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08 DE DEZEMBRO DE 2007, S√ĀBADO
por Jorge Nascimento Fernandes
‚ÄúLenine e a Revolu√ß√£o‚ÄĚ de Jean Salem ‚Äď Uma an√°lise cr√≠tica ‚Äď Parte I
"Critica ao livro de Jean Salem, Lenine e a Revolu√ß√£o, lan√ßado recentemente pelas Edi√ß√Ķes Avante!. A I Parte refere-se ao autor, √† sua passagem recente por Portugal e ao pref√°cio, uma an√°lise com interesse a algumas das ideias feitas sobre o que foi a hist√≥ria da URSS e do comunismo. Uma II Parte, a publicar posteriormente, ser√° relativa √† quest√£o controversa do que Lenine pensava da Revolu√ß√£o."
Foi lan√ßado com pompa e circunst√Ęncia o livro das Edi√ß√Ķes Avante!, de Jean Salem, Lenine e a Revolu√ß√£o. Contou coma presen√ßa de Jos√© Barata Moura e de Francisco Melo, respons√°vel por aquela editora e membro do Comit√© Central do PCP. J√° sabe que este √ļltimo, na linha da rubrica Actual, do jornal Avante!, n√£o se eximiu de dar as ferroadas do costume √† esquerda, tendo dito que ‚Äúno PCP ¬ęn√£o alinhamos¬Ľ na moda de apresentar ¬ęos anais do comunismo como um itiner√°rio de erros e trag√©dias¬Ľ. At√© porque, para a hist√≥ria da derrota do socialismo real, contribu√≠ram tamb√©m ¬ępretensos renovadores que sepultaram com isso a sua pr√≥pria identidade de comunistas¬Ľ".

Este livro já tinha sido antecedido de uma entrevista ao seu autor, publicada no referido jornal, bem como de um artigo de opinião de Miguel Urbano Rodrigues, ainda relativo à edição francesa, e publicado inicialmente em ODiário.info e transcrito por Resistir.info, juntando assim dois sites que pensava que estavam de candeias às avessas.
Jean Salem j√° tinha apresentado este livro ou pelo menos o seu pref√°cio no II Encontro Internacional de Serpa, que decorreu a 5, 6 e 7 de Outubro, sob o lema Civiliza√ß√£o ou Barb√°rie. O encontro foi organizado pelo site de ODiario.info ao contr√°rio do primeiro que tinha sido pelo Resistir.info. Este n√£o teria o apoio da Direc√ß√£o do PCP, dado que s√≥ depois de ele se ter realizado √© que apareceu uma not√≠cia min√ļscula no Avante!. No entanto, n√£o quero deixar de sublinhar por um lado a qualidade de muitos dos intervenientes internacionais, em que se destaca a presen√ßa de Samir Amim ou de Istv√°n M√©sz√°ros e por outro o caracter quase confidencial deste Encontro. Pela qualidade dos participantes e pelos assuntos a discutir esta realiza√ß√£o mereceria outra divulga√ß√£o, que suspeito nada tem a ver com o boicote real dos media dominantes, mas com o local escolhido para a sua concretiza√ß√£o e o esp√≠rito de capelinha dos organizadores, que s√£o incapazes de apelar √† participa√ß√£o das diversas correntes da esquerda.

Mas voltemos ao livro. Este √© constitu√≠do por tr√™s partes, de valor e tamanho desigual. Uma primeira, o pref√°cio, que visa desmascarar a opera√ß√£o a que se tem dedicado a intelectualidade dominante relativamente ao movimento comunista, √† Revolu√ß√£o de Outubro e √† URSS. A segunda, a mais controversa, que retoma o t√≠tulo do livro e em que o autor pretende em seis teses descrever o que Lenine pensava sobre a Revolu√ß√£o e a √ļltima, em forma de posf√°cio, muito sint√©tico, a que o autor chama pomposamente ‚ÄúDez minutos para acabar com o capitalismo‚ÄĚ, tenta desmascarar algumas das ideias dominantes da sociedade capitalista.

