquele país, com base nesse tipo de cálculos, a CIA (imagine-se) atribui a Cuba um rendimento per capita anual, equivalente a 11.000 dólares. A mesma CIA atribui os seguintes valores a outros países da América Latina:

Chile 14.300
Argentina 13.100
Venezuela 12.800
México 12.400
Costa Rica 11.100
Cuba 11.000
Uruguay 10.800
Panamá 10.700
Brasil 9.500
Perú 7.600
Ecuador 7.200
Guatemala 5.100
Paraguai 4.000
Haiti 1.300

Afinal não era bem assim. Se calhar Vital Moreira queria dizer que ”um dos países menos pobres” ou então ”um dos países mais ricos da América Latina”.

A menos que, e digo isto sem qualquer ponta de sarcasmo, o senhor Vital Moreira tenha um critério pessoal de medir a riqueza económica dos países. Por exemplo, quantas lojas há de comércio de luxo, ou quantos automóveis de alta cilindrada de último modelo, ou ainda quantos jornais desportivos, sei lá...

Já no que diz respeito à sua afirmação de que “Nos principais índices de bem-estar material de uma sociedade moderna, Cuba ocupa sistematicamente os lugares inferiores em termos comparados”, também seria bom saber o que se entende “índices de bem estar material de uma sociedade moderna”. À falta de melhor tenho que me socorrer dos dados do PNUD-Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

Com base em ideias do prémio "Nobel" da Economia Amartya Sen, o PNUD desenvolveu uma metodologia, considerada bastante mais completa do que a simples indicação do “PIB per capita”, para medir o grau de desenvolvimento humano (mais abrangente) dos diversos países... São elaborados com base em estatísticas, observações e inquéritos periódicos no terreno. Este índice combina os elementos fundamentais da saúde, do rendimento e da escolaridade. Refinaram também com índices do desenvolvimento do género (a questão da mulher na sociedade), assim como o índice de desigualdade na distribuição do rendimento e da riqueza.

Pois bem, de acordo com as últimas estatísticas do PNUD, Cuba está bastante bem e recomenda-se... Em alguns casos está mesmo muito melhor do que muitos países da dita cuja América Latina.

Em 2003, por exemplo, na listagem do HDI (Human Development Índice de Desenvolvimento Humano) do PNUD, em que no topo da tabela está a Islândia (com 0,968). Cuba estava com 0,817 e à sua frente – na América Latina - apenas estavam a Argentina, o Chile e o Uruguai (sempre com diferenças mínimas. Já em 2005, estava também a Costa Rica. Mesmo assim o índice de desenvolvimento humano de Cuba tinha subido para 0,838. No peso das crianças com menos de 5 anos de idade, por exemplo, um bom indicador da saúde "social!, estava em 24º lugar mundial.
Na questão da literacia de adultos estavam em primeiro lugar (mundial).

Moral da estória, os funcionários da CIA (imagine-se!...) que elaboram aquelas estimativas, assim como os especialistas das Nações Unidas, estão todos enfeudados ao regime cubano.
Só pode...


P.S. – Todos os dados numéricos aqui referidos estão disponíveis nos sítios das instituições indicadas, nomeadamente o CIA Factbook e o UNDP (ou PNUD). Também lá se pode chegar através de Wikipedia, assim como, no caso do PNUD, pelos Relatórios Anuais disponíveis em Ana Paula Faria Editora, Lisboa.

Guilherme da Fonseca-Statter
7 de Janeiro de 2009


 

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