Comunistas.infoComunistas.infoComunistas.info
QUEM SOMOS
ACTUALIDADE
-
24 DE FEVEREIRO DE 2008, DOMINGO
Cronologia sumária do debate
"Problema da Transformação do Valor em Preços"
por Guilherme Statter
Prossegue a intensa discussão acerca do problema da transformação do valor - uma função do trabalho - em preços - uma função do mercado. Este é o difícil e apaixonante tema que mobiliza defensores e adversários do marxismo. Guilherme Statter traz-nos aqui uma resenha cronológica desta dicussão como parte dos seus estudos à volta de um dos temas chave da teoria.
1817
Ano da publicação de "On the Principles of Political Economy and Taxation".
David Ricardo semeia a confusão (no sentido literal de lançar a semente) ao dar-se conta de que a "sua" Teoria Laboral do Valor não estaria de acordo com a realidade observada. As empresas com diferentes composições orgânicas de capital tendiam mesmo assim a obter taxas de lucro tendencialmente equivalentes.
Segundo aquela Teoria Laboral do Valor, capitais com diferentes composições orgânicas do capital e com iguais taxas de exploração, tenderiam a ter diferentes taxas de lucro.
A observação empírica e a lógica do mercado concorrencial dizem que a taxa de lucro deverá tender a ser a mesma para todos os capitais.


1867
Ano da publicação do Volume I de "O Capital"
Karl Marx analisa aí o funcionamento do sistema capitalista.
O Volume I de O Capital faz a análise de uma perspectiva que hoje se classificaria de "micro", ou seja, "de baixo para cima" ou, ainda de outra maneira, a partir das motivações dos capitalistas individualmente considerados no processo de produção, mas sem considerar ainda a perspectiva do sistema como um todo.


1885
Friedrich Engels, ao publicar o Volume II de O Capital - já depois da morte de Karl Marx - lança um repto aos economistas do seu tempo, convidando-os a tentar adivinhar como é que Marx resolvia a contradição lógica apresentada por David Ricardo, sendo que a referida solução de Marx seria apresentada no Volume III de O Capital cuja edição ele (Engels) estava a preparar


1894
Karl Marx, apresenta (postumamente) no referido Volume III a explicação para a referida contradição "ricardiana". De acordo com a Teoria Laboral do Valor, a única e exclusiva fonte do lucro é justamente essa massa de "valor excedente".
E explicação de Marx poderá resumir-se a uma expressão do estilo "o capitalismo é um sistema em que a extracção do lucro é feita de acordo com, ou proporcionalmente à capacidade de, exploração do "capital variável" ou trabalho vivo e em que a distribuição do lucro extraído é feita de acordo com a capacidade de controle do "capital constante" ou trabalho armazenado".
O mercado global acabaria assim por funcionar como um grande armazém ou depósito de "valor excedente" (ou "mais-valias"...)
Todos e cada um dos capitalistas produtores de bens e serviços contribui para o "bolo comum" de acordo com o que consegue extrair das suas empresas e depois todos e cada um dos capitalistas vai lá buscar uma fatia de acordo com a totalidade dos capitais respectivamente investidos.


1896
Eugen Von Bohm-Bawerk denúncia de forma "contundente" a explicação proporcionada por Karl Marx e afirma que este falhou redondamente, tendo aliás cometido elementares erros de cálculo na sua explicação e demonstração do funcionamento da igualização das taxas de lucro de diferentes capitais com diferentes composições orgânicas.
Bohm-Bawerk declara também, urbi et orbi e de uma vez por todas, a irrelevância do conceito de "valor", dizendo que só é válida e pertinente a análise feita em preços e de acordo com as regras da utilidade marginal dos bens mercantis.


1904
Rudolf Hilferding critica severamente a "denúncia" de Bohm-Bawerk e explica com detalhe a solução proposta por Marx no seu Volume III, insistindo na relevância do "valor" como categoria analítica (positiva) e criticando a abordagem subjectivista da escola marginalista.


1907
Ladislau Bortkiewicz confirma a "existência de erro" na explicação de Marx e propõe uma solução para a "transformação de valores em preços", mas limitada ao caso da reprodução simples.


1948
J. Winternitz publica “Values and Prices: A Solution of the So-called Transformation Problem” Economic Journal, 58 (230), 276–280, assinalando que não era necessário limitar o caso a um modelo de reprodução simples: poderia ser alargado a um modelo mais geral de crescimento de três sectores, aceitando como restrição sistémica a igualdade do produto bruto total, quer em valor-trabalho quer preço-dinheiro.