No pref√°cio ficamos a saber que o autor √© filho de um velho comunista franco-argelino Henri Alleg, que se tornou c√©lebre porque durante a Guerra da Arg√©lia denunciou num livro, La Question, a tortura a que tinha sido submetido pelos p√°ra-quedistas franceses, quando foi preso na Arg√©lia ainda sob dom√≠nio franc√™s. Posteriormente, j√° em Fran√ßa evadiu-se da cadeia e fugiu para a Checoslov√°quia, o que levou o autor a ter passado parte da sua inf√Ęncia na R√ļssia, tal como muitos dos filhos dos clandestinos portugueses.
No pref√°cio, igualmente, o autor denuncia ‚Äúaquilo que, em 2006, se diz geralmente da URSS antes e durante a Segunda Guerra Mundial; aquilo que se diz sobre os setenta anos sovi√©ticos, que se staliniza inteiramente; aquilo que se diz acerca do ‚Äútotalitarismo‚ÄĚ, conceito onde cabe tudo; e aquilo que se diz... sobre o fim da Uni√£o Sovi√©tica‚ÄĚ.
Para cada um destes pontos referidos d√°, entre outros, os seguintes exemplos: segundo uma sondagem a maioria dos jovens franceses considerava que a URSS tinha sido aliada da Alemanha hitleriana durante a II Guerra Mundial, v√≠timas da refer√™ncia constante nos media dominantes ao pacto germano-sovi√©tico. Recorda igualmente um artigo de Moshe Lewwin, em que este fala da impostura que consiste em stalinizar a totalidade da hist√≥ria da URSS, ‚Äúa qual, do princ√≠pio ao fim, nunca teria sido mais do que um imenso ‚Äúgulag‚ÄĚ, uniforme e recome√ßado.‚ÄĚ Ou ainda relembra Hannah Arendt (As Origens do Totalitarismo - Dom Quixote) que escreve ‚Äúque os sistemas nazi e bolchevique‚ÄĚ n√£o s√£o mais do que ‚Äúduas variantes do mesmo modelo‚ÄĚ. O que leva o historiador Ernest Nolte a perguntar ‚ÄúO assassino por perten√ßa de classe‚ÄĚ perpetrado pelos bolcheviques n√£o ser√° o precedente l√≥gico e factual do ‚Äúassassino por perten√ßa racial perpetrado pelos nazis?‚ÄĚ Afirmando depois aquele historiador, porque ‚ÄúAuschwitz‚ÄĚ resultaria ‚Äúprincipalmente... de uma reac√ß√£o, ela pr√≥pria fruto da ang√ļstia suscitada pelos actos de exterm√≠nio cometidos pela revolu√ß√£o russa‚ÄĚ.

Termina este pref√°cio com a parte mais discut√≠vel e critic√°vel ao recusar explicitamente a tese de Moshe Lewin que ‚Äún√£o foi a corrida aos armamentos... que causou a morte da URSS, embora tenha tido influ√™ncia‚ÄĚ. O ‚Äúfactor decisivo‚ÄĚ devia ser procurado ‚Äúnos mecanismos pr√≥prios do sistema sovi√©tico‚ÄĚ. Para Jean Salem a causa n√£o poderia ‚Äúser separada da formid√°vel press√£o exercida pelo campo adverso‚ÄĚ. E neste caso, o nosso autor n√£o recorre, como o homem do Comit√© Central, citado no in√≠cio, aos ¬ępretensos renovadores que sepultaram com isso a sua pr√≥pria identidade de comunistas¬Ľ.

Posso afirmar que este pref√°cio faz uma cr√≠tica despretensiosa, apesar de nem sempre muito bem estruturada, √† ofensiva ideol√≥gica contra o comunismo expressa pela literatura pol√≠tica dominante, hoje rapidamente vertida para portugu√™s. √Č que presentemente, sem cairmos na defesa do estalinismo e dos seus crimes e tendo sempre uma vis√£o cr√≠tica daquilo em que se tornou o ‚Äúsocialismo real‚ÄĚ, h√° a necessidade, muitas vezes contra outras correntes de esquerda, de esclarecer e valorizar o que foi a Revolu√ß√£o de Outubro e o papel que Lenine e os outros chefes revolucion√°rios, como Trotski ou Bukharine, desempenharam na sua concretiza√ß√£o e nas orienta√ß√Ķes seguidas nos primeiros anos do Estado Sovi√©tico.

A análise e a crítica à parte dedicada ao Lenine e a Revolução ficam para um segundo artigo.


 

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