1949
Paul Sweezy dá a conhecer ao mundo anglófono os trabalhos de Böhm-Bawerk e Bortkiewicz sobre a temática do problema da transformação


1960
Piero Sraffa publica o seu "Production of Commodities by Means of Commodities: Prelude to a Critique of Economic Theory" em que retoma e actualiza a abordagem de Bortkiewicz num quadro de um modelo de produção linear.
Como indica o título do seu livro, a interpretação Sraffiana significa que (1) os dados fundamentais da teoria de Marx são assumidos como quantidades físicas, quer em termos de coeficientes técnicos de produção, quer em termos de "salários reais", (2) a taxa de lucro é determinada em simultâneo com os preços de produção e (3) quer a taxa de lucro quer os preços de produção são derivadas das quantidades físicas das mercadorias produzidas.
Os nomes mais comuns desta corrente são Ronald Meek, Maurice Dobb, Michio Morishima, e Ian Steedman. Esta tornou-se a mais conhecida "interpretação" do problema.


1971
Paul Samuelson publica no Journal of Economic Literature , um ensaio sob o título "Understanding the Marxian Notion of Exploitation: A Summary of the So-Called Transformation Problem Between Marxian Values and Competitive Prices", o qual é geralmente creditado como tendo encerrado a questão.
É também formulado o famigerado "algoritmo da borracha", o qual reconhece, pelo menos de forma implícita, a relativa incompatibilidade dos dois paradigmas alternativos relativamente ao significado e relacionamento entre os conceitos de "valores" e "preços".


1980
Gérard Duménil publica na revista Economica o ensaio "De la Valeur aux Prix de Production Une Reinterpretation de la Transformation "


1982
Duncan Foley publica na "Review of Radical Political Economy" o ensaio "The Value of Money, the Value of Labor Power, and the Marxian Transformation Problem"



1983
Gérard Duménil publica na revista Science and Society o ensaio "Beyond the Transformation Riddle: A Labor Theory of Value"


1984
Os trabalhos de Foley, Duménil (assim como, entre outros, Dominique Lévy e Alain Lipietz) passam a ser conhecidos como a "Nova Interpretação", "Nova Solução" ou "Nova Abordagem".
Basicamente, enquanto que Piero Sraffa tinha elaborado o problema numa base de "fisicalismo" (quantidades físicas dos bens e mercadorias em geral), os autores da "Nova Interpretação" consideram o problema, parcialmente, de um ponto de vista de expressão monetária do valor.
Na "Nova Solução", no entanto o "capital constante" continua a ser perspectivado de um ponto de vista de "determinados coeficientes técnicos de produção, quer em termos de "valores", quer em termos dos "preços" meios de produção utilizados.

A abordagem da tradição Bortkiewicz/Sraffa vem entretanto a ser conhecida como "Sistema Dual" (ou "Dual System") de "valores" e "preços", em que o problema da transformação consiste em encontrar um algoritmo, ou regra matemática geral, que permita "transformar" os "valores" em "preços". São assim supostos existirem em simultâneo, dois sistemas paralelos de "contabilidade": um em "preços", outro em "valores". Esta corrente é por vezes também designada por "simultaneísta"

Entretanto, a "Nova Interpretação" acaba assim por se poder encaixar também na corrente dualista, na medida em que aceita que haja uma alteração lógica do capital constante e da taxa de lucro entre o conteúdo do Volume I e o conteúdo do Volume III de O Capital.


1985
Entretanto a corrente que defende a consistência lógica interna da obra de Marx começa a ser conhecida como TSSI ou "Temporal Single System Interpretation".
- "Temporal"
porque considera a evolução no tempo do conteúdo substantivo dos valores e dos preços, em oposição ao simultaneísmo de Bortkiewicz e dos autores da "Nova Interpretação"
- "Single System" porque, tal como explicava Hilferding, Marx considerava que os "preços" são apenas a objectivação ou "actualização" dos "valores".

1985
2007
Mantém-se a linha divisória entre os "dualistas-simultaneístas" (herdeiros da tradição de Bortkiewicz) e os "ortodoxos renovados", defensores da interpretação "temporal" e de um "sistema singular" de "contabilidade de valores e preços".
Enquanto os "dualistas-simultaneístas" acusam os autores de defenderam a tese de que "Marx nunca se enganou", estes defendem-se dizendo que defendem "apenas" a coerência lógica interna de todo a obra de Marx, em particular a articulação entre a substância do Volume I e do Volume III de O Capital.
Prosseguem os estudos e elaborações matemáticas para resolver uma eventual coerência ou convergência entre uma análise "estática" (a da corrente "dualista-simultaneísta" e uma análise intrinsecamente "dinâmica" (a da corrente "temporal").
A análise económica convencional, ortodoxa neoliberal, continua tranquila e soberanamente a ignorar o "problema" (qual problema?...)


 

O seu comentário
Os campos assinalados com * são de preenchimento obrigatório

Digite em baixo os caracteres desta imagem

Se tiver dificuldade em enviar o seu comentário, ou se preferir, pode enviar para o e-mail newsletter@comunistas.info.